Capitulo 1.

25 0 0
                                        

Não era extranho para quem passasse pelo subúrbio paulista, próximo a cidade de Osasco já, algum burburinho sobre uma abominação, algo horrendo. Já havia se tornado uma lenda urbana. Um garoto, a idade nunca era certa, então sempre arredondavam para baixo. Alguns já chegaram a jurar de pé junto que ele tinha 10 anos quando tudo aconteceu. Enfim. Todos falavam. Um otimo garoto, até na igreja ele ia. Mas um dia ele mudou. Coisa repentina. Ninguém sabia como, mas todos, mesmo que não assumissem, sabiam o porque. Os mais idosos, que viram tudo de camarote, de suas cadeiras, melhores que muitos seguranças, diziam que foi o demônio, ou, como dizia Mãe Laurinda, a pomba gira tomou conta. Dizia isso e se benzia, causando um pouco de confusão inclusive entre seus orixás. Bom, a história foi mais ou menos assim como vou contar. Mais ou menos. Como eu disse, muita coisa foi mudada, retirada e acrescentada. O único que poderia confirmar ou negar, sumiu. Então vamos lá. Cerca de uns 15 ou 20... Dias atrás. Sim, dias. Creio que a introdução que fiz não foi tão boa assim para o período de tempo não é? Mas foi isso sim. Continuando. Vivia ali nas redondezas paulistanas, um garoto, franzino, magrela, braquelo, meio loiro, com os olhos de um castanho claríssimo, quase amarelos. Tinha seus 16, talvez 17 como contam a maioria. Estudava em uma escola pública, tinha poucos amigos. Mas não poucos amigos que se pode abraçar ou chutar quando se irrita com eles. Eram poucos amigos, como se diz, online. Parceiros para jogar alguns jogos no PC. Atividade essa que dispensava quase o dia todo do garoto. Bom, esse garoto é Júlio. Já apresentado ao leitor, gostaria de me intrometer mais ainda nessa curta relação de vocês, e contar-lhe mais um fato sobre Júlio, este que ele tenta de toda e qualquer maneira esconder. Júlio é gay. Sei que para vocês, mais modernos, isso é normal, mas a quinze ou vinte dias, no bairro de Júlio era algo horrível. Sua família (veja só, estou me metendo de novo), era extremamente religiosa. Mas não aqueles religiosos fofinho e fanáticos que vemos. Eles eram fanáticos, só para Júlio. Não vou mentir, sua mãe até ia para igreja, mas não "cumpria o que via". Digamos que ela gostava mais de comentar dos irmãos do que realmente prestar a atenção no que dizia o pastor. Aliás, esse também era alvo dos comentários. Coisas como a roupa, o mode de falar, a careca do pastor, tudo era alvo de comentários, e no fim, bom, no fim não havia espaço na memória para guardar o que ele dizia. O pai de Júlio não se dava nem ao trabalho de ir para a igreja. Dizia que deus falava com ele em casa mesmo. E só isso. Saia, bebia, e, perdoe-me o comentário, traía. Mas mesmo assim, gostava de se afirmar como pastor só porque havia cursado uns meses de teologia online. Enfim, Júlio se via preso. Qualquer coisa que ele fazia era alvo de comentários do tipo, que desgosto para deus, ou vai escrever um salmo para ver se aprende. Júlio se fechava então nessas novas tecnologias de aplicativos e internet. Criava alguns " fakes", que usava para ganhar alguns "nudes". Sentia a maior vergonha do mundo quando fazia isso, mas sempre depois de se masturbar e gozar, aí lembrava que deus estava olhando, se sentia encabulado. Coisas assim eram corriqueiras. Sua vida se baseava nisso. Escola, computador, celular. Mas essa história ainda não começou. Ela começa num dia normal. Júlio acorda cedo, se troca, vê seu pai no computador, finge que não vê. Não come nada e vai para a escola. Vai andando mexendo em seu celular, inerte a tudo no mundo. Chega na escola, vai para seu canto. Todos sabiam que aquele era o canto do Júlio. Uma forma de bullying. Alguns até falavam que quem sentasse ali, viraria um Júlio da vida. Ele fingia não ligar, mas ligava. Nesse dia ele se senta, e alguém se senta ao seu lado. É um garoto. Meu deus. Ele entra em desespero, ninguém nunca tinha sentado no " canto do Júlio".
- Oi, você sabe onde fica o 3° ano A?
Júlio tira o fone, e pergunta o que o garoto tinha falado. Ele havia escutado, mas sabe aquela sensação quando não acreditamos no que ouvimos? Foi isso.
-O I, VOCÊ SABE ONDE É A SALA DO 3° ANO A?- disse o garoto pausadamente, como se fala com alguém que tem algum retardo ou algo assim.
-É minha sala. Porque?
-Ta bom, mas onde é? Hahaha
Júlio sentiu como uma zueira. Se sentiu acanhado. Já estava tímido porque aquele garoto era bonito. Júlio já não sabia lidar com pessoas normais, com pessoas bonitas ele era pior.
