– Me conte novamente essa história sobre você ter feito parte da corte, passarinho – ordenou Lena a Jahn, duvidando de tudo o que o falcão dourado falante já havia tagarelado desde que saíram daquela cidadezinha no meio do nada. Já estavam andando havia sete dias e ainda faltava ao menos uma tarde, uma noite e uma manhã até chegarem à capital.
– Já te falei – resmungou Jahn. – Servi ao rei Hornos quando ele ainda era príncipe, antes de vestir aquela bela coroa de chifres. Eu o ajudava nas caçadas. Voava, encontrava a presa e contava exatamente onde estava. Formávamos uma bela dupla.
– E por que largou aquela vida de opulência para viver no meio do deserto, passarinho?
– Porque percebi que Hornos ainda não tinha um falcão dourado falante na sua coleção de animais empalhados. Não demoraria muito até que chegasse a minha vez de virar a presa.
Os dois riram. Estavam abrigados debaixo de uma árvore frondosa esperando o tempo passar. Naquele momento, a Gigante Rubra e a Donzela Laranja – os dois sóis que iluminavam Matria – ardiam no céu, tornando a temperatura insuportável para quem não estivesse à sombra. Logo a Gigante Rubra se deitaria e a mensageira e seu guia poderiam seguir viagem sob a luz fraca da Donzela Laranja.
Lena não largava a Clemente nem mesmo quando cochilava. Dava sempre um jeito de ter a lendária espada em mãos. Era uma peça impressionante, com um cabo coberto por couro onde era possível segurar com três mãos, se o guerreiro tivesse três mãos. Uma safira negra adornava a guarda e a lâmina grossa e pesada, entalhada com runas místicas que só os mais poderosos guerreiros conheciam, estendia-se por quase um metro e meio. A espada tinha praticamente o tamanho de Lena, mas ela não se queixava de carregar a arma.
Lá em sua cidadezinha sem nome no meio do maior deserto de Matria, Lena crescera ouvindo canções de ninar sobre o fabuloso guerreiro Kaggen, o Indômito, e seus feitos com a Clemente em punhos.
Piedoso e feroz, Kaggen derrotou
Os exércitos que encarava de frente
Apenas um golpe era desferido
Por sua misericordiosa Clemente
A mensageira cantarolava olhando para a espada. Lembrava dos olhos de seu pai brilhando quando contava sobre as façanhas do maior herói a serviço do rei Hornos. Certamente, o monarca ficaria feliz com o retorno da Clemente. Lena já se imaginava voltando para casa com um pequeno saco de moedas. Ou, quem sabe?, um burro carregando grãos para alimentar seus vizinhos.
Quando finalmente a Gigante Rubra desapareceu no horizonte e o céu ganhou um tom alaranjado de fim de tarde, Lena a Jahn voltaram a caminhar (ou voar, no caso da ave dourada). O falcão ganhou altitude até virar apenas um pontinho sobre a cabeça da menina. Depois, mergulhou de volta para o chão.
– Prepare-se, mensageira! – ele alertou. – Há um pequeno grupo se aproximando. Estão logo atrás de nós, mas como estão em charretes devem nos ultrapassar em breve.
De fato, não demorou. Era uma caravana de vinte pessoas em quatro carroças motorizadas. Quatro famílias esquálidas, suadas e sujas de areia. As primeiras carroças passaram direto pelos dois viajantes, mas a última parou.
– Corram, se puderem! – disse o homem que guiava os rinocerontes. Os enormes animais puxavam o veículo, que estava com os motores danificados. – Há uma desgraça chegando! Espero que cheguem à capital a tempo e se protejam atrás de seus muros e guerreiros.
"Guerreiros", Lena riu, enquanto via aquele charrete se afastar. Nenhum guerreiro estava protegendo a capital naquele momento. Sempre que um dos soldados de Hornos morria, os demais abandonavam suas armas na sala do trono e partiam para o deserto, onde rezavam por dez dias para que a alma do irmão abatido em uma batalha encontrasse seu caminho, guiada pela Gigante e pela Donzela, as divindades personificadas nas estrelas mais próximas. Pelos preceitos, os guerreiros só voltariam a proteger a capital em três dias. Até lá, os moradores estariam por conta própria.
YOU ARE READING
Clemente
FantasyUma espada lendária pode ser a única arma capaz de defender um planeta de uma estranha criatura.
