O sol se escondia atrás dos montes quando Penny decidiu ir á festa. Não havia muito tempo, Cloe viria buscá-la às 19h30 e já se passavam das 18. Ela sabia que não deveria fazer isso. Sabia que não deveria mentir para seus pais - aqueles que sempre tiveram orgulho de tê-la como filha; a garota perfeita que nunca havia recebido uma nota vermelha no colégio ou ido parar na diretoria. Eles nunca a perdoariam se descobrissem a verdade. E a verdade nunca se esconde, ela é apenas coberta por um pano que muitas vezes possui uma cor chamativa, denunciando sua localização. Penny sabia disso.
Mas a ansiedade falava mais alto, afinal, era a festa de Bryce Sancleer, e ela nunca havia estado em uma. Decidiu então sair escondido.
Seus pais estavam na sala, não perceberiam uma garota de cabelos compridos e cobreados pulando a janela do quarto que dava direto em uma trilha no fundo do quintal. Se Penny fosse cuidadosa, ao menos enroscaria o vestido nos galhos e troncos caídos que adormeciam sobre a terra úmida.
O problema seria chegar até a rua que ficava do outro lado da floresta. Estava escurecendo e coisas assustadoras tendem a aparecer pela noite.
Seria o melhor a fazer? Trancar o quarto e fingir estar dormindo? Não. Perceberiam durante o jantar quando não a vissem na mesa falando sobre como foi seu dia. Teria que pedir ajuda á seu irmão mais novo, Hugo. Caso contrário, não daria certo.
Olhou pela janela e fez uma breve oração em voz alta:
- Me ajuda só dessa vez. Eu preciso me divertir um pouco. Seria pedir demais?
Destrancando a fechadura dourada, andou sob o piso de madeira rangendo á cada passo seu até o quarto de Hugo. Bateu algumas vezes até a porta repleta de adesivos de animações se abrir.
- O que você quer? - Hugo tinha 11 anos, mas ainda exibia uma janela em seu sorriso.
- Preciso da sua ajuda.
- Tááá boooom - disse ele revirando os olhos. - Entra.
O quarto não era tão diferente do de Penny, as paredes eram nuas e sem graça e os móveis de madeira já descascavam a tinta branca velha. Penny se sentou na cama e observou a tela do computador que exibia uma notícia sobre um acidente aéreo. Hugo sempre se interessara por jornalismo e vivia em sites famosos atualizados á cada hora.
- Então, me diga o que eu tenho que fazer - disse ele olhando as mãos inquietas de Penny. Ela estava com medo.
- Eu preciso que durante o jantar, diga que já estou dormindo. Diga que eu estava cansada e precisava dormir imediatamente.
Ele olhou desconfiado para o rosto da irmã e franziu o cenho.
- Só isso?
- Só.
- E o que eu ganho?
- 20 reais. Serve? - disse Penny tirando a nota amassada do bolso.
Os olhos de Hugo brilharam.
- Tudo bem. Mas vê se toma cuidado.
- Vou tomar - prometeu Penny. - Te amo irmãozinho chato - e beijou-lhe na testa antes de voltar para seu quarto.
Após tomar um banho rápido, Penny mandou uma mensagem para Cloe dizendo que a esperasse na rua de trás da casa. Vestiu um vestido preto até os joelhos e um short por baixo (festas não são momentos de se aparecer desprevenida). Deu cor aos lábios com um batom vermelho e se preparou. Faltavam quinze minutos.
Trancou a porta e colocou um pano sobre e fresta no chão - ninguém poderia espiar por debaixo dela. Olhou a altura pela janela e sentiu o medo latejar em seu corpo. Eram cinco metros até o chão; a grama ajudaria a diminuir o impacto.
Jogou os saltos e a bolsa primeiro e em seguida sentou-se na borda da janela. Suspirou e contou até três. Olhou mais uma vez para o horizonte e avistou o sol quase totalmente escondido; a lua já se preparava no céu. Saltou de olhos fechados e caiu de pé.
A princípio sentiu uma dor nos calcanhares mas sabia que passaria em breve. Olhou pela janela dos fundos e avistou papai e mamãe preparando o jantar, felizes. Penny sentiu uma pontada de culpa. Não poderia fazer isso com eles. Mas iria.
Vestiu o salto, pegou a bolsa e saiu em disparada pela trilha que já estava quase totalmente coberta pelo mato.
