Algumas noites, antes de dormir, depois de um dia inteiro convivendo com pessoas de praxe, me pego pensando em ti.
Eu sei o cheiro dessas pessoas. Sei qual é o tom de suas vozes e como os lábios delas se curvam ao formar um sorriso ou uma expressão emburrada por algum comentário maldoso, seja esse de brincadeira ou não. Conheço a textura que a pele de tal gente tem, o efeito que ela surte sobre a ponta de meus dedos ou contra meu peito, em um abraço.
É costumeiro, é rotina.
Eu sei, mas eu não o percebo.
Eu toco, mas eu não o sinto.
Eu cheiro, mas eu não absorvo.
Me pergunto qual o aroma da tua pele. O que eu sentiria ao roçar o nariz em teu pescoço. Imagino qual é o verdadeiro tom de sua voz, em diferentes emoções: afeto, calma, raiva, êxtase, tesão.
Me pergunto qual é o teu olhar, como tuas obres ficariam ao ver-me em sua frente e se elas me devorariam por eu estar sob ti e sobre lençóis bagunçados, marcados pela mescla de nossos cheiros. Ah, como eu gostaria se sentir o odor dessa mistura...
Me pergunto qual é a textura de sua pele contra a minha em um agarrar desesperado, extasiado quando estiver acalmando-me, perguntando se está tudo bem, emitindo palavras como "A dor vai passar" ou "Será gostoso".
Me pergunto como é que fica tua voz ao sussurrar no meu ouvido como eu sou tua, completamente e somente tua, enquanto tenta prender algumas ofegadas ou gemidos do prazer que eu esperaria estar o cedendo, assim como esperaria que o faça por mim.
Me pergunto como seria sentir o entrelaçar de nossos corpos em uma simples tarde chuvosa, em uma cama bagunçada. Apenas eu e você, aconchegados no expulsar do frio com toques fervorosos que nos fariam esquecer que o resto do mundo existe.
Eu não o conheço. Eu não o sinto.
Mas, amor. Eu vou senti-lo, e isso afirmo com uma quase certeza. Nossa relação, seja lá o que ela seja, é apimentada pelo mistério, por essas dúvidas gostosas e a imaginação que nós temos um com o outro.
É perigo, é risco, é a incerteza.
É o "eu te amo" que não pode ser dito com uma troca de olhares.
Algo tão comum que não podemos ter.
Ainda.
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Cartas de uma mente divagante
PoetryQuerido destinatário. Provavelmente você nunca irá ler essas cartas que lhe escrevo. Não. Você lê aquele balãozinho verde de um aplicativo com um simples "bom dia". Ah, como eu queria que você soubesse o que fica por trás desse balão, ou de uma mã...
