A Gaiola Dourada

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    Um rebuliço no quintal fez Katrina largar sua costura e empurrar a cortina da cozinha. Ela lançou um olhar indiferente para o curral e ouviu o relinchar de Oberon, seu Oberon, seu garanhão preferido. Ela estava brincando com os animais novamente.

   Katrina havia estranhado quando chegara, mas agora estava acostumada a Ela. Era Ela quem colocava os suprimentos em sua porta, quem plantava as arvores e observava sua vida. Outras como Ela às vezes se aglomeravam sobre seu sitio, olhos gigantescos como sóis. Mãos pouco delicadas que a feriam. Uma delas matou um dos bois sem querer. Depois disso, Ela passou a protegê-los, e não permitia que nenhumas outras mãos que não fossem suas delicadas mãozinhas tocassem em qualquer coisa em seu sitio.

   Katrina soltou a cortina e voltou à costura com um suspiro. Logo Ela iria cansar e brincar com outro brinquedo. Uma boneca. Katrina sabia desde o inicio, quando despertou para a vida sob uma luz branca brilhante o que ela era.
    

  Começou com o encolhimento de animais, a partir de células tronco de animais já pequenos. Em uma  década, a tecnologia conseguiu criar os brinquedos mais cobiçados do século: bois, cavalos, elefante, tudo em versões miniatura em escala real. Você podia comprar acessórios, selas e tinha um cavalo como um brinquedo, bastava manter alimentado e limpo.

   Não levou mais que outra década inteira para o mundo ver horrorizado o primeiro ser humano em miniatura. Escândalo, multidões de religiosos de todas as religiões do mundo se unindo na mesma causa pela primeira vez, contra os "brinquedos" da moda. E assim a lei contra a criação de humanos em miniatura foi proibida.

   E assim ela foi proibida. E, como todas as coisas proibidas, passou para o mercado negro. Alguns centros genéticos ainda produziam as mini-pessoas por encomenda, semelhante aos humanos normais em tudo, menos em sua vontade própria, e os vendiam a grandes preços.

   Foi assim que Katrina chegara até Ela em um natal e fora colocada em uma linda casa de bonecas feita especialmente para sua recepção, com água corrente, luz e tudo que era necessário para viver. Nos fundos, havia uma grande área cercada onde se localizava o pomar, a horta e o curral, com alguns bois e cavalos.

   Um último relincho e silencio. Olhos azuis passam pela janela, a vêem costurando e se despedem, mesmo sabendo que sua "boneca" não pode falar e retribuir a despedida. As luas azuis partem. Com outro suspiro, Katrina solta mais uma vez sua costura, voltando a olhar pela janela, observando um mundo em tamanho irreal do outro lado.

   Mas ela poderia falar, se quisesse. Poderia sair dali. Nenhuma grade nas janelas, nenhuma tranca na porta. Os fabricantes asseguraram que a boneca era perfeita: não falava, não tinha livre arbítrio, vinha preparada para cuidar de sua casinha, dos animais e ouvir atenta as infindáveis ladainhas Dela.
Katrina não falava. Nunca. Talvez no dia que Ela a chamasse por seu nome, não pelo nome que seus criadores haviam inventado. Ela não se chamava Barbie, e sim Katrina.

   Katrina olhou para a porta e de volta a costura. Ela sabia que Ela só retornaria bem tarde agora, que estava livre para fugir, se esconder, procurar outros como ela... mas como fazer isso sendo um inseto em um mundo de gigantes? E além do mais, Ela havia prometido um lago com peixes no próximo verão...  

A Gaiola DouradaWhere stories live. Discover now