Capítulo 1: Aquele menino era eu

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Ele chegou animado à escola, com seu gameboy na mão esquerda. Passou correndo pela portaria e cumprimentou o porteiro, que o recebeu com um sorriso. Pulou os seis últimos degraus da escada, quase arrebentado as rodinhas de sua mochila, já judiada, que puxava com a outra mão.
Chegou ao lado de fora do prédio em que teria aula e, sem nem cumprimentar seus colegas, foi logo dizendo:
- Consegui! Olha aqui! - disse, erguendo seu gameboy
Uns garotos que estavam sentados sobre a janela ergueram a cabeça olhando para o menino recém-chegado. Todos empunhavam gameboy.
- Deixa eu ver! - gritaram em coro, levantando todos os mesmos tempo e formando um circulo ao redor de suas mãos.
Ficaram ali por alguns minutos, fazendo perguntas que eram respondidas com entusiasmo, até que um outro garoto entrou na roda e chamou:
- Ei! Chega ai! - disse ele, já pegando o jogador de gameboy que era o centro das atenções pelos braços.
- O que foi? - perguntou incomodado pela interrupção.
- Lembra o que eu falei ontem? - disse baixando a voz.
- O que você disse ontem? - perguntou, não entendendo.
- Sobre aquilo...? A revista! - disse ainda mais baixo, com um sorriso morato.
- Lembro. Mentiroso! - afirmou ele, parecendo se lembra da conversa.
- Shhh! - pediu silêncio, com expressão de pânico, enquanto caminhava para algum lugar longe dali - vem aqui - pediu ele, acelerando o passo.
Os dois garotos muito pequenos foram para trás do prédio, sozinhos.
Certificando-se de que não havia ninguém por perto, o de olhos azuis tirou a mochila das costas e a entregou para o outro menino, que a segurou e olhou para o colega, esperando orientações.
- Abre logo! - disse, impaciente.
O garoto loiro, com os cabelos cortados em um circulo perfeito, apoiou a mochila no chão e a abriu. Ele soltou um gemido de exclamação e arregalou os olhos.
- Como você conseguiu? - perguntou, com uma expressão de curiosidade e espanto ao mesmo tempo.
- Peguei escondido do meu pai! Escondido! - dizia as sussurros.
O garoto obedeceu e sacou parcialmente a revista da mochila.
- Mas que gostos...
- O que é isso? - exclamou uma garota que espiava apenas com a cabeça visível atrás da parede.
Os garotos viraram-se assustados, escondendo de volta da mochila.
- O que vocês estão fazendo?- com voz autoritária , revelou-se uma segunda garota, de cabelos escuros, cumpridos e olhos verdes. As duas saíram de trás das paredes e encaram os meninos aterrorizados.
- Não é da sua conta! - disse o loiro, o mais baixo das quatro crianças, com a imponência de um gigante, pondo-se de pé e dando um passo à frente
Os olhos azuis atuais do segundo garoto pareciam ainda mais azuis, destacados no absoluto branco que se estampara em seu rosto.
- A gente vai contar para a inspetora! - disse a garota que aplicara o flagrante.
- Se você falar, a gente espanca você! - o garoto pálido de medo pareceu voltar a si.
- Vai? Quem bate em mulher é covarde! - a garota que parecia ser a mais mandona das duas se impôs - E se você ficar isso, quem vai apanhar são vocês!
- Coitada de você, garota! - disse o mais baixinho e invocado - Mas pensando bem, é are possível! Mulher macho - bradou contra ela.
- Não é a gente que é macho! Vocês é que são gays! - voltou a falar a mais bonita das garotas.
A discussão se seguiu por alguns minutos e, cada vez mais insultos, até que as garotas se viraram e foram embora. Os dois se olharam apreensivos quando elas os deixaram sozinhos.
- E agora? Ela vai contar o que você trouxe para a escola!
- O que a gente faz! - perguntou afoito.
- Sei lá! Joga no lixo.
- Não! Se eu sumir com essas revistas, meu pai vai notar! Ele não sabe que eu trouxe!
- Sério! Achei que ele tinha dito: "Tó, filhão! Leva isso aqui para a escola e cola o pôster na porta da sala" - disse o menor, irritado com a informação inútil
Após trocarem uns sete socos, eles fecharam a mochila, ficaram se olhando. Decidiram ir para aula sem comentar mais sobre o assunto. Os dois meninos correram aliviados, passando pelo inspetor. Foram os últimos a entra na sala, a professora já escrevia ma lousa e por cima dos ombros, ao vê-los entrarem às pressas , avisou:
- Da próxima vez vão ficar para fora!
