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Escuridão.

Acordo suando frio.
Ainda sinto o gosto salgado das lágrimas que escorreram por meu rosto naquele dia.

Olho para o relógio, marca pouco mais de cinco horas da manhã, embora eu possa dormir um pouco mais, não quero correr o risco de sonhar novamente. Mesmo que em sonhos, eu não suportaria perder minha mãe pela segunda vez.

Então levanto-me, tomo banho e me visto para a escola.

Antes das seis da manhã estou na rua, caminhando para Arapahoe High School.

Coloco os fones de ouvido para que eles me auxiliem-me durante o trajeto.

A música me ajuda a pensar.

As coisas não estão nada bem. Minha vida não é a mesma há muito tempo.

Mesmo que aos poucos, a cada dia me torno mais deprimente e solitária. Não é algo que eu queira, mas, simplesmente não há como ignorar um passado como o meu, são tantas dores e perdas que poderia afogar-me na minha própria história. Mas preciso mudar isso, preciso muito.

Converso apenas com duas pessoas ma escola, Emma e Dave, amigos que posso chamar de "acidentes de percurso".

Emma é uma pessoa incrível - apesar de toda sua excentricidade -, mas não sabe de muita coisa a meu respeito, e nem se preocupa em descobrir. Ela não se importa em andar comigo pelos corredores, pela rua ou sentar-se comigo no almoço, mesmo eu sendo quase uma indigente, uma esquisita de quem ninguém faz ideia de onde veio. Talvez por isso eu goste dela.

Já Dave conversa comigo pelo motivo contrário. Ele sabe demais. Bem mais do que deveria ou eu gostaria.

E quanto aos outros - exceto o grupinho de Emma com o qual troco meias palavras e risadas -,não há outros. Eu não existo em Arapahoe.

Ninguém tem motivos par perder tempo comigo, "a garota calada do fundo da sala". Apesar de eu saber o que alguns dos garotos - idiotas repugnantes - e garotas - patricinhas acéfalas - pensam a meu respeito.

Quando entrei em Arapahoe e fui à sala pela primeira vez, tive a infelicidade de ouvir comentários de alguns alunos patéticos.

"Sarah: Essa garota é estranha.

Philliph: E daí ? Ela é gata.

Christopher: É, e muito. A Sara está se mordendo só porque a novata é mais bonita do que ela."

A partir daquele dia, percebi o quanto seria insuportável estudar em Arapahoe.

Como eu esperava, chego cedo, então sento-me para esperar.

Apesar de ainda estarmos consideravelmente longe do inverno, o frio está intenso. O ar gelado causa a sensação de "pontadinhas" no pulmão.

Embora já tenha amanhecido, o céu continua com tons de cinza e azul escuro.

A música - This is What Makes Us Girls, da Lana Del Rey -, o tempo fechado e a solidão fazem com que eu me sinta em um filme.

Gosto e sempre gostei de filmes.

Sempre gostei das inúmeras possibilidades sugeridas por eles. Gosto de como a esperança rouba a minha atenção. Mesmo quando tudo está acabando, um detalhe mínino faz toda a diferença e tudo volta a ficar bem.
É uma forma agradável de pensar.
Mas lembro-me que este meu cenário é vida real.
É a minha vida, onde as coisas não ficam bem no fim, onde não é possível aplicar a teoria cinematográfica.
Alguns alunos começam a chegar.
Todo o espaço é preenchido, mas continuo sozinha, como se estivesse em uma redoma de vidro ou fosse invisível.
Uma vez Austin me disse: "Evan, você é uma garota linda e inteligente, tem todos os requisitos para ter vários amigos. E você está no meio do terceiro, então ainda tem um ano pela frente. Seria bom se você tivesse mais amigos, e quem sabe até arranje um namorado."
Aquelas palavras pegaram-me desprevenidas, principalmente pelo fato de eu nunca ter tido amigos de verdade, que sabem uns dos outros, a não ser minha mãe e o meu pai, mas eles não estão mais aqui. Por isso, quando Dave tenta ser meu amigo confidencial, eu recuo com tanto afinco.

SeleneWhere stories live. Discover now