Meus pés balançam no ar, a vários metros do chão. A sensação de ter meus pés livres, sem ter nenhum contato com o solo firme me faz rir, como se alguém tivesse me contato uma piada hilária. Lá embaixo, os carros vem e vão, pessoas andam pelas calçadas apressadas, falando em seus celulares como se fossem grandes empresários ou celebridades. Eu não entendo. Porque as pessoas simplesmente não param com essas atitudes fúteis e aproveitam mais a vida? Por acaso alguma pessoa ― Deus, por exemplo ― apontou uma arma em suas cabeças e disse para serem completos robôs que são movidos a dinheiro e sucesso? Talvez isso deva existir mesmo, pois acho que fizeram a mesma coisa com meus pais.
Dou uma última tragada em meu cigarro, e o jogo na calçada. E daí se vai cair na cabeça de alguém? O máximo que irá fazer vai ser queimar um pouco, ou talvez a pessoa nem sinta o cigarro cair. Eu não sei, e não me importo. Me levanto do murinho em que estou, pronta para pular. Alguém do prédio vizinho me avista, e grita apontando. Uau, a filha do grande astro dos cinemas está prestes a pular de um prédio! Preciso telefonar para o mundo inteiro, não posso deixar essa passar!
Esse é um dos grandes problemas que enfrento em ser filha de famosos, não posso ser uma pessoa comum querendo se matar, tenho que ser a filha de Steve e Clarisse Williams, os grandes atores de Hollywood que está prestes a cometer suicídio. É disso que estou cansada, as pessoas nunca querem me conhecer pelo o que eu sou, mas sim pela minha fama, pelo meu dinheiro, ou até mesmo por meus pais. Sim, é super clichê, mas o que eu posso fazer quando tenho pais que não dão a mínima pra você? Aposto que se estivesse no meu lugar, faria o mesmo. As pessoas me acham fútil e ridícula por querer a morte apenas porque meus pais são uns babacas comigo desde que me entendo por gente, mas não se importam nem um pouco em tentar me ajudar, ou até mesmo ser minha amiga. Estou literalmente sozinha neste mundo.
Logo, uma multidão se forma na calçada, olhos grudados em mim e em minha morte. Até mesmo o trânsito parou, afinal, quem não gostaria de presenciar a morte da famosa Ramona Williams? Talvez até gravem a minha queda e postem no YouTube, meus miolos espalhados pelo asfalto e meu corpo retorcido como de uma boneca de panos. Esse é o problema do suicídio: a sujeira que seu corpo morto e desprezável deixa no chão. Pense só, a pessoa que vai limpar aquilo vai se odiar por ter um emprego tão medíocre, e vai acabar se matando, e então outra pessoa vai limpar sua sujeira e vai odiar seu trabalho e vai se matar, e assim por diante, como um círculo de desgraça. Não sou pessimista, sou apenas realista. É isso que bebidas alcóolicas misturadas com cigarros e maconha fazem com você: te deixam realista. Realista ou louco.
Então, avisto um belo carro preto surgir ao longe, e reviro os olhos. Claro que meus pais darão uma de "pais responsáveis" na frente das câmeras, eles sempre fazem isso. Fico sobre a mureta em um pé só, e posso ouvir daqui as pessoas prendendo a respiração. Os bombeiros e policias as afastam, e começo a gargalhar. Posso ser considerada como louca, mas tenho muito mais lucidez do que as pessoas ao meu redor. Eu enxergo a verdade, elas não.
Atrás de mim, os bombeiros conseguem chegar ao telhado do prédio. Um deles olha as garrafas de bebida e tocos de cigarro espalhados no chão, e assente.
- Já é a décima vez, Ramona - diz ele. - Não acha que é hora de dar um descanso pros seus pais e pra si mesma?
- Ah, oi Joe.
