Por que a vida era assim? Por que eu nunca conseguia fazer nada certo? Por que todos se afastavam de mim? Minha vida se resume praticamente a essas e a mais outras tristes perguntas. Simplesmente parecia que eu nunca era feliz, e quando eu tinha um breve momento de alegria, a vida o destruía, tão rapidamente quanto veio.
Qual era a minha real importância nesse mundo? Eu não sabia dizer. Há mais de um ano eu simplesmente comecei a ficar em casa, vegetando, porque havia cansado de viver daquele jeito. Já pensei seriamente em me matar. Em acabar com tudo isso. Seria tão rápido, e o único jeito de me curar. Minha mãe, a única pessoa que realmente se importava comigo morrera seis meses atrás, então minha ausência no mundo não incomodaria ninguém.
Mas eu não conseguia me matar. Sempre que eu armava a corda, ou sentava na janela, pronto para me desligar dessa vida, eu ficava com medo. Medo de quê? Não sabia. Talvez do que me aguardasse na pós-vida, se esta realmente existisse. Ou talvez seja porque nem mesmo a morte pode me salvar.
Mas pelo visto, não precisaria me suicidar. Do jeito que eu estava, não iria demorar tanto tempo até a morte me alcançar. Andava comendo e bebendo muito pouco, sem me cuidar. Comecei a sentir dores no coração há algumas semanas, minha cabeça latejando dolorosamente e ferimentos em meu corpo todo, até os que já estavam cicatrizados pareciam se abrir de novo.
Por que isso não parava? A dor me consumia, tanto a física quanto a psicológica. A vida era realmente tão injusta. Parecia que todas as coisas que pudessem dar errado eram atraídas para mim. Eu estava cada dia indo mais fundo no buraco negro da solidão e do desespero, sempre mais próximo da singularidade, de onde eu jamais poderia voltar.
Andei para o meu quarto. Talvez o sono fosse uma das únicas coisas boas que eu ainda podia aproveitar. Deitei na cama, e apaguei quase instantaneamente.
Acordei a noite. Pelo menos eu achei que era, pois já estava escuro.
Não estava com vontade nenhuma de levantar da cama, simplesmente queria ficar afundado nos travesseiros até me sufocar. Mas me forcei a sair. Fui andando até a minha janela e me sentei com as pernas viradas para o lado de fora. Era o sexto andar de um prédio antigo, se eu pulasse daqui não tinha chances de eu sobreviver. Pelo menos, era o que eu queria. Mas o medo me atacou de novo, uma ansiedade intensa sempre me vem quando fico prestes a morrer. Ainda sentado na janela, comecei a chorar. Minhas lágrimas sempre pareciam limpar um pouco da minha tristeza interna. Voltei para dentro de casa.
Fui direto ao sofá, assistir algumas séries na televisão. Eu ficava impressionado vendo como aquelas pessoas eram tão seguras de si e não se importavam com o que os outros pensavam. Eu queria ser assim. Desliguei a TV e percebi uma coisa. Não senti nenhuma dor hoje. As pontadas no coração e no cérebro pararam.
Fiquei quase aliviado.
Levei a mão ao peito esquerdo para sentir meus batimentos cardíacos e me lembrar de que ainda fazia parte desse mundo, mas me assustei a não sentir meu coração batendo. Toquei minha artéria carótida no pescoço e também não a senti pulsando. Parecia que eu havia conseguido o que queria. Eu estava morto.
Mas se eu realmente tinha morrido, por que então eu ainda estava ali? Eu não queria mais essa vida miserável.
Fui até o espelho e me olhei. Meu rosto feio estava pálido, como se meu sangue tivesse parado de fluir. Eu estava morbidamente parecido com a minha mãe, naquele caixão de mármore. Sempre que me lembrava dela, eu chorava repetidamente. Mas agora tudo parecia distante. Eu não conseguia sentir dor, nem prazer. Apenas desespero, tristeza e solidão.