As duas meninas sentadas na primeira fileira olharam os dois com ares de desaprovação e voltaram a olhar para frente. Começaram a tirar o material da mochila. O que estava com revista, com muita mais cuidado.
Na última aula do dia, aconteceu algo que marcou aquelas crianças para sempre. Um garoto começou a chorar, dizendo que alguém tinha pego suas figurinhas e reclamou para a professora. Esta pediu que todos verificassem suas mochilas, dizendo que alguém, por brincadeira, poderia ter colocado as figurinhas na mochila de um colega.
Os quatro, os meninos e as meninas, sabiam o que poderia acontecer por causa daquela incidente, por isso eles se entreolhavam. Depois de todos verificarem suas mochilas, ninguém se pronunciou. Enquanto o garoto, que fora, aparentemente, roubado, chorava, a professora pensava em outra solução.
Disse para todos abaixarem a cabeça, e pediu para aquele que tivesse pego as figurinhas, que colocasse em cima da mesa dela. Ela sairia da sala por dois minutos e ninguém sabiria quem foi que pegou. A sala obedeceu, mas nenhuma figurinha apareceu sobre a mesa.
Finalmente, a professora se explicou a todos os alunos, mas pediu que abrissem as mochilas que ela passaria de mesa em mesa olhando.
Os quatro voltaram a se entreolhar. Enquanto os alunos resmungavam e colavam a mochila sobre a mesa, a menina que fora chamada de "mulher macho" levantou a mão.
- Professora, eu achei umas figurinhas no chão hoje, pensei que fossem minhas e juntei no meu bolo. Se o Bruno quiser ver as figurinhas dele estão aqui, ei deixo.
- Tá vendo como a mulher é macho! Ainda colecionam figurinhas - ridicularizou o menino de olhos azuis.
Do outro lado da sala, o garoto de cabelos de príncipe entendeu a intenção da menina, na hora, e se irritou com a burrice do colega.
- Ela não é mulher macho! Burro! - defendeu o menino
A professora repreendeu os dois garotos com voz firme, recuperou o silêncio e aceitou a sugestão da garota.
Bruno, fungando e tentando parar de chorar, olhou as figurinhas e separou algumas. Depois de ver todas, reclamou:
- Está faltando um monte! - disse, voltando a chorar.
- Eu troquei um monte de figurinhas no intervalo, pode ser que tenham ido... Você pode escolher outras que você quiser - disse a menina, apreensiva.
O menino negavam e chorava cada vez mais. A professora olhou desconfiada para duas meninas que se entreolhavam. A amiga, dos cabelos brilhosos e quase loiros, tomou a fala.
- Para de ser chorão, Bruno! Você nunca vai achar as figurinhas, e mesmo que você ache, quase todo mundo na sala tem figurinhas. Ê impossível ninguém ter as mesmas que você. Quem pegou, vai falar que já tinha. Já era, aceita as figurinhas logo.
- Ê. Aceita logo! - incentivaram em coro os dois garotos ao mesmo tempo, os olhos azuis parecendo entende finalmente a ajudar da garota. A professora estranhou a súbita parceria.
- Eu já terminei o meu álbum, pode ficar com todas! - fez um apelo final a garota.
A professora se abaixou para ficar da altura do garoto e o aconselhou a aceitar a proposta, o que ele acabou fazendo, a contragosto. Após muito tempo perdido, tiveram poucos minutos de aula antes que o sinal batesse.
A professora, esperta, percebeu algo estranho nas quatro crianças e pediu que ficassem após a aula, depois de todos saírem. Os quatro ficaram de pé, em frente à mesa dela, que, sentada, encarava-os.
- Vocês querem me dizer alguma coisa? - iniciou a professora.
- Ele pode esperar um pouco. Vocês não querem me conta nada.
- Como o quê? - pareceu mais determinada o menor de todos mostrando uma descontração que não existia.
- Você trouxe o seu álbum de figurinha para a escola? - pergunto a professora, ignorando a pergunta do garoto e encarando profundidade a menina que doou as figurinhas.
A garota respondeu positivamente com a cabeça, e a professora pediu o álbum, que lhe foi cedido
O álbum não estava completo. A garota não disse nada, apenas encarava o chão. O menino baixinho sentiu pena e admiração por ela. O outro olhava com os olhos arregalados para o álbum.
- Você sabe quem pegou as figurinhas! - perguntou a professora, olhando fixamente para ela, que continuava mirar o chão. Respondendo negativamente com a cabeça, a professora fez a mesma pergunta aos demais, que responderam da mesma forma.
- Tem certeza! - insistiu a professora.
Todos assentiram de forma secronizada. O baixinho era único que olhava para os olhos dela, os três olhava para o chão. A professora lançou um olhar penetrante ao único que correspondia ao seu olhar.
