Isso não pode estar acontecendo. Isso não pode estar acontecendo.
Apertei o botão do elevador pela enésima vez, como que na esperança de que isso fosse apressá-lo, repetindo a mesma frase mentalmente, como um mantra.
Pisquei os olhos reiteradamente para, ao menos, atrasar as lágrimas que já se acumulavam, deixando minha visão embaçada.
Pulei para dentro do elevador no instante em que as portas se abriram, dando graças aos deuses por ele estar vazio. Tudo que eu não precisava no momento era ser vista chorando. Já havia tido minha cota de momentos constrangedores do dia.
Cruzei o saguão com passos largos, esforçando-me ao máximo para manter a postura ereta e a cabeça erguida.
Ciente de que a impressão de que todos estavam olhando para mim não passava de um truque da minha mente paranoica, respirei fundo e me obriguei a continuar, parando apenas quando deixei a porta giratória para trás.
Senti o vento frio do fim de tarde bagunçar o meu cabelo e apenas absorvi a sensação, deixando as lágrimas represadas escorrerem por meu rosto.
Me afastei alguns passos do prédio imponente que se erguia diante de mim, apenas para poder observá-lo melhor.
As letras 'H&L Editorial' já estavam iluminadas, colaborando para formar o cenário psicodélico que apenas o lusco fusco na Avenida Paulista pode proporcionar.
Funguei mais algumas vezes antes de virar as costas para o prédio que, por quatro anos, havia sido meu segundo lar. Onde eu havia passado madrugadas debruçada em pilhas de originais sem pé nem cabeça, simplesmente porque, por pior que fossem, eu não conseguia deixar de lê-los até o final. Só eu sabia o quanto havia me dedicado àquele emprego, como havia feito das tripas coração para conseguir fechar contratos com autores renomados. Tudo para, depois de todo esse tempo, ser mandada embora por contenção de despesas.
Apertei a bolsa contra o corpo, seguindo em direção ao metrô.
Depois de um dia de merda como aquele, só queria chegar em casa, abrir uma garrafa de vinho e relaxar. E, se possível, me afogar numa panela de brigadeiro.
Digitei apressadamente uma mensagem no celular:
'Você não sabe o dia que eu tive. Preciso muito de um abraço seu. Vai chegar tarde hoje?'
Antes mesmo que pudesse colocar o celular na bolsa, escutei o apito de resposta:
'Já estou em casa. Pedi uma pizza. Conversamos quando você chegar'.
Sorri, desanimada, e joguei o celular de qualquer jeito na bolsa, me preparando psicologicamente para encarar a batalha diária de pegar o metrô de volta para casa as 19 horas de uma sexta feira em São Paulo.
__
Parei diante do porta do meu apartamento e busquei, dento da bolsa bagunçada, meu molho de chaves.
Ouvi o latido rouco de Joey, meu pug gorducho e preguiçoso - a criatura mais amada por mim – e soube que ele estava me esperando do outro lado da porta, com algum chinelo ou qualquer outra coisa inapropriada na boca, como fazia todos os dias, desde que Marcelo havia me presenteado com ele, em comemoração por termos, finalmente, o nosso 'lar, doce lar'.
Abri a porta e logo fui recepcionada com pulos, lambeijos e uma edição da revista 'Viajar Mais' toda lambida e mastigada.
Afaguei o pelo macio e cheiroso de Joey, em agradecimento pelo presente especial que ele havia selecionado para mim naquele dia e joguei minha bolsa em cima da poltrona de couro vermelho que adornava nossa sala.
Nosso apartamento era pequeno, mas tudo parecia se encaixar perfeitamente.
Poderia ser maior, ou melhor localizado, mas era o que podíamos pagar e, sinceramente, eu era louca por ele. Com cada rachadura e mancha no carpete.
Chamei por Marcelo mas ele não respondeu. Devia estar no banho.
Estava louca para fazer exatamente o mesmo. Tomar um banho quente e demorado, que dissolvesse cada um dos nós da minha musculatura tensa e me largar no sofá com uma taça de vinho numa mão e uma página dos classificados na outra.
Com a demora de Marcelo, resolvi pegar uma fatia da pizza que ele havia deixado em cima do fogão para mim.
Marcelo era residente do curso de medicina, o que o obrigava a trabalhar em uns horários bem malucos, mas havíamos adaptado nossa rotina a esses horários de modo que quase sempre conseguíamos tomar pelo menos o café da manhã juntos.
Pode parecer besteira, mas cresci ouvindo que família que come unida, permanece unida.
Na casa dos meus pais, não havia outra opção senão comermos todos juntos. Era uma regra que ninguém podia desobedecer, nem mesmo Lisa, minha irmã mais nova, que parecia ter passe livre para fazer o que bem entendesse.
Chamei mais uma vez por Marcelo e, como ele não respondeu, decidi me juntar a ele no banho. Ele saberia exatamente o que fazer para me relaxar.
Entrei no quarto e um desconforto na boca do estômago me atingiu em cheio.
Marcelo estava sentado na cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto coberto pelas mãos.
No chão, diversas malas e sapatos espalhados completavam aquela cena completamente sem sentido.
Ignorei os batimentos acelerados do meu coração e me obriguei a falar, tentando esconder o tremor em minha voz:
- Para onde você está indo?