A cada minuto, sentia meus órgãos apodrecendo, sendo devorados pelas bactérias do meu próprio corpo. Contudo, a melancolia que me atacava era pior que o medo de morrer. Era simplesmente difícil ficar triste com a própria morte quando sua vida inteira era uma desgraça.
***
Já se passaram quinze dias desde que meu coração parou de bater e eu estou em um estágio horrível da morte. O odor horrível de putrescina e cadaverina exala por todo o meu corpo e preenche o apartamento. Como eu suspeitava, ninguém notou a minha morte, nem sei como, já que o fedor estava insuportável.
Mas o pior era meu rosto. Estava irreconhecível. Minha carne podre estava à mostra e qualquer um que me olhasse teria um ataque de pânico. Mas minhas feridas psicológicas eram piores que qualquer uma no meu corpo. Comecei a ter pensamentos desconexos e sociopatas, esbravejava toda hora comigo mesmo sobre como a vida é injusta e cruel.
Não entendia o porquê de isso estar acontecendo comigo. Sete bilhões de pessoas no mundo e todos os problemas vêm justamente a mim. Isso parecia tão errado. Eu queria estrangular todas as pessoas da Terra, uma por uma, por terem vidas tão melhores e jogarem isso na minha cara. E ao mesmo tempo, queria me estrangular por não fazer nada contra isso.
***
Mais cinco dias se passaram. Como ninguém percebeu esse fedor horrível que sai de mim? Não sabia que cheiro de gente morta era assim tão podre. Minha pele sob o estômago estava exposta e tinha cada vez mais pedaços de carne à mostra. Parecia que quanto mais meu corpo se deteriorava, mais enlouquecida ficava minha mente.
Comecei a arrancar pedaços da parede, quebrar móveis e arranhar o que sobrou de meu corpo por pura raiva. Outras vezes desabava no choro, mesmo que não conseguisse produzir mais lágrimas. Esse dia, porém, eu cansei. Depois de quebrar uma foto da minha mãe sobre o meu criado, eu decidi que não aguentaria mais. Eu precisava me matar. E tinha que ser agora.
Andei até a janela, destinado a fazer o que fosse preciso para me liberar dessa armadilha cruel que vocês chamam de vida. Como iria me suicidar já estando morto? Não sei, mas tinha que dar certo.
Olhei para os carros minúsculos abaixo de mim, imaginando que em breve cairia sobre um deles, estilhaçando meu corpo por completo. Olhei para o meu quarto e por um instante, quase desisti novamente de pular. Encarei o porta-retrato quebrado com a imagem de minha mãe e disse:
- Já estou indo mãe, em breve vamos nos reencontrar.
Eu pulei da janela.
O asfalto se aproximava perigosamente de mim, enquanto eu recordava vários momentos da minha vida. Meu pai, que foi assassinado quando eu tinha apenas um ano; minha irmã, que me abandonou quando fugiu de casa e nunca mais voltou. Vi meu tio, que me batia e abusava sexualmente de mim quando minha mãe não estava por perto. E por último, vi o rosto de minha mãe, a mulher mais corajosa e guerreira que eu já conheci, mas que teve uma morte precoce sete meses atrás, me deixando só no mundo.
A poucos metros do chão, olhei para meu corpo e o que vi não foi um cadáver putrefado, mas sim eu mesmo, como era há um mês, antes de tudo isso começar. Talvez eu realmente não estivesse morto, talvez fosse apenas uma tentativa falha do meu cérebro de amenizar as coisas. Mas agora era muito tarde para voltar atrás.
Eu tive um impacto com o chão e apaguei de vez. Tudo ficou escuro. E dessa vez, eu não acordei.
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Cotard
HorrorEu já não estou vivo. Todos os dias, eu vejo meu corpo definhando cada vez mais. Mas por que eu não consigo descansar? Por que ainda estou preso nesse mundo? Em um lugar que não mais me pertence? Sinto que preciso ir embora, mas não consigo partir...
