O médico escreve no teclado escuro do computador colocado em cima da sua secretária, também cheia de papéis, canetas, pequenos blocos, aparelhos de medir a tensão e outros. Os seus olhos observam o ecrã por cima dos óculos, e a sua mão direita move-se para o rato.
Segundos de ansiedade se passaram, até finalmente a sua voz ser ouvida. - As tuas análises, exames e raio-x mostram algo peculiar. - ambas as suas mãos se cruzam e apoia os cotovelos em cima da secretaria cinzenta, o seu queixo é pousado em cima das mãos.
- Eu lamento informar, mas Bethany, és portadora de um tumor cerebral maligno. - As palavras saem arrastadas do médico que me acompanha desde pequena.
Um sorriso pequeno escapa dos meus lábios. Não é nada que eu não estivesse à espera, as dores de cabeça que eu tinha não podiam ser consideradas normais, e se é para enfrentar problemas, que seja com um sorriso no rosto.
- Ele está alojado na parte que guarda as memórias no teu cérebro. É uma espécie de Alzheimer, mas mais forte e maligno. Eu aconselho a quimioterapia. Não é certo que funcione, mas de certeza que atrasa o tumor numa estimativa de dez anos. - continua.
- Eu não vou fazer tratamentos Doutor. Só queria saber, qual é o meu tempo de vida? - Pergunto, com a minha voz sem sofrer alteração.
O médico já nos seus sessenta anos, cabelos grisalhos e umas rugas na sua testa e bochechas, olha-me atónito por meros segundos, mas logo o seu olhar é desviado para o ecrã novamente.
- Seis anos, no máximo sete. - volta a olhar na minha direção, e pergunta-me seriamente. - Tens a certeza que não queres realizar os tratamentos?
- Sim, tenho. Eu quero morrer como estou e sou, e não cheia de medicamentos que me vão impedir de viver e aproveitar o que me resta como deve de ser. - concluo a minha rápida explicação, enquanto ajeito a mala no meu colo.
- Compreendo. Mesmo assim, gostaria que viesses realizar exames de mês a mês, pelo menos agora no início. À medida do avançar da situação, provavelmente terás de vir realizar os ditos exames mais frequentemente, e se o tumor piorar ao ponto de ter que ser internada, terás de o ser.
- Mas Doutor, garanta-me que não irão pôr aqueles medicamentos no meu sangue.
- Eu não posso simplesmente deixar-te a sofrer quando sei que os medicamentos te vão ajudar. - fala, e como resposta obtém apenas um suspiro aborrecido da minha parte.
- Eu compreendo a sua posição. E, não sou psicólogo, mas aconselho a enfrentar este problema com esse sorriso, e não deixá-lo ir embora nunca. O mais difícil provavelmente será a reação da família. - continua.
- Eu sei, estou a contar com isso, mas se eu mantiver este sorriso, ninguém tem o direito de chorar. - digo apontando para o sorriso na minha cara.
- Concordo, contudo, aconselho-a a esperar vários tipos de reações. - aconselha, agora com as mãos e braços estendidos na mesa.
Aceno a cabeça afirmativamente. O Doutor passa-me um papel para eu entregar na receção e após conversar sobre os cuidados que eu deveria ter devido à minha nova condição de vida, levanto-me da cadeira almofadada, apertando a mão do meu médico, e saio do gabinete, caminhando até à receção do hospital, com a intenção de marcar o próximo exame.
- Em que posso ser útil menina? - a senhora atrás da secretária pergunta bem disposta.
- Queria marcar um exame para o próximo mês. - digo ao entregar a folha que provavelmente tem lá explícito que tipo de exame eu preciso de fazer e a minha doença.
O olhar de pena que a senhora me lançou só comprovou a verdade dos meus pensamentos. Parece que vou ter de me habituar, não é mesmo? Contudo, não vou ser das pessoas que se nota que tem cancro, pois eu não vou fazer quimioterapia, e isso deixa-me feliz. Ser tratada como alguém considerado normal, e não como alguém doente, até ao fim da minha vida deixa-me feliz.
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Drowning
RomanceEla tinha a coragem de morrer, ele tinha a coragem de a salvar. ~~~~~ Cover: shipsaremything
