- Já se decidiu pra qual faculdade vai? - Perguntou meu pai, se servindo de uma enorme xícara de café.
- Ainda não. - respondi, começando a lavar a tigela suja de cereais.
- Ainda da tempo de você pensar - ele sorriu pra mim e apontou para o pote de geleia ao meu lado na bancada da pia. - Me passa a geleia?
- Não tenho muitas chances de entrar para uma boa faculdade. Mas, estou disposta a tentar a faculdade de Boston.
- Não é pra essa que a Lolla disse que vai? - Ele me devolveu o pote de geleia aberto, e acabou que, como sempre, eu me lambuzei toda.
- Uhum - murmurei, lambendo a geleia dos dedos. - Foi o que ela disse.
- Olha que boa ideia, assim vocês duas poderiam passar mais tempo juntas. Quando foi a última vez que se viram?
- Natal de dois mil e nove. Há cinco anos.
Lavei as mãos, peguei duas torradas e me sentei com meu pai na mesa. Nossa antiga casa, era grande demais apenas para nós dois, então, papai decidiu que o melhor seria vendê-la e comprar um apartamento um pouco menor, com apenas dois quartos ao invés de seis. Só que eu não imaginava, que seria tão menor ao ponto de quase não caber nossa mesa na cozinha.
Quando meus pais se divorciaram, eles decidiram que o melhor seria, cada um ficar com uma das filhas, mas é claro que eles não pensaram nem em mim, nem em minha irmã gêmea, Lolla. No início, passávamos todas as férias juntas, costumávamos ir para a casa de praia dos nosso avó, mas quando ele morreu, há cinco anos, as coisas mudaram um pouco.
Tínhamos seis anos quando eles decidiram se divorciar, e doze quando nos vimos pela a última vez, a não ser que considerem nossa última conversa pelo Skype, o que foi a quatorze horas atrás.
- Não era nossa intenção separar vocês assim - ele começou. - Lembra de como vocês defendiam uma à outra?
- Lembro - dei uma última mordida em minha torrada antes de prosseguir. - E lembro também de que nós duas passávamos mais tempo brigando, do que fazendo às pazes.
Me levantei da cadeira, peguei minha mochila no balcão da pia e me despedi do meu pai, após dar uma breve.olhadela no relógio da parede, como sempre, eu estava atrasada.
- Não quer que eu te leve para o colégio hoje? Ainda tenho tempo antes do meu turno começar.
Olhei novamente para o relógio e disse:
- Não precisa. Se eu me apressar um pouco ainda da tempo de pegar o próximo ônibus.
Ele sorriu.
- Tudo bem, então. O que acha de comida mexicana para o jantar hoje?
- Ótima idéia - abri a porta da cozinha, que dava direto em um enorme corredor. - Se cuida pai, e nada de se cortar com um bisturi hoje.
Atravessei o enorme corredor, eu estava atrasada, mas por sorte hoje era o último dia de aula antes das férias de verão e eu estava, definitivamente muito, muito agradecida por isso. E estaria muito mais agradecida se q droga dl elevador estivesse, ao menos desta vez, em algum andar próximo ao meu, mas nem tudo corre como a gente quer. Acredite, o tempo é o meu pior inimigo, então, quando eu finalmente terminei de descer as escadas, já passava das sete e quarenta e cinco, o que não me ajuda muito já que tenho de estar na escola às oito e o último ônibus que passa antes das nove, passou a exatos quinze minutos atrás.
- Merda - murmurei, parando na entrada do prédio, não é todo dia que eu tenho o grande privilégio de me atrasar, perder os dois ônibus e o melhor, esquecer a carteira em casa também.
