Everything Is New

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Capítulo 1
Eu estou morta. Só isso que precisa saber antes de conhecer de verdade a minha história. Embora isso não seja uma coisa boa, verá que, no momento, poderia ser considerada uma "fantasma" perfeitamente viva. Realmente muito estranho, eu sei.
Pensando bem, é melhor me conhecer primeiro, me chamo Aya.
Eu morri há um certo tempo. Não muito (no caso, por volta de 8 meses), mas foi fundamental para o meu destino, e para o de outras pessoas. Importante destacar que não foi uma (breve) vida calma ou normal, eu tenho uma história complicada e de uma certa forma, pode-se considerar incrível também.
Tenho 21 anos no programa celestial, mas no meu antigo mundo, em que tenho vontade de voltar um dia, tenho 19.
Minha vida foi bela até... eu não fui a melhor pessoa deste mundo, tive muitos problemas durante o tempo em que vivi. Pode não parecer, mas acabei me apaixonando profundamente por um garoto, chamado Zed . Voltarei para o plano físico em breve para vê-lo novamente. Eu posso fazer isso uma vez a cada 2 semanas (e a semana no calendário celestial são 4 dias). Embora pareça estranho, nós os ajudamos a não sofrer com nossas mortes, e, em certos casos, fazê-los mudar de ideia, ou seja, vir para o nosso mundo. Tentamos mostrar a eles o quanto estamos bem. Estou quase conseguindo, ele está sofrendo menos, e minha tarefa de o aproximar de seu fim está próxima de ser concluída. No caso isso seria fazer Zed desistir, já que sua vida se tornou indiferente, sem propósitos, de acordo com o mesmo.
Hoje vou lá para o convencer de vir para o meu novo plano. Parece estranho querer o meu melhor amigo morto? Até parece, mas assim vai ser melhor pra nós dois de alguma forma, ele poderia se sentir menos triste ao meu lado.
Mal cheguei na rua paralela à que ele estaria, e já estava tremendo, uma espécie de espasmos que temos quando entramos no plano físico, me deixa um pouco fraca inclusive. Precisava que ele desistisse, e rápido, pois só assim vou podemos ficar juntos, mesmo sendo apenas amigos.
Cheguei no local determinado, e lá estava ele, na janela, tomando um pouco da brisa suave que vinha de fora. Para ele era uma noite calma, já no meu caso, não estava tão calma assim, já que várias almas estavam naquela rua, pelo visto, as visitas estão levemente desreguladas, não me lembro de tantas mortes por aqui. Zed não havia percebido que algo estava lá, pensativo... tão longe mas tão perto, eu estava debaixo da janela o observando com atenção. Já o visitei uma vez. Faz apenas 4 dias que entrei de fato no plano celestial, então tive muito a resolver e ver quem eu precisava escolher para fazer visitas e outros "tramits" bem burocráticos e chatinhos, isso me lembra tanto meu antigo plano. Entre essas coisas que tinha de resolver, uma era escolher a cor de minha sombra, que significa que quem você for ajudar verá a sua "nebulosidade", que são tons de cores frias, como roxo, azul. Se você não passar por esse ritual, a pessoa escolhida para receber a ajuda provavelmente conseguiria ver seu rosto, e isso pode ser muito perigoso, podendo achar que você está vivo, ou que a pessoa está tendo alucinações, entre outras. Eu escolhi azul. Celeste. Mesmo a cor favorita dele sendo preto, achei que iria assustá-lo muito escolhendo o "lado escuro da coisa", se é que posso usar uma expressão como essa. E também, azul me passa um pouco de confiança talvez.
Fui chegando perto da borda da janela, flutuando levemente e mostrando parte de minha sombra, porém não muito devagar para que ele visse minha sombra perfeitamente, mas sem fazer ideia de que era eu ali... Ou melhor, minha alma.
Mas foi impossível. Ele me viu com uma facilidade e rapidez comparáveis a velocidade da luz. Mas de todo o jeito, ele não sabia que era eu. Zed só sabia que tinha algo procurando, ou cuidando dele, era como um instinto. Me segurei para não agarrá-lo. Era forte, sua fisionomia me fazia sonhar com uma vida para reencontrá-lo, mas sou apenas mais uma morte no meio de tudo isso.
Fomos criados juntos, como irmãos, e ele sempre cuidou de mim nos meus momentos de fragilidade. Mas com o tempo, acho que eu desenvolvi um sentimento mais forte por ele, não creio que seja uma paixão, como aquelas que você não consegue nem descrever. Acredito que isso estava errado também, ele era quase um irmão para mim, não tinha como isso acontecer. Também penso que esse sentimento não era recíproco, porque claramente não há esse tipo de amor, e existe uma parte da minha história que vocês não conhecem ainda... mas em resumo, eu odiava a mim mesma, e acho que ele merecia alguém melhor do que eu, tanto como amiga, como "namorada", já que sou culpada de muitas coisas que aconteceram com ele. Eu sempre achei que acabaria "contaminando" ele com os meus momentos de tristeza e as coisas que pensava sobre mim mesma. Zed dizia que eu era louca, e nada daquilo fazia sentido em sua cabeça, já que eu o fazia sorrir todos os dias (de acordo com ele, claro).
Acho que gostaria de estar viva para poder dizer algumas coisas a ele, mesmo que fossem relacionadas aos meus problemas de sempre. Desabafar com ele sempre era muito bom, fazia eu me sentir bem quase 100% das vezes. Mesmo quando éramos crianças, e eu ficava triste por algum motivo, ele estava sempre do meu lado. Eu gostaria de ter sido alguém melhor por ele... para ele.
   Deixei uma carta, até agora não descobri se Zed leu, mas eu espero que ele o faça, tinha coisas muito importantes nela...

One Death (Uma Morte) Where stories live. Discover now