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A porta abriu-se sorrateiramente e um risinho miúdo entrou na saleta chegando aos meus ouvidos. Abri os olhos e espectei uma visão que mesmo no País das Maravilhas pensei não ser possível. A porta estava entreaberta não obedecendo à lei gravitacional. Comecei a rir, e a rir, e a rir, e a rir sempre sem parar até me aperceber que o risinho anterior já se tinha juntado ao meu e ai, ainda ri mais. Uma cabeça de cabelos cinza opôs a porta e eu fixei o olhar nela numa acção mutua. Então o corpo pertencente à cabeça entrou também ficando de cocaras no tecto.

- Perdes-te o coelho foi?

O que entrara era Dante e a pergunta era para mim visto que não havia mais ninguém ali no entanto o par de grandes asas que lhe pendiam das costas não me deixaram responder. Provavelmente fiz uma cara idiota uma vez que me ele encarou de maneira diferente. Eram negras com o dobro do tamanho do demónio e pareciam fogo, um fogo dançante que hipnotizava, mas eram penas. Uma delas soltou-se e esvoaçou até mim. Com cuidado apanhei-a , negra mas suave, absolutamente magnifica. Ele caiu de repente. A gravidade deve-se ter cansado de ser ignorada. Sentou-se no chão como se não soube-se o que lhe tinha acontecido, já sem o sorriso, e mirou o céu azul que se via da porta agora completamente aberta.

- Temos de ir - ele quebrou o silencio com uma afirmação tão leve e sem vida que se desfez no ar sem provocar nenhuma reacção em mim.

- O que tem este sítio de errado? - a minha pergunta fez-me lembrar de outra mais pertinente - Onde estamos já agora?

- Na sexta divisão... - ao dizer isto as suas asas foram como que sugadas para dentro das costas o que intensificou a minha expressão de ignorância.

- Preperprefeitamente.

Ele fixou os olhos vermelhos em mim enquanto a sua cara inexpressiva se transformava numa ostentação pura de tristeza. Mirou o céu uma ultima vez e levantou-se. Eu permaneci sentada mesmo depois de dada a ordem para me levantar. Os seus cabelos começaram a esbranquiçar, pegou-me no braço com força e levantou-me.

- Agarra com mais força, pode ser que me partas o braço!

O meu pedido foi aceite durante aquilo que me pareceram horas. Ele não parecia ser agressivo quando estava com a minha mãe, porque é que o estava a ser agora. Quando a vil criatura me largou e eu caí no chão pude constatar que o meu braço se encontrava roxo e pela primeira vez reparei que o que tinha vestido não eram as minhas roupas, mas sim um vestido preto cheio de cornucópias bordadas a prata e folhos.

- Temos de ir! - a repetição daquelas palavras perturbou-me.

- Para onde? O que raio se está a passar?Que merda é que tu fizeste e porque é que sou eu que tenho que acartar contigo?! - as palavras gritadas acalmaram dando espaço à única pergunta cuja eu realmente queria a resposta - Porquê ela?

- Não são só as linhas que tração destinos.

- Não são só as estrelas que iluminam caminhos.

Algo vermelho escorreu-lhe dos olhos, porém ele virou-se demasiado depressa para perceber o quê. A porta até então aberta fechou-se sozinha provocando um estrondo. Rastejei até a um canto da sala e deitei-me. Dante fez o mesmo mas ao contrário de mim, ele virou-se para a parede. Um vazio encheu o meu coração. Tinha a cabeça a mil quando, não sei bem como, me lembrei de uma canção que costumava cantar quando era mais nova e à falta de outra coisa cantei para não fazer nada mais estúpido.

Eu estava a pintar um quadro
O quadro era uma imagem tua
E por um momento pensei que estavas lá
Mas novamente, não isso não era verdade

E todo este tempo eu menti
Menti em segredo para mim
Eu colocai tristeza nos locais mais escondidos
Da minha alma

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⏰ Last updated: Oct 26, 2017 ⏰

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