Sabe as casas Londrinas, em que objetos e móveis de madeira ficam quase amontoados, dessas que vemos em filmes de comédia européia. Um ar de miniatura; a luz brilha laranja; tudo corre gracioso e engraçado. Essa era a casa de Hélio Le Blanco.
Morador do Jabeur, que sempre fora o prédio mais antigo de sua rua. Um prédio que não passava dos 5 andares, azul marinho, de uma tinta quase acabada, era de uma arquitetura bastante amadeirada, com tudo milimetricamente assimétrico, um edifício lindo, com moradores velhos. Mas Hélio fugia a regra, tinha apenas 25 anos. Estuda Engenharia. Gosta das pedras engraçadinhas, dessas de mármore que parecem diamante, as que ninguém dá valor; não gosta de conversar sobre ele, o deixa tímido; gosta quando tem maratona dos programas que assiste; odeia ter que caçar a chave de casa, porque sempre a perde, mesmo sendo um bolo de chaveiros diferentes; assim que assite a um filme, o reencena sozinho, dentro do quarto, enquanto ninguém vê; discute consigo mesmo quando erra; Hélio era normal, para a maioria das pessoas, mas no fundo se achava estranho.
Hélio tem um gato Persa, o Sir Urina. Uma bola de pêlos que é fofa de olhar, não de se tocar. Balança o rabo quando vê os peixes da peixaria de Emanuel, o português que há pouco se mudou de sua "terrinha" natal; arranha as janelas da sala; ronrona quando recebe um carinho do dono; e adora provocar o cão da vizinha de baixo, a Dona Giulia.
Dona Giulia era amiga de Hélio, bem carinhosa com todos e principalmente com ele, por ter perdido a família na Segunda Guerra, o tratava feito filho. Era uma polonesa de 70 anos que não sabia falar francês muito bem; toma café todos os dias, às 9:30, junto das cinzas do marido; não admite que falem mal de seu time, o pior de toda Polônia; anda descalça de madrugada por não gostar de meias.
Mas vamos falar de Hélio, lembra? O morador do apartamento da luz alaranjanda. Hélio tinha uma rotina, e não costumava quebrá-la. Saia todos os dias às 6:00, para trabalhar, na livraria de Dona Olga, que ficava no fim da rua. Hélio gostava de ir à pé, e sentir o cheiro das folhas que já haviam caído pela madrugada, ele sempre corria para sentir o odor que exalava das folhas mortas, já que toda manhã Dona Jacqueline varria as calçadas, uma mania que aprendeu com sua mãe, na qual sempre exigiu que as filhas varressem tudo o que pudesse ser varrido.
Dona Olga abria a loja às 5:00 e esperava ele chegar enquanto assistia o jornal da TV local.
Uma idosa surda que não aceitava cartões de crédito, dizia serem uma praga vinda do Diabo; deixava o pão queimar; ouvia músicas holandesas, mesmo sem entender nada; xingava a senhora da TV por falar as receitas rápido demais.
Todas as manhãs deixava o Jean-Baptiste com Hélio, o gato gordo da Dona Jacqueline, a irmã gêmea de Olga. Na maior parte desse trabalho, só xerocava livros de filosofia para comunistas da Universidade em que estudava. Saía ao 12:00 e ia para faculdade, chegando sempre 5 minutos atrasado, fazendo com que sempre pegasse a matéria desses 5 minutos com Charles, o único que realmente parecia se importar com aquele curso. Às 19:00 voltava pro apartamento pequeno. Quase um cubículo, mas que ele adorava.
Esse pequeno cubículo fazia com que as coisas parecessem bagunçadas. Deitava no divã do quarto que ele fazia de escritório, um lugar pra jogar as coisas que não cabiam na sala, lia seu livro da semana, um leitor assíduo que devorava romances de escritores anônimos, enquanto tomava seu licor, um dos tantos de sua coleção que ele fazia questão de expor na cristaleira antiga da sala, e claro, fazendo um gostoso cafuné no Sir Urina, e assim terminaria mais um dia comum do tão excêntrico senhor Hélio Le Blanco. Tudo seria normal, senão fosse pelo trabalho em grupo, marcado na casa de Charles, às 11:30, horário antes da primeira aula, que todos acertaram sem consenso de Hélio.
O jeito foi fechar a porta dos fundos; desligar os monitores; passar uma vassoura pelo segundo andar da loja, exigência de Olga; entregar o gato de Dona Jacqueline; fechar as janelas do terceiro andar; desligar o ar-condicionado e correr como desperado para pegar o ônibus das 11:05, que passava todos os dias, pontualmente. Saber os horários das linhas era moleza, desde criança ficava tardes inteiras no Terminal decorando placas e horários, esperando sua mãe sair do salão de beleza que ficava em frente.
Veja, ele subiu no ônibus! Pôs seus headphones, deixou sua música de jazz favorita tocar, e assistiu aos minutos do filme que a janela do ônibus transmitiu, estrelando pessoas normais em suas situações cotidianas.
Com cartolinas e papéis pelos braços, desceu do ônibus na rua de Charles.
Um judeu ruivo; que não dorme de cuecas azuis, porque tem certeza que dão pesadelos; vê filmes de ação achando que vai aprender a usar uma arma; joga pedra-papel-tesoura com macetes pra sempre ganhar; acha que ruivos alaranjados são melhores que ruivos avermelhados.
Quando foi tocar a campanhia de Charles, uma van da pizzaria parou atrás de Hélio, e dois homens altos e de procedência duvidosa o pegaram pra dentro do carro...
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Será que Hoje Acaba Amanhã?
AdventureComo você voltaria para casa se nem ao menos soubesse onde está? Sem dinheiro, sem celular, sem absolutamente nada. Entregue à sorte, Hélio Le Blanco tem de voltar para casa. Leia esta história, cheia de aventura, comédia e personagens um tanto quan...