- Vocês não me enganaram. Vocês duas eu entendo que sejam cúmplices uma da outra, mas vocês quatro... juntos?
- Cúmplices? - um deles finalmente se impôs. O menino loiro começou a falar. - Você acha que um de nós pegou as figurinhas? Pode ver minha mochila se você quiser! - As outras três crianças olharam em um rompante para ele. - Eu vou contar para a minha mãe... - ele ameaçou.
Ao ouvir isso, a professora arregalou os olhos e nem reparou no olhar brusco das outras crianças. Pela primeira vez na defensiva, ela tratou de ser explicar.
- Não! Não acho isso! Só acho que vices sabem de alguma coisa e não querem me falar. Mas tudo bem. Já podem ir - devolveu o álbum à garota e liberou os quatro.
Saíram juntos, sem falar nada. No pátio, pararam e se entreolharam. Só então o silêncio foi quebrado.
- De nada! - bradou a garota que perdera as figurinhas, com os olhos marejados, e virou-se indo embora com a amiga, que a apenas balançou a cabeça em sinal de desaprovação em deixá-los.
- A gente quase se ferrou por sua causa! - disse o garoto loiro para o baixo.
- Mas não se ferrou - foi a resposta zangada.
- Graças a elas! E você ainda a chamou de mulher macho na frente de tudo mundo! Nem falou obrigado!
- Obrigado por quê? - perguntou o menino em um tom que já entregava seu sentimento de culpa.
- Você viu o álbum dela? ela nem completou nada e deu todas as figurinhas para o moleque para salvar você!
O garoto ouviu em silêncio com uma evidencia expressão de arrependimento.
- Amanhã, você vai comprar vários pacotinhos de figurinhas e vai dar para ela, falar obrigado e pedir desculpas! - ordenou o baixinho.
Apontando o dedo para cima para indicar o rosto de seu colega, ele ficou aguardando a reação, que veio após alguns instantes.
- Tá bom- disse ele, para o espanto do baixinho - Eu dou as figurinhas e falo obrigado, mas não vou pedir desculpas!
- Por que não?
- Porque eu não quero!
O garotinho sentiu peso de culpa os olhos de seu amigo. Ficaram em silêncio um bom tempo. Até que o menino resolveu ceder.
- Eu sou muito chato? - perguntou.
- Às vezes - falou o menino baixinho, esticando o braço no alto para apoiar nos ombros do seu amigo. Finalmente começaram a andar.
- Às vezes - pareceu estranhar o menino.
- É - respondeu.
- Quando eu sou legal?
- Ah, não sei.
- Então por que você falou que só sou chato as vezes?
- Ah, porque acho que você não deve conseguir ser chato sempre. Minha mãe falar que amigo nem sempre é o que faz a vontade da gente. E disse que tem amigos , mas não são amigos, porque só ficam com a gente nas horas boas, como jogar video game, mas nas horas ruins não. E aquelas duas, além de não contar nada para ninguém, evitaram que alguém descobrisse. Você podia ter sido expulso. Elas são amigas também.
- Vai ver é por isso que meu pai falou que a gente não escolhe os amigos - revelou enquanto os dois sabiam as escadas do pátio.
- Vai ver... - pensou o menino enquanto escutava a buzina do carro de sua mãe vir da rua para chamá-lo - É a minha mãe, tenho que ir - disse, apressando-se e correndo.
O garoto correu para a portaria, se despediu do porteiro e entrou rapidamente no carro.
No dia seguinte, acordou animado e fez a lição de casa. Tomou banho, colocou o uniforme, brincou com o seu cachorro no quintal, tomou rocar da mãe por suja o uniforme antes mesmo de ir para a escola, assistiu ao Chaves, almoçou, e sua mãe foi deixá-lo junto a sua irmã.
Fazendo tudo igual, ele saiu correndo, passou pela mesma portaria, cumprimentou o mesmo porteiro, pulou a mesma escada, mas dessa vez sem o gameboy na mãos. Não achou seu amigo, mas avistou as duas garotas, que já estavam juntas e conversado sentadas na escada. Ele sentou longe para esperar seu companheiro, mas não ficou sozinho por muito tempo, vários colegas se aproximaram.
Minutos depois, varrendo o olhar por todos os cantos, viu seu amigo descer a escada do pátio. Ele o chamou com a mão, levantou-se correndo e foi ao seu encontro
- Deixou a revista em casa! - foi logo dizendo.
- Claro!
- Trouxe as figurinhas?
- Trouxe - disse, tirando da sua mochila das costa e empurrando-a para seu amigo.
O menino tinha a mochila lotada de figurinhas, mas o garotinho não se espantou, já estava acostumado a ver seu amigo receber quantias generosas de dinheiro de seu pai. Havia no minimo 200 pacotes de figurinha.
