Desde que me lembro, sempre gostei de fugir do normal, fugir as regras e olha que sou péssima a lembrar-me das coisas. Hoje foi um dia normal passado em "piloto-automático" sem fugir da rotina, acordar com o teu pai ao lado, levantar, beber o café da manhã, dar-te banho, levar-te a escola e parar no café a tomar o pequeno almoço. Mas nesta pequena parte da rotina algo se quebrou quando li uma frase no jornal "quantas coisas perdemos por medo de perder?". Interroguei-me vezes sem conta debatendo dentro do meu sub-consciente. Fez-me lembrar quando perdi o meu primeiro dente por medo da professora, sim! Tal como todos os alunos do primeiro ano escolar, estar presa numa sala com uma mulher a moldar-me os conhecimentos puros não era para mim, então decidi pedir para ir a casa de banho. "Fazer xixi!" dizia eu para os meus botões, mas quando ia a caminho da casa de banho algo roubou a minha preciosa atenção, um casal a discutir no meio da rua.A primeira vista não parece muito interessante mas naquela altura para mim era algo que nunca tinha visto antes, aproximei-me em pés de lã para ver o que se passava através das vedações da escola. Ouvia nomes que em casa me diziam ser feios, até que ouvi um "slpash", acho que ele lhe deu um "abre-olhos", com o estrondo levantei um pouco a cabeça, e foi aí o momento mais constrangedor da minha infância, o homem que estava a agredir a pobre mulher indefesa era o meu próprio pai a bater na minha própria mãe. Rodei a minha cabeça confusa e assustada para trás e tal não foi o meu espanto ao ver o relógio que se encontrava na parede da escola marcava que estava na suposta casa de banho a 15 minutos!! Corri o mais depressa que consegui para a sala, com tanta velocidade não consegui travar o meu corpo e a minha cabeça foi contra o puxador da porta da sala, foi nesse preciso momento que perdi o meu primeiro dente.
Um dia tu também vais perder o teu primeiro dente, eu queria tanto poder prometer-te que vou lá estar para ver, mas é impossível para mim. Dizem que quando queremos muito uma coisa ela acaba por se realizar, mas não é o meu caso. Provavelmente estas a questionar o porque de não ser, deixa-me explicar, depois de tu nasceres, foi-me diagnosticado um cancro dos pulmões, essa é a razão pela qual estou a escrever isto para ti, para que saibas tudo o que não vou poder dizer, para que quando as saudades apertarem poderes ler isto, para que todas as palavras não proferidas sejam lidas e relembradas por ti, lembra-te.
Depois do dia em que perdi o meu primeiro dente, as coisas entre os meus pais pioraram, havia cada vez mais palavras feias e mais feias ficavam as discussões entre eles, assim como feias ficavam as marcas que o meu pai deixava na minha mãe após cada discussão. Naquela altura era tudo muito confuso para mim, fechava-me no meu quarto e fingia que não ouvia.