Marcelo não respondeu, apenas soltou um soluço, me fazendo perceber que estava chorando.
O desespero tomou conta de mim e me joguei na cama ao lado dele. Marcelo não era um cara de chorar, nem mesmo se emocionava facilmente. Decerto alguma coisa terrível tinha acontecido.
Meu pensamento logo voou para sua irmã, que estava nos meses finais da gestação, mas me lembrei que havia falado com ela naquela mesma tarde e tudo estava indo maravilhosamente bem.
- Amor, o que está acontecendo? Fala comigo!
Ele ergueu seu rosto para me encarar e o que encontrei lá foi desolação:
- Laura, eu sinto muito...
Alguma coisa aconteceu com meu coração naquele momento, impedindo meu sangue de circular e fazendo com que ele se acumulasse em minha cabeça, que latejava com força.
- V-você sente muito por que? O que está acontecendo, Marcelo?
- Eu não posso mais fazer isso – gritou ele, jogando as mãos para o alto em um gesto de rendição – Eu sinto muito, Laura, você merece alguém melhor que eu.
Tentei me levantar e me afastar dele, mas o quarto pareceu estar girando.
Abri a boca para falar qualquer coisa, mas minha garganta estava seca demais e as palavras se enroscavam, me deixado entalada:
- Do que você está falando, Marcelo? O que você está fazendo?
Só percebi que estava chorando quando ouvi minha voz embargada e desesperada.
- Eu estou vendo outra pessoa.
Naquele momento, senti que o chão sob meus pés deixou de ser sólido, transformando-se em um mangue de areia movediça que me sugava para baixo.
Como Alice, me senti caindo eternamente para dentro de um buraco sem fundo.
Nada mais pareceu fazer sentido e eu achei que fosse vomitar.
- Você o quê??? – Berrei, me esforçando para ficar em pé e posicionando-me diante dele - repete Marcelo, você o quê???
- Eu sinto muito por isso, tá legal? Não queria que as coisas tivessem acontecido assim. Eu sei que não tem nenhuma desculpa e que você não merecia isso, mas aconteceu...
Ouvi o tapa atingindo seu rosto antes mesmo de ter noção de que eu o havia desferido.
Resignado, Marcelo permaneceu com a cabeça baixa.
- Quem é ela? - perguntei. Pode parecer puro masoquismo, mas se estávamos terminando um namoro longo e um noivado de dois anos, eu tinha o direito de saber quem era a responsável.
- Você não conhece...
- QUEM É ELA, MARCELO? – Berrei, sem nem mais fazer questão de esconder que estava completamente descontrolada.
- Júlia, uma enfermeira do hospital.
Senti minhas pernas fraquejarem e me sentei novamente ao lado dele, os soluços chacoalhando meu corpo.
Ele tentou me tocar, mas eu o impedi, repelindo sua mão com um tapa.
- Eu quero que saiba que eu não vou querer nada daqui. Vou deixar você com tudo. O carro, o apartamento, o Joey...
- Para onde você vai? – perguntei baixinho, mais por força do hábito. A ideia de saber que ele não faria mais parte da minha vida e que eu não saberia mais nada sobre a dele estraçalhava meu coração em vários pedacinhos.
Eu não conseguia entender com havíamos parado lá. Não queria ser daquelas garotas que se culpam por serem vítimas, mas não pude deixar de questionar se não havia deixado alguns sinais escaparem.
Doía demais segurar aquela bomba.
- Para a casa dos meus pais. Vou ficar lá até concluir a residência.
Assenti, fungando o nariz.
- Há quanto tempo você está me traindo?
Ele demorou para responder, prolongando meu sofrimento:
- Dois meses.
- Vocês transaram? – perguntei.
Não sei que diferença a resposta faria, eu já estava morta por dentro, mas senti cravarem uma faca ainda mais fundo em meu peito quando ele me olhou com cara de choro e me pediu para que eu não perguntasse aquilo.
Permaneci ali, largada na cama, acompanhada de Joey, que abanava seu rabinho arrebitado para mim, sem ter a menor consciência de que, em apenas um dia, meu mundo havia desmoronado.
Observei Marcelo pegar suas malas e se dirigir até a porta. O vazio que ele havia deixado no armário só não era maior que o rombo que ele havia aberto em meu peito.
- Acho que não preciso mais disso - disse, estendendo para mim a chave do apartamento – eu desejo tudo de melhor para você, Laura. Sinto muito por tudo e espero que você seja verdadeiramente feliz.
Ouvi a porta do apartamento se fechar e me larguei em um choro copioso e dolorido.
Chorei até meus olhos ficarem tão inchados a ponto de eu não conseguir abri-los.
Chorei por Marcelo e por tudo que ele significava em minha vida. Chorei pelo emprego que eu havia perdido e pela consciência de que, no dia seguinte, eu não teria ninguém para dividir a mesa do café comigo.
Chorei por entender que eu havia perdido, em apenas um dia, tudo que havia construído nos últimos anos.
Se a vida fosse um jogo de tabuleiro, eu teria recuado diversas casas.
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O Garoto Irlandês
RomanceApós ser demitida e abandonada pelo noivo - no mesmo dia - Laura parte em uma viagem para a Irlanda, em busca de forças para recomeçar. Mas o que fazer quando o destino parece ter outros planos? O que era para ser uma jornada de auto-conhecimento...