- Então, vamos logo vai! - estufou-se de coragem agarrando com força a mochila cheia de figurinhas.
Eles andaram acelerados em direção às garotas, mas, quanto mais perto chegavam, mais devagar ficavam seus passos. Elas olhavam os dois se aproximarem.
- O que vocês querem? - disse a garota com os olhos verdes muito fixos nos dois.
Os garotos se olharam e, com um cutucão nas costas, o baixinho fez seu amigo falar.
- A gente veio perdi desculpas e dizer obrigado - disse, fingindo uma naturalidade que não saiu muito bem. Mas com imenso esforço em com total sinceridade, eles se desculparam pelos apelidos maldosos e pelo ocorrido no dia anterior.
Os garotos tomaram coragem e se ajoelharam na frente das garotas, os três olhavam o menino abrir sua mochila, revelando vários pacotes de figurinhas.
As meninas pareceram amolecer, e com uma voz muito mais amena, a morena falou:
- Obrigada, mas não precisava. O Bruno devolveu as minhas agora há pouco, parece que alguém se arrependeu e colocou-as de volta na mochila dele - disse um pouco desconcertada. - Mas muito obrigada de verdade - pareceu bastante sincera.
A quantidade de figurinhas era tanta que eles entraram em um consenso: se reuniriam na hora do recreio para colar no álbum todas elas.
Os quatro entraram na sala juntos, sem conversar, mas visivelmente em harmonia, sob os olhares de desconfiança dos professores e inspetores. Depois de duas trocas de professor, o intervalo chegou, e eles saíram juntos com todos aqueles pacotinhos e o álbum. Foram caminhando vagarosamente até a sombra de uma árvore, a menina de olhos verdes conversava com o garoto baixinho enquanto o outro casal tomava a frente.
Descontraidamente, começaram a colar as figurinhas e conversar. Quando chegaram ao destino, conversaram sobre diversos assuntos infantis, entre outras coisas, até que no recreio estava próximo do fim.
- Ela fala que você parece um anjo por causa do seu cabelo - dedurou a amiga enquanto andavam.
O garotinho se manteve quieto ao receber a informação. Envergonhou e ainda não à vontade com a nova amizade. Resolveu, então, mudar de assunto e disse:
- Quando é o seu aniversario? - perguntou, virando a folha de álbum.
- Dia 21 de outubro. e vocês?
- Eu facço dia 21 de julho - revelou o outro garoto.
- Eu, dia 21 de fevereiro - respondeu a outra menina, sorrindo pela recém-descoberta.
O garoto nasceu às 20h01 de 21 de agosto de 1987. seus cabelos loiros escurececeram com o passar dos anos. Nasceu em uma família comum, com alegria e problemas, no Higienópolis, em São Paulo.
O pequeno menino julga em que tem vida comum, exceto por uma coisa. Ele acredita que cruzou o caminho de pessoas incrivelmente maravilhosa e que, dificilmente, existe alguém com a mesma sorte que ele teve.
Anos depois, já maior de idade, esse menino se encontrava longe de onde estava acostumando. Jogava um esporte que não gostava, vôlei. Acompanhado de pessoas que conheceram há pouco tempo.
Luciano, que seu tornou seu amigo no ensino fundamental, foi o arquiteto da ocasião. Estavam em um churrasco em Mogi das Cruzes, comemorando o aniversário de uma garota com que Luciano estava ficando.
O garoto nunca tivera qualquer receio de falar com as garotas, mas riu, quando, em um momento de lucidez, percebeu sua situação. A melhor forma que encontrou para conversar com a menina da qual não tirava os olhos desde que a vira, foi entra em uma partida de vôlei com ela.
A situação, para ele, em ridícula. Conversar com garotas nunca tinha sido um problema, mas havia alguma coisa diferente em Juliana que o impedia de ser ele mesmo.
Suas relações com as garotas, entretanto, sempre ficavam complicadas. As lembranças de Melissa e Sara ainda estavam fresca em sua memoria, isso sem falar em Marcela. Foram tantas complicações e tanta dor de cabeça, que no momento não queria envolver em um relacionamento sério.
Mas suas lucidez durou poucos segundos. Logo voltou a se hipnotizar por aquela menina que soltava e sorria em busca da bola de vôlei. Seus cabelos morenos, presos num rabo de cavalo, dançavam suavemente com o balançar de seu corpo. Seus olhos verdes... Ah, que olhos verdes! Seu shorts jeans curto e sua pele clara... Que combinação!
O garoto não entendia por que ela mexia tanto assim com ele, mais sabia que queria conhecê-la. Diante dela, não conseguia deixa de se comportar como um menino. Aquele menino era eu.

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