Joe é o bombeiro que sempre vem me resgatar. Parece que ele fez um tipo de contrato ou sei lá com os meus pais para que ele sempre venha me "salvar", pois aparentemente ele é o único em que confio, o que é a mais pura verdade. Vivo desabafando com Joe, e hoje não será diferente.
Ele se aproxima de mim, e oferece sua mão. Joe não é tão velho, deve ter uns 36 anos, mas já é casado e tem um casal de gêmeos de treze anos. Contamos muito de nossas vidas um pro outro, é quase uma terapia. Ele fica me encarando, e eu fico encarando ele, até um de nós desistir, que no caso sou sempre eu.
- Acho que não foi hoje mesmo - digo, suspirando.
Aceito sua mão estendida, e desço da mureta. Joe faz um gesto com as mãos para os outros dois bombeiros, e eles saem, nos deixando sozinhos.
- Seus pais de novo? - pergunta Joe, com um ar de cansaço.
- Se você já sabe meu motivo, por que ainda tenta fazer com que eu desista? Aqueles dois só sabem decorar falas e receber prêmios.
- Você sabe que no fundo eles se importam com você, de verdade.
- Não, não se importam. Com eles não existe "nós', existe apenas "eu". Eles são tão egoístas, tão estúpidos, tão...
A frustração com meus pais é tão grande que começo a chorar. Joe me abraça como se eu fosse sua filha, e me agarro ao seu uniforme sujo e fedido de fumaça. Não sei por quanto tempo ficamos ali, comigo me aliviando de tudo o que guardo só para mim e que não consigo aguentar mais, tudo aquilo que me deixa triste, com raiva e completamente maluca. Já está quase anoitecendo quando resolvo parar de chorar e ir para casa. O sol se põe sobre Los Angeles, criando um lindo cenário que infelizmente não consigo apreciar. Nunca fui de apreciar as coisas, antes eu achava que eu era insensível por isso, e hoje percebo que simplesmente não consigo.
Quando eu e Joe descemos do prédio, a multidão em volta já havia partido, restando apenas algumas pessoas (as mais curiosas e desesperadas para ter quinze minutos de fama) os repórteres e fotógrafos. Avistei meu pai e minha mãe rodeados desses parasitas, fazendo um drama danado para dizer o quanto estão preocupados com a filha. Claro que quando me vêem começam com aquele teatro de "estávamos tão preocupados", e me empurram para dentro do carro, sem que eu possa me despedir de Joe.
O caminho inteiro até em casa é calmo e silencioso, pois meus pais não gostam de conversar no carro pelo simples fato de que não confiam no motorista. Mas assim que piso em casa, o meu inferno pessoal começa.
- O que você tem nessa merda de cabeça Ramona? - grita meu pai. - Você quer queimar a imagem da nossa família? Quer arruinar nossas carreiras?
- Não sabemos mais o que fazer com você, e nem o que dizer aos jornalistas - diz minha mãe. - Você está passando dos limites!
- Todo dia é festas, drogas, vandalismo, e agora suicídio! Como vamos ficar diante a mídia com essa porcaria de vida que você leva?
- Poxa, não havia pensado em como isso vai afetar a fama de vocês - digo com deboche. - Da próxima vez vou me matar em casa mesmo, aí vocês fazer seu showzinho e dizer que um assassino veio aqui em casa nos matar. Ah, e podem deixar, não vou fazer muita sujeira.
- Isso não tem graça, Ramona!
Reviro os olhos, e deixo meus pais gritando comigo na sala. Estou na metade da escada quando ouço a frase:
- Grupo de apoio. Vai ser a única coisa que vai salvar essa garota, sem que manche nossas carreiras.
Volto até a sala, onde meu pai me encara com os braços cruzados.
- Você disse grupo de apoio? - pergunto, incrédula.
- Sim, eu disse. Você vai para o grupo de apoio amanhã a tarde, já está tudo marcado.
- Você não pode fazer isso comigo! - grito. - Não sou nenhuma drogada!
