Acordei e dei de cara com o escuro: era meu quarto, claro. Dava pra ver o contorno do meu guarda-roupa vermelho, a porta entreaberta do meu banheiro, e meu edredom branco. Peguei meu celular, e minha cabeça doeu por causa da luz. Eram 04:46, ainda muito cedo. Mais, eu já estava sem sono. Levantei e tateei a parede gelada a procura do enterruptor. Achei e acendi a luz. Entrei no banheiro, que estava todo bagunçado: a pia estava toda molhada e manchada de alguma coisa bege, o armarinho acima dela todo entupido de maquiagem, e o chão estava cheio de roupas espalhadas. Arrumei tudo rapidamente. Fiz minhas necessidades, me despi e entrei no box. A água gelada me despertando completamente. Lavei meus cabelos. Saí enrolada numa toalha e outra enrolada na minha cabeça. Me troquei; coloquei uma calça de moletom e uma regata e saí do quarto. Estava tudo escuro: o corredor, os quartos e a escada. Desci com cuidado e me apoiando no corrimão. Fui na cozinha, peguei um pote de sorvete e fui pra sala. Liguei a TV e deitei no sofá. Adormeci.
- Ei! Acorda! - meu pai estava me chamado. Abri os olhos lentamente, ainda meio grogue de sono - Tem café na mesa, seus avós já saíram e eu também já tenho que ir, querida.
Meu pai me deu um beijo e pegou minhas mãos para me levantar.
- Pai - disse, me segurando nele - Ér.. vocês vão ficar fora o dia todo?
- Sim, meu bem - Ele me abraçou, e disse ao meu ouvido - Eu amo você, está bem? Voltaremos à noite. Eu amo você.
- Eu também pai.. - Dei um beijo no seu rosto. Ele sorriu pra mim, e caminhou até a porta. Ele estava com um jeans surrado e uma camiseta azul que dizia atrás "Ribeirãozinho", o nome da fazenda onde meu pai trabalhava. - Pai.. - disse e ele se virou.
- Sim?
- Que horas são?
- São 06:34. Você tem uma hora e meia mais ou menos.. Tudo bem?
- Sim, pai. Bom trabalho. Amo você. - Com isso ele sorriu e saiu, fechando a porta atrás de si.
Subi as escadas e fui pro meu quarto. Meu celular tocou, era o Wéllingtom. Atendi:
- Oi, Well.. - disse enquanto me despia para tomar banho. Coloquei no viva-voz.
- Oi.. que tá fazendo? - Sua voz soou rouca pelo celular.
- Ér.. - liguei o chuveiro - Agora? Tomando banho.. Ééé.. Não tem ninguém em casa, tenho o dia inteiro livre e você vem aqui agora?
- Claro, estou indo. - E desligou.
Eu tinha colocado um jeans claro, uma blusa laranjada e um all-star preto. Desci. Estava no meio da escada, quando a campainha tocou. Corri até a porta e a abri.
- Well! - agarrei ele, dando um abraço nele.
- Gabi! - Ele retribuiu o abraço.
Eram 07:43, estávamos andando em direção à escola.
- Ei! O que vamos fazer de tarde? - Ele disse, me encarando.
- Ahn.. não sei ainda. O que você quer fazer? - perguntei.
- Cinema?
- Hum... pode ser. - Sorri.
Chegamos na escola. Avistei Bianca e Bruna, e corri para abraça-las.
- Ei! - Bruna me abraçou, depois Bianca.
- Oi! - abracei apertado Bianca. Soltei ela. Bruna apontou pro portão da escola, com uma expressão assustada. - O que.. é.. aquilo...? - Ela falou com dificuldade. - Ééér..
Me virei e olhei. Tinha um garoto lindo parado no portão. Ele tinha cabelos loiro-prateados na altura do ombro. Era alto, imaginei, ele deveria ter uns 18 anos.
- Meu Deus.. - falei, ainda olhando pro garoto. - Vamos lá falar com ele.. - disse e saí andando. Bianca e Bruna me olharam, confusas, mais me seguiram. Passei pelo Well, e ele sussurrou " Já se encantou né? " pra mim. Nem liguei, e continuei andando. Cheguei perto do tal garoto, ele era ainda mais bonito de perto. Uma faísca prateada dançava pela sua íris, e ele tinha pupilas tão escuras, que fui capaz de me enxergar nelas.
- Ahn.. -limpei a garganta - Eu sou Gabriella, e você..?
- Sou Rafael. Rafael Santiago. Prazer. - ele pegou a minha mão e deu um breve beijo nela. Fiquei sem reação e sem ar. Senti meu rosto queimar, e ouvi Bruna dando uma risadinha abafada.
- Prazer, também. - Sorri, e saí de lá, voltando pra dentro. Cheguei e sentei no chão, ao lado do Well. As meninas tinham ficado lá, papiando com o Rafael.
- Huuuuum... - Disse Well, por fim. Ele me olhou com um olhar safado.
- Que foi? Eu só falei com ele, ué. - Disse, e não contive um sorriso. Rafael me olhou de longe e sorriu, eu desviei o olhar e fitei o chão, ainda sorrindo. - Nem vem, Well, pode parar.
- Uééh.. quem falou alguma coisa? Você mesmo está se entregando.. - Ele riu.
- É pra ser filha da puta? Então vamos ser filha da puta, ué.
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coração mutilado
RomanceGabriella tem 15 anos e mora no Texas, o estado dos Estados Unidos. Seu pai e seus avós trabalham muito, em uma fazenda à 2300 km da sua casa. Ela vive uma vida simples, ao redor de seus melhores amigos. Até que sua vida começa a tomar um rumo difer...
