Sete horas... Dia sete. Mês sete... Um suspiro. Me levanto, desligo o alarme do celular, abro as cortinas e vejo a luz que nasce de frente ao meu apartamento.
Tudo igual. Uma calça bem usada, uma camisa com as mangas dobradas e um sapato com um pouco das pontas arranhadas. Visto o conjunto, tomo um pouco de leite. Escovo os dentes, passo um produto no cabelo e um perfume leve. Pego a pasta com as idéias prontas, abro a porta, desço de elevador e cumprimento o porteiro:
-Bom dia Carlos!
-Bom dia sr. Miguel!
Vou me encontrar com Amanda em uma padaria para o café da manhã. Avisto ela e respondo seu sorriso. Me faz pergunta rotineira, iniciadora de diálogos:
-Tudo bem? - vejo seus dentes de leve por entre os lábios que sorriem
-Tudo certo. Bom dia!
Um pão de queijo e um café que me agradam, à ela também. Amanda pede sempre um chá que eles preparam. Diz que flui ao matinal.
Conversamos das matérias a serem publicadas no dia. Compartilhamos alguns acontecimentos familiares. Ela me olha com o rosto inclinado, o vira mexendo no cabelo e volta a me observar, como quem espera escutar algo a nosso respeito. Mesmo tendo noção disso tudo, ainda não tomei providências. Novamente, olha para meu rosto e para xícara, retorna ao consciente e com um suave estalo labial pergunta:
-Vamos? - deixo o dinheiro no balcão e escuto - Oras, Miguel! Já te devo duas!
Apenas sorrio pelo canto da boca.
Vestida com um sobretudo elegante, uma calça bem modulada em suas curvas, um salto fino e belo. Seus cabelos castanhos clareiam junto ao sol, o brilho a deixa mais bela ainda. Com um olhar esperto ela seduz qualquer um que a veja, mas o que mais me encanta é quando a brisa bate e ela encolhe os braços e inclina para a frente como quem toma coragem a seguir. É uma mulher inteligente, além de bela.
Chegamos à sede do jornal. Cumprimentos são deixados e cada um se coloca na sua cabine. Julgo ter deixado um recado em minha mesa no dia anterior ao rapaz que faz a correção. Já não está mais lá. Como sempre...
Pouco se fala, expressa ou aprofunda-se. São tantos conhecimentos e palavras escritas mas nada inteiramente compartilhado. Estamos embebidos ao fátuo. Finjo não ligar, claro. Como dizer à alguém que penso isso? Difícil.
Término a notícia. Fala sobre a economia do país. A crise que rasga nossa nação e os valores que estão perdidos na política brasileira. Grande obra. Grande reportagem. Horas sentado para escrever para pessoas lerem e não se manifestarem. Querem a solução e só. O que deve ser feito? Eis o mistério. A matéria diz, mas só se escutam gritos e batidas de panelas. O povo humilde pede misericórdia, mas ninguém se preocupa. Simples clamar que resolvam o déficit em sua riqueza, enquanto muitos mal possuem a janta.
Um almoço. Uma tarde coletando informações para a matéria do dia seguinte.
Olho para o relógio, guardo toda a papelada. Levanto de minha cadeira. Amanda me espera na porta. Me lembro de que havíamos combinado de comermos algo juntos hoje, quarta-feira.
Chegamos em sua casa:
-Até já. Passo daqui duas horas.
-Te espero. - me olha como quem estará me esperando.
Tomo um banho, tiro a barba, visto uma camisa nova, uma calça mais jovem, um sapato bem cuidado. Olho no espelho e vejo se sobrou algum resto no rosto que não raspei direito. Coloco um outro perfume, mais cítrico e fresco. Levo um casaco no braço e sai.
No caminho já vejo Amanda me esperando na porta de seu prédio. Seguro em sua cintura e dou um beijo perguntando:
-Vamos? - sem necessidade de saber a resposta...
O restaurante com suas luzes mornas, clareiam os traços sutis e delicados dela. As pessoas de lá também assumem um ar elegante e sereno. O rapaz nos encaminha à mesa e nos sentamos.
Conto algumas boas à ela de minha época de moleque, escuto suas risadas. Me encara mais um vez com aquele olhar. Abracei por cima sua mão com a minha que estava perto, segurei seus dedos com o polegar massageando. Mais uma vez joga seu rosto pro lado e volta como quem espera que eu diga aquilo que quer escutar há tanto tempo. Então falo:
-Está linda...
Olha rapidamente para baixo, tímida e diz, voltando:
-Obrigada.
Um som começa logo em seguida, tranquilo e clássico. Perfeito aos casais.
Tomamos um vinho. Comemos algo leve. Ela me conta sobre os queijos que combinam com cada estilo da bebida. Eu apenas penso que mal me lembrava até poucas horas atrás de nosso combinado. Discutimos a respeito do jornal de amanhã e ela vai ao banheiro enquanto esperamos o garçom com a conta. Não queriamos voltar tarde.
Voltando, encontra já tudo pago e eu à sua espera. Me olha brava:
-Mais uma vez...
Caminhamos juntos. Paramos em frente à uma banca. Havia um cartaz com a divulgação de uma coleção de Freud que seria vendida cada volume por mês. O primeiro falava sobre os sonhos. Quis me explicar um pouco sobre, ouvi atentamente, mas o peso me fez beijá-la. Naquele momento não ouvia mais nada em volta. Ela segurou meu rosto com sua mão...
Chegamos ao seu apartamento. Nos beijamos mais uma vez e falamos:
-Até amanhã...
-Até...
Percorri os quarteirões pensando que mal lembrava desse encontro. Subi o elevador. Entrei. Tirei a roupa. Me aprontei para o sono. Deitei e de súbito estava de volta dizendo:
-Mais uma vez... Mais uma vez um sonho...
