Segundo as leis de Newton, toda ação tem sua reação. Então por que diabos, eu sou tão imbecil?
Como meu pai sempre diz, quem tem pena do miserável, acaba indo pro lugar dele.
E cá estou eu, com uma taça de vinho, relembrando todas os meus desastres, seja eles amorosos ou profissionais.
Eu deveria me internar em algum manicômio barato.
Meu pai, que era o ser mais presente em minha vida, de uma hora pra outra se tornou desprezível.
Creio que alguma peguete nova tenha haver com isso!!
Bom, onde estão os meus bons modos, não é mesmo? Deixe-me apresentar.
Me chamo Carolina, tenho vinte e quatro anos e moro sozinha!
"Ah, como assim? É tão jovem e já mora sozinha?"
Isso é pra você ver o quanto eu sou uma pessoa sortuda, desde bebê eu já fui destinada a passar por muitas coisas boas. Só que não!
— Eu já deveria ter aprendido a cozinhar, não aguento mais comida enlatada. – Digo para o meu ursinho. Isso mesmo, como moro sozinha, minha única companhia são meus ursinhos.
Quando meu pai morreu, eu fiquei muito desorientada. Pois era ele quem me ensinava/ajudava com tudo! Minha mãe nunca foi de se importar tanto. Depois que descobriu sobre sua doença, ela só queria saber de farrear... E isso fez meu pai entrar em depressão!
"Ah, e você não fez nada?"
Lógico que fiz! Chorei bastante.
O que uma criança pode fazer a não ser travessuras? Eu era uma peste, confesso!
Depois que meu pai morreu, eu guardei muita mágoa da minha mãe, e carrego até hoje.
Quando ela descobriu que o tumor era benigno, ela veio chorar pro meu lado. Sempre fui "coração de gelo" e pouco me fodi para as lágrimas dela!
"Ah, você usou o termo 'coração de gelo', você é viciada nesse negócio de signo?"
Eu? Imagina!
Sou capricorniana com muito orgulho. Se um adulto capricorniano é considerado ruim, agora imagina uma criança!
Depois que tudo se acalmou, eu resolvi fugir de casa! Nem olhei para trás.
Quando cheguei no aeroporto, fiz amizade com uma senhora e contei toda minha história pra ela.
Ela comprou uma passagem pra mim, e me levou pra morar com ela.. Eu nem pensei no fato dela poder ser uma psicopata e me matar por lá mesmo.
Ela me deu tudo, ela foi uma mãe postiça. Me deu educação, me botou em uma escola, trocou meus documentos e conseguiu minha guarda na justiça.
Ela foi simplesmente maravilhosa, coisa que minha ''mãe biológica'' não conseguiu ser.
Ela se foi, e depois disso eu fiquei sozinha mais uma vez. Só que dessa vez, ela me deixou um lugar para morar. E hoje estou aqui, morando no seu apartamento. Ela também me deixou outro pai, que era tão presente quanto o meu biológico! Só que depois do falecimento dela, ele mudou. Simplesmente sumiu com suas novas peguetes.
E eu até procuro entender o seu lado!
— Preciso da Alícia aqui, urgente – E mais uma vez, resolvo que perturbar minha amiga é a melhor opção nesse momento.
Alícia é como uma irmã pra mim. Nos conhecemos na escola, e agora somos companheiras para todas as horas.
— Alícia, preciso de você – Digo e sei que ela sabe o motivo.
— Carol, você tem que assistir aqueles vídeos de culinária no YouTube! Eu não vou existir pra sempre. Vai e eu morro amanhã, como tu vai ficar?
— Não fala asneira, menina. Tu não é nem louca de morrer e me deixar com fome pro resto da vida.
— Eu estou saindo do trabalho agora, tem roupa minha aí? – Opa, vai ter café da manhã também!
— Tem sim, amiga. Vem logo, tentei fazer alguma coisa mas acho que eu destruí minha cozinha. – O que não é mentira, parece que entrou um furacão nela.
— Se afasta dessa cozinha, pela fé! Estou chegando.
Aleluia.
Agora só falta eu arrumar o apartamento, que também parece que entrou um furacão nele.
Vocês devem está pensando.. Por que meu apartamento é tão bagunçado, não é mesmo?
Vida de cirurgiã não é fácil, galera! Nem mesmo pra uma residente.
Não tenho tempo pra dormir, muito menos pra aprender no YouTube receitas de culinária.
Grey's Anatomy realmente mexeu comigo! Mas deixa em off.
Caminho até a varanda e fico relembrando mais uma vez tudo que eu já passei... Foram tantos momentos bons, e tantos momentos horríveis. Eu carrego tanta dor, tanta culpa! Eu queria saber como minha mãe biológica está, mas ao mesmo tempo, não quero nem imaginar como vai ser olhar pra ela de novo.
Afinal, ela matou meu pai! Matou aos poucos, mas matou!
Eu só queria voltar no tempo e reviver tudo mais uma vez. Voltar pros braços do meu grande herói e grande pateta como ele costumava se alto criticar.
Queria que a vida tivesse sido fácil pra mim, queria muito. Mas nada é do jeito que a gente quer.
Eu procuro pensar que tudo tem seu propósito. As vezes isso me ajuda a esquecer! Me ajuda a pensar nem que seja só por um momento, que a culpa não é inteiramente minha! Só que depois a angústia volta. E eu sei que ela só vai passar quando eu perdoar minha mãe.
Até onde eu sei, na bíblia manda honrar pai e mãe. E eu só fiz isso com meu pai! Nem coragem de olhar pra ela eu tenho! Na bíblia também manda a gente perdoar setenta vezes sete. E eu sempre fui tão religiosa, sempre obedeci tanto as vontades de Deus.. E hoje eu não consigo perdoar.
Um dia eu ligo pra ela. E esse dia vai demorar, porque até Deus tirar isso do meu coração, eu não vou conseguir. Eu não quero dizer que perdoei só da boca pra fora. Isso seria o mesmo que nada! Tem que ser de coração, e isso é uma coisa que nesse momento, eu não tenho!
Meus sentimentos morreram juntos com os meus pais. Desde meu pai biológico, até minha mãe postiça! Não dá pra perdoar agora, e eu espero muito que Deus entenda meus motivos.
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Uma Vida Complicada
RomanceCarolina com seus vinte e quatro anos, mora sozinha em sua cidade natal. Perdeu seu pai na infância, e sua mãe tem sequelas de doenças passadas. Está cursando medicina, o que não é nada fácil para ela. Alicia, e seus vinte e quatro anos, morava com...
