Ronnie encontrava-se desesperada. Faziam três dias que andava à procura do seu passaporte e o raio do documento teimava em não aparecer. Dentro de dois dias iria fazer uma viagem para o sul da América e precisava urgentemente do seu passaporte, se não podia dizer "adios" a uma das suas viagens de sonho.
No meio de caixas cheias de documentos que ficaram esquecidas e acumuladas numa pequena dispensa ao longo dos anos, Ronnie procurava pelo desgraçado pedaço de papel quando encontrou um pergaminho envolvido por uma fita acetinada avermelhada. Ao deparar-se com aquele achado, um sorriso brotou-se-lhe na cara. Ela sabia exatamente o que iria encontrar no interior e abriu-o, cuidadosamente, como se de um tesouro tratasse. Nesse preciso momento o seu telemóvel tocou e Ronnie correu para o atender, acabando por tropeçar numa caixa. Amaldiçoando o pequeno caixote que tinha espalhado todo o seu conteúdo pela sala, ela atendeu a chamada calculando que fosse alguém do trabalho.
- Verónica Marques.
- Boa tarde Senhora Verónica, daqui fala o seu novo secretário. Gostaria de falar consigo antes da sua partida.- falou uma voz masculina. Ronnie tentou atribuir uma cara à voz mas só conseguia imaginar um adolescente borbulhento.
- Oh, por favor, trata-me por Verónica ou Ronnie, se preferires. Passarei no escritório ainda esta tarde mas até lá gostaria que verificasses se todos os meus projetos foram enviados e todas as encomendas foram feitas. Ah, e para além disso, quero que reúne todas as informações do edifício da Nike: plantas, os meus primeiros esboços, encomendas primárias e orçamentos. Este será o nosso projeto priveligiado. - informa enquanto começa a arrumar toda a confusão da dispensa- Podes encontrar tudo nas prateleiras de madeira da minha sala. Se precisares de mais alguma coisa tens sempre a Ana a quem podes pedir uma mão. Entendeste tudo?
- Sim, acho que sim. - respondeu o rapaz/homem/incógnito.
- Mais alguma pergunta?
- Não, penso. A senhora é sempre assim tão apressada? - perguntou curioso.
- Olha, ...- Ronnie lembrou-se que ainda não sabia sequer o nome do seu mais recente acólito. Ana, sua melhor amiga e sócia, é que se tinha encarregado de arranjar um secretário para ela pois esta era incapaz de escolher um, atribuindo sempre uma lista de defeitos a todos os entrevistados.
- Kevin, Kevin Figueiredo.
- Então, como eu estava a dizer Kevin, as coisas comigo são simples e esquemáticas. No mundo dos negócios não à tempo a perder por isso é melhor que te habitues a um ritmo acelerado senão ficas suscetível a "perder o comboio". - declara rigidamente. Ás vezes conseguia ser uma valente "pain in the ass" e dava razão a Ana que achava que ela por vezes se tornava muito fria.
- Entendido. - respondeu Kevin que já devia ter riscado Ronnie das suas lista de possíveis amizades.
- Ah, finalmente, estava a ver que nunca mais. Maldito sejas tu!
- Desculpe? Isso era para mim Senhora Verónica? - inquiriu o já não tão incógnito rapaz assustado.
- Não! Não, desculpa! Não era para ti e, peço-te, não me trates por senhora novamente. Faz-me sentir velha e, vamos assumir, envelhecer não está nos meus planos do futuro próximo. - Respondeu Verónica pegando no seu passaporte que encontrou, acidentalmente, na caixa que tinha espalhado pela dispensa. Ao menos a negra com que ficaria não tinha sido feita em vão, pensou. - Tenho de ir, até logo.
- Até logo.
No dia seguinte, partiria num voo noturno para mais um dos seus destinos da sua lista de "Rota da minha vida". Dela já tinha riscado 20 destinos, precisamente, e iria passar para o vigésimo primeiro: Peru, mais precisamente "Machu Pichu". Considerava-se uma mulher de sorte pois com apenas 27 anos já tinha conseguido conquistar os 5 continentes e uma mulher catálogo, não por ser ter um corpo de modelo e cara de princesa (apesar de ter), mas sim por ter um vício, quase obceção em fazer listas. Não importava o assunto, não lhe afetava o lugar e não lhe interessava a companhia, se lhe dessem um papel e uma caneta de feltro ela faria uma lista.
Apressou-se a tomar um duche deixando na banheira todo o suor que tinha libertado durante a sua corrida matinal e vestiu uma roupa mais adequada para a empresária de sucesso e prestígio que era. Tomou uma refeição rápida no seu restaurante preferido e depois dirigiu-se para o centro de Lisboa onde ficava a sede da sua firma. No caminho estava inquieta e não conseguia de deixar de pensar no seu novo secretário. Como é que ele seria? Será que não se iria dar bem com ele? Ela já estava saturada de trocar de ajudante. Muitas vezes acabava por constatar que o obstáculo era ela, talvez ela não tivesse capacidade para trabalhar em grupo. Depois esses pensamentos eram transportados para a sua vida particular e aplicava a "regra" aos seus relacionamentos amorosos: talvez ela não fosse capaz de compartilhar toda a sua vida com alguém tal como o seu trabalho. E era essa a desculpa que dava para o facto de ter idade de estar quase casada e ainda nem ter sequer uma relação que durasse tempo suficiente para chegarem à parte de partilhar um apartamento.
Ronnie afastava rapidamente esses pensamentos, lembrando-se e relembrando-se que era uma mulher forte, bem sucedida e independente e que não precisa de nenhum homem apesar de sentir, por vezes, falta de alguém que lhe aquecesse os pés à noite ou que a acordasse com um beijo de manhã ou que corresse com ela.
Ao entrar no andar dela reparou logo numa agitação incomum por parte da plateia feminina. Todos os olhos e comentários recaiam sobre uma pessoa: um homem muito bem apresentado que "passeava" pelos corredores! Era uma brasa, pensou logo ela, este era o tipo de homem que ela adoraria que a acordasse com um beijo de manhã. Por este nem se importava de acordar cedo!
Afastou essas ideias da mente e dirigiu-se ao escritório de Ana para se atualizar das últimas noticias, ignorando aquele Deus grego.
Seguiu para o seu escritório e ao entrar encontrou o Deus grego vasculhando os seus pertences. Paralisou.
- O que é que pensa que está a fazer? - indagou repentinamente. - Quem é que o deixou entrar aqui? Este é o meu escritório e os meus objetos pessoais! Onde é que estava o meu secretário quando é preciso? Parece-me que alguém vai conseguir a proeza de ser despedido sem chegar a conhecer a sua chefe.
O Deus grego/ versão masculina de um modelo da Victoria's Secret assustou-se e depois deu uma gargalhada. Ronnie não gostou e cruzando os braços empregou a sua melhor cara de mulher autoritária, fitando-o intensamente. Merecedora de um Óscar!
- Parece que o seu secretário sempre conhecerá a sua chefe. - respondeu, esticando a mão para se apresentar - O meu nome é Kevin e você deve ser a Verónica. Tenho a dizer que nunca a imaginei assim.
Ronnie não poderia acreditar no que se tinha sucedido, estava completamente:
-estupefacta
-embasbacada
-envergonhada
-estatelada
-corada
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While Alive
RomanceVerónica, mais conhecida por Ronnie, possui como sua maior relíquia uma lista que esta fez no auge da sua adolescência. Muitas aventuras vão ser vivenciadas devido a um simples pedaço de papel.