As árvores cobriam todo o céu e o caminho era escuro. A luz penetrava por entre os galhos emaranhados e cheios de folhas, formando feixes brilhantes. O lugar parecia um cenário de filme de terror e Penny temia que Jason aparecesse bem no meio do caminho como ela havia visto com papai na tevê. Bem, ela já era uma adolescente de dezesseis anos, por que teria medo de seres que não existem?
Apertou o passo saltando troncos caídos e empurrando os galhos que impediam sua passagem. Uma planta espinhosa enroscou em seu vestido e Penny machucou as mãos tentando se livrar dela.
Chupou o sangue que surgia em seus dedos e continuou, olhando para trás a fim de se certificar que não estava sendo seguida. Pássaros noturnos já surgiam e chacoalhavam os galhos ao longe. Penny se assustou com os olhos brilhantes de uma coruja e soltou um gritinho. A floresta parecia mais assustadora pela noite.
Caminhou por mais alguns metros até avistar a rua á sua frente. As folhas secas faziam barulho quando eram pisadas, e diversos galhos foram quebrados até que ela conseguiu chegar até seu destino. Suspirou aliviada e abriu um sorriso quando avistou o fusca velho de Cloe. O carro não era atraente, ao menos parecia funcionar. Mas Cloe assegurara-lhe que poderiam chegar até a festa com ele.
- Pensei que não viria. Como conseguiu? - Cloe vestia jeans e uma camisa preta estampada com o rosto de Luke Skywalker de Star Wars.
- Hugo prometeu me cobrir por 20 reais.
- Garoto esperto - disse Cloe rindo.
Penny abriu a porta enferrujada nas bordas e sentou-se no banco de couro rasgado. O carro não possuía cinto de segurança, o que deixou Penny assustada. Não, "assustada" era a palavra errada. Ela estava apreensiva.
Cloe aumentou o rádio que tocava "Lost Boy" de Troye Sivan e ligou o motor. O carro saiu em disparada pela rua mal iluminada e esburacada soltando fumaça pelo escapamento. Penny sentiu novamente um aperto no estômago por estar saindo escondida, mas logo passou. Ela tinha certeza que esse era o único jeito de ir á uma festa daquele tipo; seus pais nunca aprovariam que estivesse no meio de adolescentes bêbados e drogados.
Tentou esquecer-se de tudo aquilo e decidiu aproveitar o momento. Aquele dia estaria marcado pra sempre em sua memória. Seria um dia especial, o dia em que, - ela já estava decidida -, perderia sua virgindade. Não com qualquer um. Ela selecionaria o melhor; o mais bonito; o mais doce; o mais atraente. Já estava na hora de deixar de ser uma menina.
O carro percorria a estrada deserta enquanto Cloe cantava, alegre, suas músicas preferidas. Penny tentou entrar no ritmo da amiga mas não sabia as letras, afinal, não era muito fã de inglês.
Passaram por algumas casas e pesqueiros que haviam por ali e seguiram por uma rua escura, iluminada apenas pelos faróis e a lua. Penny se distraiu por instantes observando as árvores se transformando em borrões devido á velocidade do veículo.
- Mais devagar - pediu ela, mas Cloe não ouviu.
Estava com um mau pressentimento e sentiu vontade de voltar. Seus pais não perceberiam que ela havia saído por minutos. Queria sentar à mesa e se desculpar, admitir que agira como uma idiota. Mas não havia como voltar, já estavam longe e Cloe não aceitaria essa decisão.
O carro chacoalhou quando passou em um buraco e Penny se segurou para não bater o ombro.
- Cuidado! - disse ela, mas, mais uma vez, Cloe não deu ouvidos a pisou no acelerador.
A velocidade assustava Penny, e ela abaixou o som gritando em seguida com a amiga.
- Desse jeito você vai nos matar! Dá pra reduzir um pouco?
- Calma Penny, você está com Cloe Oliver. O que pode acontecer? - e piscou para ela.
Penny não estava nada segura, mas decidiu confiar na amiga. Talvez estivesse apreensiva demais, conseguia sentir o sangue latejar em suas têmporas. Respirou fundo e se entregou ao momento, decidida a não mais pensar no pior.
Mas foi aí que ela viu que tinha razão. De repente, Cloe perdeu o controle do carro e elas saíram da pista acertando uma árvore. As duas foram lançadas pelo pára-brisas e Penny viu Cloe se chocar contra a árvore antes de cair sobre a terra fria perdendo os sentidos.
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Uma Vida Inteira
RomanceA vida pode ser uma paisagem desenhada no céu ao entardecer. Mas pode ser também, uma simples ilusão, como um oásis no deserto.
