Três noites depois

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Capítulo Único

A chuva batia na vidraça como se alguém estivesse tentando entrar. Não com raiva. Com insistência. Como quem sabe que o outro já está lá dentro e quer apenas a confirmação de que não será deixado no escuro.
Irene tirou os luvas de nitrila uma por uma, enrolando-as entre os dedos antes de deitá-las sobre a mesa de trabalho que ocupava o centro da sala de Antônio. O quadro ainda estava no cavalete, coberto por um lençol de linho que ela mesma puxara para baixo três horas antes, depois que o último retoque do véu da Santa Cecília secou. Ou quase. Quase nunca era o suficiente com esse homem. Quase era a palavra que ele usava para tudo: quase silêncio, quase memória, quase ausência.
- Está pronto.
A voz saiu dela mais baixa do que pretendia. A sala era grande demais para uma só pessoa falando sozinha, e Antônio estava no sofá, perto da lareira que não acesa - ele nunca acendia a lareira até a temperatura da sala ficar insuportável. Sentado de lado, com um livro aberto no colo que não virava há quarenta minutos. Ela sabia porque contava as páginas. Ele sempre lia o mesmo trecho quando não queria ser encontrado.
Antônio fechou o livro devagar. Não olhou para o quadro. Olhou para ela.
- Pronto, ou acabado?
Irene guardou os pincéis no estojo. O gesto mecânico das mãos a calava melhor do que palavras.
- Acabado. A camada superior estava comprometida, o verniz amarelou e a mão do pintor original desapareceu em treze por cento da superfície. Recuperei a técnica, sim, mas...
- Mas.
- Mas agora é uma Santa Cecília que eu reconheço. Não é a dele. É minha. E eu posso te devolver a dele.
O silêncio se instalou como um quarto novo: cheio de ar que ninguém respirou ainda. Antônio apoiou o livro em cima do joelho e se inclinou para frente, cotovelos nos joelhos, mãos entrelaçadas. A luz fraca da lamparina - ele não usava mais lâmpadas elétricas nesse andar desde que o cabo queimara duas noites atrás e ele decidira que consertar aquilo pertencia ao "quase" - projetava sombras longas sob as órbitas dele, na têmpora, no pescoço onde a barba rala não escondia a cicatriz antiga. Aquele risco fino que ela sabia existir sem saber dizer como.
Três dias. Trinta e seis horas contínuas de trabalho. Uma noite dormindo no sofá da sala principal porque o quarto de hóspedes tinha cheiro de tabaco frio e ela não suportava cheiro de coisa que alguém abandonou ainda morna. Na segunda noite, ele trancou a porta do corredor leste. Na terceira, ela ouviu ele andar de um lado para o outro no quarto dele por vinte minutos antes do silêncio cair.
E agora, no fim do terceiro dia, com a Santa Cecília de volta à forma e os dedos ainda manchados de verniz sintético, ela percebeu que não sabia o nome do pintor original.
- De quem é? - perguntou, e odiou a pergunta pela franqueza dela. Pela ausência de qualquer escudo.
Antônio levantou-se. Atravessou a sala com a calma de quem não tem pressa porque o mundo inteiro cabe no passo dele. Parou atrás dela. Ela sentiu o calor antes do homem. Não o toque. O calor. A presença ocupando o ar entre eles com a densidade de algo sólido.
- É seu, Irene.
O estojo de pincéis bateu na mesa. O som foi pequeno e redondo e caiu no chão como uma pedra num poço.
- Desculpa?
Ele inclinou a cabeça. O gesto era tão mínimo, tão seu, que ela teve a certeza absurda de que ele sorria. Não os lábios. Os olhos. Aquela sombra fina sob as pálpebras que só existia quando ele achava que ela não estava olhando.
- A Santa Cecília. É sua. Você vai ter. É a recompensa pela restauração.
- Não é uma recompensa de um quadro, Antônio.
- Então o quê é?
A pergunta ficou suspensa. Ele não esperava uma resposta. Ele nunca esperava respostas; ele esperava o tempo que as respostas levavam para morrer de vergonha antes de falarem. Mas Irene não era boa em deixar coisas morrerem de vergonha. Era isso que ele sabia. Era isso que a trouxera aqui.
Ela não contou para ele, nos três dias de trabalho, que o quadro era dela. Que fora pintado pelo avô dela em 1987, numa casa em Ouro Preto que ele desabou e levou junto a parede onde estava pendurado. Que ela o carregou embaixo do braço num saco plástico por seis meses, dormindo com ele no apartamento que já era seu mas não parecia, antes de conseguir a coragem de ligar para um número escrito no verso da moldura. Um número que ninguém atende mais, mas que alguém respondeu uma única vez, do outro lado da linha, com a voz rouca de quem acordou mal: "Manda pra Rua dos Pinheiros, 1031. Terça."
Terça. Sempre terça. Como se ele tivesse uma segunda-feira só pra ele e uma quarta que pertencia a todo mundo.
Eu sou a santa - ela pensou, e a frase foi dela, inteira, sem pedir licença.
A santa do avô. A santa com o véu rasgado e o santo nome esquecido. A que ele resgatou de um incêndio e guardou numa parede que ele nunca mostrava.