-Segue no corredor. Terceira sala.
-Valeu mano. Eii, isso aí é o que? Tu tem twitter? Mano, eu te sigo rsrs
-É legal.
O coração de Júlio dispara. Como manter um assunto? Ele nunca tinha conversado com ninguém ali na escola. E não, não é força de expressão. Nem com os professores ele havia trocado qualquer palavra. Para os professores era bom. Um aluno a menos para encher o saco.
-Você é novo aqui?
Ufaaa. Conseguiu. Alguma coisa. E o medo dele responder. Dele continuar o assunto. O que dizer mais? Tomara que ele só responda sim. Mas se ele responder sim, ele não quis conversar, seria pior. Não, seria melhor. Não teria o trabalho de se falar mais.
-Sou sim.....
Ufaa, foi só um sim.
-Mas e você? Estuda aqui a quanto tempo?
Uma pergunta fácil.
-cinco anos.
-Cara, você não é de conversar muito neh? Rsrs
-Rsrs sou meio tímido mesmo.
-Tudo bem. Como sou novo aqui, preciso me inturmar. Posso sentar com você?
-Se precisa se inturmar, não sou o melhor para isso...- Júlio solta uma risada frouxa, daquela que não quer rir de verdade.
-Me inturmo com você. Depois vejo o resto.
O sinal bate. Júlio levanta num pulo e segue para a sala. O garoto vai atrás.
-Oi, voltei RS
-Eu vi rs
-Não perguntei seu nome....
-Júlio, e o seu?
-André.- ele estende a mão. Júlio sabe que é para aperta-la, mas demora alguns segundos.
Entram na sala e Júlio vai para seu canto. Última cadeira, na última fileira. Encostado na parede ele coloca sua mochila na frente e começa a mexer no celular. Os professores também não ligam. Como já lhe disse, um a menos para encher o saco. Quando André aparece todos olham. Sim, André é lindo. Teria seus 17 anos. Sim, 17. Loiro, bronzeado, alto, um corpo um tanto definido. Uma barba rala qua dava um ar bem sexy. Até a professora de matematica, que daria a primeira aula o olhou. Ele entregou um papel para ela, dizendo que ele era novo aluno e tudo mais. Ele avista Júlio e se senta. Todos se impressionam. Inclusive a professora. Júlio se sente incomodado com toda aquela atenção. Nunca tinha recebido aquilo. Finge que não vê.
-Cara, essa professora é muito estranha. Velha neh?
-aham
-Você tem 17 neh?
-aham
-Curti jogar?
-aham- depois de alguns ahans, André já estava se incomodando. Pega o celular de Júlio.
-Fala comigo mano. Não me deixa no vácuo.
-Mas eu to falando. Me devolve.
-Não. Vai ficar comigo até o final da aula. Mesmo porque, não pode mexer no celular aqui.
-Cara, para com isso, me devolve.
-Professora.... Pode usar o celular na aula da senhora?
A professora se vira um tanto encabulada. Ele realmente era bonito.
-Não não. Regras da escola.
Ele se vira para Júlio, faz uma cara de quem diz " eu te avisei" e guarda o celular no bolso. Se vira e começa a escrever.
A aula já era insuportável, sem o celular seria intragável. Júlio fica inquieto. André está inerte, escrevendo, como se nada tivesse acontecido. Para Júlio, aquilo era um roubo. Como o garoto novo poderia ficar enchendo ele assim? Mais um para zua-lo, para trata-lo mal. Júlio reune forças.
-Ei, cara.... -ele cutuca André com a ponta da caneta. Fala baixo, quase inaudível.
André se vira quase instantaneamente. Como se esperasse por aquilo.
-Fala.
-Me devolve meu celular por favor.
-Vai parar de me ignorar?
-Mas porque quer falar comigo?
-Porque sim uai. Ou você não gosta?
-Não é isso. Mas é estranho. Porque tipo....
-Fala cara.
- Ei, vocês dois aí no fundo. A aula é aqui na frente.- ao falar isso, a professora chama a atenção da sala inteira para o fundo novamente. Júlio fica vermelho como um tomate. André ri. Mas não uma risada de deboche, e sim uma risada de quem viu graça naquilo.
A sala já estava em ordem novamente. Quieta. Bianca, uma garota meio rica, muito linda, meio maconheira, meio virgem, meio popular, cabelos pretos, olhos pretos, pele candida, se levanta e vai até o fundo.
-Oi, você é aluno novo né? Então, vou fazer uma HP hoje a noite. Voce ta convidado... -ela solta um olhar de malícia, de quem está doida para dar. André se vira para Júlio.
-Vamos?
Júlio olha para ele meio desconcertado, olha para Bianca ainda mais desconcertado.
-Então André, ele não foi convidado... Rs
-Ah tá, então não vou não.- Júlio e Bianca olham para ele espantados.
-Bom, se você mudar de ideia, só me avisar gato. - Ela se abaixa para beijar seu rosto, ele se vira estendendo a mão. Ela sai.
-Não gosto de gente assim mano, que se oferece. gosto de pessoas difíceis... Tipo você assim.
Júlio cora.

Je Suis Desolé (Romace Gay)Stories to obsess over. Discover now