(março de 2007)
-- Mamãe, mamãe, acorda.
Sou despertada da escuridão que se apossou de minha alma, corpo e mente. Uma voz familiar me chama um pouco aflita e angustiada. Mas meus olhos se recusam a abrir. Não quero mais enxergar o mundo a minha volta. Quanto mais esse rosto. O rosto que é a cópia do rosto dele. Como olhar para Emy e não lembrar dele? Penso. Mas meu coração de mãe, sabe que esse pensamento é errado. Mas no momento quero apenas me afundar em minha dor e vazio. Sentimentos que corroem meu coração me deixando em estado vegetativo.
Mas a voz de Emy insiste em me despertar.
--Mamãe, você nos levará para escola hoje? Gostaria de mandar ela sair. Ir embora. Me deixar em paz. Mas um resquício de lucidez me diz que tenho que ser tolerante com ela. Afinal ela perdeu o pai. Ela deve estar sofrendo tanto ou mais que eu. Apesar de eu sinceramente achar que isso seja praticamente impossível.
Ainda de olhos fechados, não suportaria olhar para ela agora. Respondo da forma mais calma que minha voz consegue.
--Não Emy, a mamãe não está muito bem hoje, querida.
Sinto uma inspiração profunda e um soluço abafado. Meu coração aperta. Logo em seguida escuto os passos de minha mãe no corredor. Sinto a presença dela sem nem mesmo vê-la. Consigo sentir seu olhar de crítica e decepção sobre mim. Sempre me cobrando algo, criticando por algo que fiz ou que deixei de fazer. Assim se baseia toda a minha relação com minha mãe. Mas no momento não quero saber de ninguém além de mim.
--Vamos Emy, a vovó vai levar vocês pra escola. Vamos, que já estamos encima da hora. Deixe a mamãe descansar MAIS um pouco!
O tom de reprovação na voz dela era perceptível mesmo pra Emy. A ênfase que deu no, MAIS, não deixou duvida a sua reprovação na minha atitude. Mas eu não quero nem saber. Continuei ali como estava. De olhos fechados e coração partido.
Escutei elas se afastarem e Ana perguntar algo a mamãe sobre algum brinquedo que iria levar para escola, pois hoje é dia do brinquedo. Nesse momento me dou conta de quanto tempo estou nessa cama. Já fazem seis dias. Enquanto eu faço as contas dos dias em que minha vida se transformou nesse vazio e dor profunda, escuto uma porta bater contra a parede e passos apressados pelo corredor. De repente alguém me abraça por cima das cobertas e fala ao meu ouvido, com uma voz doce e sentida.
--Espero que você melhore logo mamãe. Emy e eu estamos com saudades. Te amo.
Do mesmo jeito que entrou, saiu. Como um furacão. As palavras dela ecoaram em minha cabeça como um despertar. Um sentimento de culpa e remorso me invadem completamente. Como eu posso fazer isso com minhas filhas. Elas precisavam de mim, do meu apoio, do meu amor, do meu carrinho. Elas também tinham perdido alguém muito importante para elas. Mas ao invés de eu dar apoio eu estava recebendo apoio. Não consegui segurar mais as lágrimas e chorei. Chorei até sentir que não conseguia mais chorar nem soluçar.
Quando o choro acalmou minha mente clareou e pode ver como fui uma péssima mãe durante essa semana. Deixando minhas filhas de lado para me afundar em um posso sem fundo de dor e remorso. Minhas filhas precisam de mim. Precisam de uma mãe inteira, pelo menos que aparente estar inteira. Porque inteira acho que nunca mais serei. Sempre faltará um pedaço. Aquele pedaço que ele levou consigo quando me deixou.
Duas horas mais tarde, depois de chorar muito e debater internamente as minhas culpas e remorsos, me levanto e vou tomar um banho.
Mesmo o chuveiro é uma tortura pra mim. Todas as lembranças que esse lugar me traz. Essas paredes onde fizemos amor tantas vezes. Mais lágrimas caem junto com a água do chuveiro. Quantos litros de lágrimas uma pessoa é capaz de produzir? Com certeza eu já produzi o equivalente a uma caixa d'água inteira.
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Segunda Chance
RomanceSinopse Mary volta para o Brasil depois de oito anos em Nova York. Esse retorno ira fazer com que ela enfrente fantasmas e culpas do passado. Ela só não estará preparada para o que o destino reservou para esse retorno. Além de ter que enfrentar tu...