- Ah, não é? - diz minha mãe. - E todas aquelas drogas escondidas no seu guarda - roupa e na sua cama? E todos os dias que você chega quase desmaiando de tanta porcaria que você usa? Sem falar que você está virando uma suicida, não duvido nada que logo você está no Iraque servindo de mulher - bomba.
- Tudo seria bem melhor do que viver com vocês. Eu não vou, nem que me internem.
- Estamos fazendo isso para o seu bem...
- Que bem? Me diz uma vez eum que vocês tiveram a decência de se importar comigo? - grito, ainda mais alto. - Vocês nem sequer passaram um natal comigo, nunca lembram do meu aniversário, nunca perguntaram como eu estava. Só ligam para vocês, pra fama, pra riqueza, pra tudo, menos pra mim! Eu odeio essa vida, e eu odeio vocês!
Começo a chorar feito uma condenada, mas ao invés de meu pai cair na real, ele se aproxima de mim, e me dá um tapa tão forte no rosto que começo a ver estrelas. Caio no chão, soluçando, enquanto minha mãe faz um escândalo.
- Steve! Você enlouqueceu? Ela é nossa filha!
- Você chama isso de filha, Clarisse? Ela é uma imprestável, isso sim! Você vai para essa maldita reunião do grupo, por bem ou por mal!
Olho para ele, minha visão um pouco embaçadas por conta das lágrimas, e digo:
- E você ainda se diz pai. Ótimo pai que você é, seu cretino.
A única coisa que faço nas horas seguintes é chorar. Chorar por ter essa vida, chorar por meus pais, chorar por tudo de ruim que acontece em cada segundo da minha vida. Eu sei que chorar não vai fazer com que minha vida fique boa como num passe de mágica, mas alivia aquilo que guardo dentro de mim a sete chaves. Quando tiro a cara do travesseiro, ele está todo sujo de maquiagem e molhado. O relógio marca duas horas da manhã.
Me dirijo até o banheiro, onde choro mais um pouco embaixo do chuveiro. Posso ser uma louca suicida, mas uma coisa que nunca irei fazer é me automutilar. Pensa só na sujeira que causa, nos estragos nos seus braços, sem chance. A lâmina nunca foi uma opção para mim, então eu passo reto por ela. Não sou nenhuma otária.
Meus pais contrataram os melhores seguranças da Califórnia para me vigiar, então não posso mais fugir, até que algum deles me dê uma brecha para escapar. A única coisa que faço então é dormir, já que minhas forças simplesmente sumiram, e minhas opções estão muito limitadas.
•••
Durante todo o caminho até esse tal grupo de apoio, fico quieta. Meus olhos azuis parecem ter perdido todo o brilho que antes possuía, dando lugar a um azul pálido, quase cinza, e minha bochecha esquerda está com um pequeno hematoma. Tento destacar meus olhos e disfarçar minha bochecha com um pouco com maquiagem, mas não adianta quase nada. Meu pai me olha de um em um minuto, o que me irrita profundamente. Com certeza ele está pensando que a qualquer hora eu vou abrir a porta do carro e me jogar dele em movimento.
O motorista estaciona em frente a um prédio, talvez um dos últimos que tenha sobrado na cidade com esse tema vitoriano. Na frente dele, há um pátio onde vários jovens acompanhados de seus pais e parentes estão a espera para entrar. Deve ser o lugar.
O lugar que vai mudar minha vida. Completamente.
❝Me segure, me segure
Me jogue no fundo do poço, me assista afundar
Me nocauteie, me nocauteie
Dizendo que eu quero mais, eu vivo para isso❞
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Papercut
FanfictionTalvez aquela garota nunca havia me pertencido. Talvez nós só tenhamos sido duas pessoas comuns tentando se encontrar nesse mundo frio e hostil. Talvez nossas atitudes não tenham interferido em nossos destinos, mas elas nos rasgaram como cortes de p...
