Rose

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Ronald e eu nunca nos demos muito bem, pensava Hermione levantando-se da cama de madrugada e colocando o suéter do marido. Saber o porquê disso, era um pouco complicado, entre eles sempre houve uma fagulha de não sei o quê, uma tensão incerta. _ Seu pai é uma criatura estranha Rosie. Bem estranha. Ele é doce, é estúpido, tem a profundidade emocional de uma colher de chá, e daria tudo por você. Acho que por mim também. Existe uma devoção nos olhos dele que eu nunca vou saber explicar_ Comentou a morena no meio da sala vazia, caminhando de um lado para o outro devagar. Um vento frio entrou pela janela e fez com que a pele do pescoço, desprotegido pelo cabelo curto, se arrepiasse.

_ Quando começamos a andar juntos, viramos um ímã inacreditável de problemas. Eu mesma duvidaria se não tivesse passado por tudo aquilo. Nós vimos coisa demais Rosie, perdemos coisas demais. Seu tio Fred, Lupin e Tonks, seus avós. Nossa família é uma sombra do que fomos. As cicatrizes são mais profundas do que imaginamos que seriam. _ Hermione respirou fundo acariciando o ventre já proeminente, uma dor na base das costas a incomodava. Sentia dentro de si que esperava uma menina e ia aguardar até que fosse seguro contar para o resto da família. 

Algo fez com que se lembrasse das primeiras noites depois da Última batalha, seus ossos doloridos, a pele riscada de cicatrizes. Naquelas noites Ronald não falava, durante os dias não comia ou balbuciava algo, sentavam-se no sofá da sala, ombro a ombro, calados. Harry pegou o pouco de suas coisas que ficaram para trás e levou para casa que Sirius lhe deixara. Ela saiu para buscar os pais e terminou por encontrá-los felizes e sem se lembrar dela. E nem mesmo a bruxa mais brilhante de seu tempo conseguiu reverter o feitiço de memória. Aquilo lhe estraçalhou por dentro. Voltou. Depois vieram os gritos. A Toca inteira acordava assim durante a noite. _ Sabe, a primeira vez que nós, eu e seu pai, dividimos uma cama, foi a primeira que conseguimos dormir depois de tudo. Seu pai chegou na porta do quarto em que eu dormia e juro que nunca o vi tão pequeno. Disse baixinho que sonhou comigo e que no sonho eu morria e que ele não podia perder mais ninguém. Foi ali que nós soubemos que era pra ser.

Se lembrou do início desajeitado daquele relacionamento, da inexperiência de ambos, de noites que foram gastas em o que deveriam fazer, como deveriam agir. Logo depois de voltar de Hogwarts ela se mudou para o Largo, com Harry e Ronald e aquilo lhe complicou a vida em tantos níveis! O ano que passara na escola longe dele os tornaram tão distantes! Se lembrou do pedido de casamento, da mudança para um apartamento pequeno, dos planos e jantares de comida congelada. Da primeira vez que teve um vislumbre de que seria mãe.

Ela caminhou pela sala devagar, aproveitando o silêncio da casa e da vizinhança. "Fico feliz que tenha escolhido esse momento pra vir Rosie". Um som na direção das escadas chamou sua atenção. Uma criatura ruiva a encarava, os olhos brilhando na luz projetada pelo poste na rua. "Rosie?"_ sorriu ele.

_ É. Rose.

_ Como sabe?

Sorriu quieta sentando ao lado do marido._ Só sei. Ela está inquieta hoje.

_ O que estava contando pra ela?

_ Segredo nosso Ronald.

_ Quando...

_ Não sei quando contar. Talvez depois que ela nascer. Falta pouco tempo e não quero que seja como da última vez. Talvez se eu não criar expectativas tudo dê certo e nós a teremos aqui logo. Não aguento outra perda.

_ Vai ficar tudo bem Mione. Logo ela estará aqui, e antes que a gente possa perceber estará indo pra escola.

_ Molly vai me matar por esconder ela._ disse se arrependendo de ter escondido a gestação como uma adolescente que não tem pra onde correr.

RoseWhere stories live. Discover now