Vamos continuar a história de Samah? Venham comigo...
No dia seguinte, com a cabeça ainda fervendo pela conversa que tinha tido com minhas irmãs, acordei antes do nascer do sol para levar as ovelhas até o melhor pasto na região. Enquanto saía da aldeia com os animais, encontrei com meu primo, Salatiel. Ele seguia calmamente o seu rebanho, sabendo que mais à frente havia outro curso de água. Enquanto muitos pastores tinham com seus rebanhos um relacionamento que beirava a afeição, atribuindo até nomes para suas ovelhas, Salatiel sabia que estava conduzindo a riqueza da família de pasto em pasto. A ovelha lhe fornecia lã, carne e vasilhas feitas de chifre, nada mais. Ele as via nas suas roupas, nas ofertas para sacrifícios ou no toque do shofar e reconhecia que, graças a elas, tinha melhores condições que muitos dos moradores da nossa vila. O tecido feito de pelo de cabra, em pano de saco, lhes garantia as tendas mais lindas da região. Seu pai havia sido um excelente pastor, sabendo negociar e multiplicar o seu rebanho; comercializando o leite e o queijo, e aumentando seu lucro em muitos bens com a troca das suas mercadorias. Era um talento que Salatiel não tinha herdado, por isso ficou incumbido do pastoreio, que ele fazia de má vontade. Ele desprezava a ideia de se apegar às ovelhas! A não ser Pequena, a cabra que fornecia leite exclusivamente para a família. Aquela era a alegria das irmãs, das servas e da casa toda.
Esses pensamentos o faziam me considerar um tolo. Salatiel não conseguia entender que eu era tão veloz nas corridas que os rapazes apostavam entre si. Sempre o primeiro nas brincadeiras e o último a parar de dançar nas festas. Na visão dele, eu contagiava a todos com minha alegria e, nem mesmo a morte do meu pai, ou a debilidade crescente de minha mãe, conseguiam abater meu ânimo. Mas quando se tratava daqueles bichos burros, eu não conseguia ser prático nem racional. E olha que minha casa só tinha nove ovelhas e quatro cabras. Imagine se eu conseguiria nomear cada uma se tivesse um rebanho como o dele!
No lado oposto do monte onde estava Salatiel, meus pensamentos não eram tão felizes quanto ele imaginava. Estava em conflito com a situação de Adaliah, que era bonita demais para ficar sem compromisso por longo tempo. Os rapazes da cidade a respeitaram sempre, mas, na última festa da colheita, eu me metera numa briga com visitantes que beberam vinho demais. Foi uma das vezes que ser um rapaz tão alto me valeu de muita coisa. Precisava ver logo esta questão do casamento, porque acreditava que se esta preocupação não estivesse mais nos ombros de minha mãe, ela poderia voltar a ser o que era antes de se casar: feliz, tranquila e serena dona de casa.
Olhar minhas ovelhas trazia um consolo e um conforto que eu não tinha quando estava em casa.
Como tinham acabado de fazer a colheita, não precisava ir muito longe com os animais, por enquanto, porque, depois do cereal colhido, as ovelhas tinham permissão para comer tudo o que restasse. Como as nossas eram poucas, não haveria tanto problema assim. Mas nas outras luas eu teria que deixar a região e procurar a erva seca que permanecia sob o sol quente. Mas Haniel havia me ensinado onde havia suprimento de águas que mantinham a erva fresca, e quais daquelas pedras imensas protegiam um manancial. Naquela manhã, eu usava o cajado que fora de meu pai e seu bastão.
Respirei fundo o ar daquele amanhecer esplêndido. O peso do meu alforje dizia que Yoná havia caprichado na refeição do meio dia, e o azul do céu prometia a tranquilidade que estava precisando.
Ao chegar ao trecho da encosta de onde se avistava o rio, uma cena quebrou toda aquela serenidade.
Avistei, com um único olhar, o pote quebrado. Um rapaz segurava as rédeas dos camelos enquanto outros dois tentavam forçar Nazaré a entrar na água. Deixando o cajado, desci correndo a encosta com meu bastão. Não pensei na loucura dos meus atos, estava apenas sendo um tolo apaixonado...
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O Vale de Elah
SpiritualSamah é um jovem sem posses que deseja apenas continuar o legado de seu pai e ser um pastor de ovelhas. Sua mãe tem outros planos. Ela arranja um casamento para sua filha caçula e envolve a família numa dívida impossível de pagar. Samah resolve fugi...
