Cedo

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A manhã estava chuvosa e a tempestade que caía trazia consigo o silêncio dos mais vulneráveis. Ninguém gritava ou se mexia, somente o barulho das gotas de água trombavam os obstáculos que encontravam, mais nada.
Ah, sim. O frio. Ele era tão cruel quanto a água. Não havia dado uma trégua sequer mesmo com tantas explosões, mesmo com tanto sangue. A chuva caía em alguém.
Seus olhos se moviam lentamente. Buscavam alguma esperança, buscavam por algum sinal, buscavam, talvez, o som de alguma coisa que não fosse chuva ou trovões, como se sua visão desconfiasse da própria audição, ou mesmo, naquela hora, houvesse a desconfiança, até de que tudo aquilo era sonho ou realidade.
Há algumas horas atrás, o recém nomeado Tenente Allan Cobey não poderia ter previsto uma emboscada tão precisa.
Cobey era conhecido por sua eficiência em táticas de batalha, admirado por todos aqueles que o acompanhavam. Em sua guarnição ninguém era capaz de questionar suas ordens pois, até aquele momento, todos, ainda, estavam sobrevivendo.
As mãos trêmulas desciam empurrando lama e pedras. Poderiam ser outras coisas, mas era muito mais confortante pensar que fossem pedras. Desceram até alcançar os bolsos rasgados da calça de onde conseguiram retirar algo enrolado em uma espécie de pano de seda. "Está intacto", conseguiu raciocinar quando trouxe o pacote até o rosto e começou a desembrulhá-lo. Por algum motivo, talvez pelo longo período desacordado, Cobey conseguiu identificar o rosto de uma mulher em uma fotografia. Suspirou.
Era uma mulher de feições fortes, lábios carnudos, olhos grandes e negros fixados em algo que se projetava além da câmera. A maçã do rosto e seus maxilares bem desenhados lhe conferiam o mais belo sorriso herdado de sua descendência africana.
Era, realmente uma mulher inigualável. Cobey a havia conhecido em uma viagem à Cidade do Cabo e, desde então, se tornou seu melhor e mais prazeroso amuleto.
"Jhanette!" Suspirou mais uma vez e em seguida sentiu uma onda de choque subir pela sua perna esquerda. A dor foi tão intensa que o Tenente percebeu a vertigem da sucumbência lhe retirar, por alguns segundos, a consciência. Alguma coisa estava muito errada.
A chuva continuava a cair e sufocar o resto de esperança que poderia lhe ser útil e, ainda trêmulo e sorumbático, continuava a tentar se arrastar como um inseto pisoteado. Foi quando sentiu um forte solavanco e notou que alguma coisa o erguera do chão enlameado. Sentiu náuseas.
- Tenente, olhe para mim!
Tudo rodava. Por mais que se esforçasse, Cobey não conseguia fixar o olhar no que parecia um rosto, por hora, familiar. As náuseas voltaram tão fortes que, Deus sabe lá, o que havia jantado foi expelido brutalmente na face de seu subalterno socorrista.
- Puta que lhe pariu, Tenente! - gritou entre cuspidas e tosses - Segure-se em mim. Não vamos ter muito tempo.
Cobey recobrou um pouco da consciência perdida, o bastante para perceber a angústia de um de seus soldados misturada com nojo e desespero, além de algumas vozes vindas de algum lugar por perto, vozes que não traziam nenhum sinal de segurança.
- Tente se movimentar, Tenente. Me ajude a te ajudar!
Alguns passos nasceram de uma paralisia quase que atraente. Allan não era um homem que se entregaria fácil em nenhuma circunstância, entretanto, naquele momento, entre câimbras e náuseas, sentindo que seu corpo era o seu mais temível peso morto, era um caso a se pensar.
Arrastava-se mais do que caminhava e sentia-se envergonhado por isso. Entretanto, mesmo com a moral baixa, sabia que o pouco que conseguia fazia toda a diferença no seu destino incerto. Destino este que poderia chegar ao fim a qualquer momento.
Novamente a adrenalina começou a impulsionar seu coração e a vertigem passava, Cobey não entendia se era um bom ou mal sinal, uma vez que as dores também se intensificavam. Notou, pela primeira vez, que seu heróico subalterno era bem mais novo do que se aparentava no início do resgate, e bem mais novo. Percebeu, também, que não o conhecia direito.
- Muito forte para um garoto sem pelos no rosto, soldado. - disse enquanto respirava as dores da caminhada.
- E o senhor, com todo o respeito, bem mais pesado do que se parece. - respondeu cambaleante nas próprias palavras.
Cobey sorriu e engasgou ao mesmo tempo, mas não perdeu as passadas, mesmo estando cada vez mais pesadas.
- Estou morrendo, soldado. - disse percebendo algo molhado lhe descer as costas, mais quente do que a chuva - Desista!
- O senhor está mais nos matando do que morrendo. - respondeu o soldado com os olhos fixos em alguma coisa no seu caminho, algo que parecia saber ou conhecer.
Cobey procurou identificar o que poderia ser tão importante para poupar suas vidas no caminho pretendido pelo jovem soldado, mas a distância também, naquele instante, era outro dos fatores afetados pelo seu moribundo corpo. Mas conseguiu perceber o barulho das hélices, e as luzes.
Foi colocado em uma maca improvisada em meio a clareira e sentiu o cheiro de grama molhada e pisada, grama tão massacrada como suas pernas, e sentiu o retorno da vertigem mortal, tão agradável quanto temida.
As vozes começaram a se misturar com o barulho dos motores e das metralhadoras, vozes de quem pedia sua atenção, vozes desesperadas em manter-lhe lúcido. Em manter-lhe vivo.
De repente, as luzes começaram a se apagar, as vozes não eram mais identificáveis e seu corpo não era perceptível. As últimas palavras que o Tenente conseguiu pronunciar foram:
- Corram para a cachoeira, esperem! Eu conheço este lugar mas, - e arregalou os olhos - ainda é muito cedo.

(Continua...)

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