- Você sabia - disse ela. - Quando eu li o verso. Você sabia.
Antônio virou-se. Apoiou-se na mesa, de frente para ela, os braços abertos ao lado do corpo como se estivesse pronto para tocar a mesa e não ia. A distância entre eles era de uns quarenta centímetros. Menos do que ela lembrava. Mais do que ela suportaria em silêncio muito tempo.
- Eu sabia que ela precisava de mãos.
- Mãos.
- Sim. Mãos. As suas, especificamente. Eu tentei... outros restauradores. Dois anos. Nenhum conseguiu.
- E eu em três dias.
- Três dias. - Ele repetiu a frase como se estivesse testando o peso dela na língua. - Isso é o que eu sabia. Que se fosse você, seriam três dias.
O ar mudou. Não a temperatura. Não a luz. A qualidade do ar. Aquele tipo de mudança que acontece quando duas pessoas decidem, na mesma fração de segundo, que a conversa anterior acabou e outra começou. Uma que não tinha roteiro. Uma que não tinha nome.
Irene pegou o pano de algodão na mesa. Passou na bochecha. Na testa. Nos pulsos. Limpa o verniz. O verniz que ainda estava úmido, que ainda cheirava a solvente, que ainda marcava os dedos com aquele amarelado que lavagem de mão não tira.
- E o corredor leste? - perguntou ela, sem saber por que a pergunta estava lá.
O silêncio mudou de textura. Ficou mais denso. Mais quente.
- O corredor leste é meu.
- E a porta?
- A porta é também.
Ela guardou o pano no bolso do avental. O avental de lã que ele lhe dera no primeiro dia, sem falar nada, pendurado no gancho atrás da porta. "Põe isso", ele disse. Como uma ordem de quem não pedia permissão para existir.
- Antônio.
- Hm.
- Três anos.
A palavra caiu como quem solta um peso que estava amarrado ao tornozelo. Trava. Puxada. E o peso que sobe e desce, sobe e desce, antes de parar.
Três anos. A noite em que ela tinha vinte e quatro anos e bebia uísque na varanda do edifício onde morava com a mãe, e ele apareceu na porta - não pela rua, pela porta, como quem entra em casa própria - com a camisa aberta até o esterno e os olhos vermelhos de sono, e disse "Posso usar seu telefone?", e ela disse "Não tem sinal aqui em cima", e ele disse "Então me empresta", e ela disse "Me empresto?", e ele riu - uma risada curta, seca, que veio do estômago - e puxou ela pela cintura e a beijou com a boca de alguém que está tentando lembrar o gosto das coisas. E no dia seguinte ele não estava. E a varanda tinha cheiro de fumaça e uísque e uma marca de dedo no parapeito. E ela demorou quatro meses pra entender que a marca não era dele.
Era da mãe dela. Que saíra da casa e nunca voltou. E ele, que apareceu na noite em que a marca surgiu, era só o homem que precisava de um telefone.
Ou era. Até agora.
Ele caminhou. Um passo. Dois. A distância encolheu até que a mão dele tocou o maxilar dela - não um toque. Uma fixação. O polegar contra a mandíbula, os outros dedos atrás da orelha, segurando o rosto dela como quem segura algo que pode rachar se apertar demais. Ele era mais alto. Ela tinha que erguer o queixo. O cheiro dele: tinta antiga, madeira encerada, alguma coisa escura e vegetal que não era perfume. Não era nada que existisse numa prateleira. Era ele.
- Você demorou - ele disse. E a voz era diferente. Mais grave. Mais perto. A voz de baixo, a que ela só ouvira uma vez, na primeira noite, quando ele cantou alguma coisa baixa demais para identificar.
- Demorei.
- Por quê?
- Porque você trancou o corredor leste e eu achei que o resto da casa era meu.
Ele fechou os olhos. O polegar se moveu. Uma vez. Duas. Sobre a pele dela, abaixo da maçã do rosto, deixando um rastro invisível.
- O resto da casa não é seu.
- E o corredor leste?
- É meu.
- E o que tem no corredor leste?
A resposta não veio em palavras. Veio nele. Na tensão da mandíbula. No modo como o polegar parou de mover. No modo como ele abriu os olhos e a olhou de cima com uma expressão que não era raiva nem desejo nem medo. Era algo anterior a todos os três. Algo que não tinha nome em português e talvez em nenhuma língua.
Ele a puxou. Não pela cintura. Pela nuca. A mão fechando no cabelo dela - no cabelo que estava preso num coque frouxo que se desfez naquele movimento, caindo nas costas, pesado, úmido de suor e verniz - e a boca dele na dela não foi um beijo. Foi uma reivindicação. A língua entrando na dela com a urgência de quem abre uma porta que esteve trancada tempo demais e o cheiro de dentro é tudo o que restava.
Irene gemeu. Baixo. Nas costas. A mão dele na nuca apertou, os dedos cravando no cabelo, e ela inclinou a cabeça para trás e sentiu a pressão dele na boca, no maxilar, no espaço entre os dentes. O gosto dele: uísque. Sempre uísque. Três anos depois, a memória do gosto ainda exata como se a noite tivesse sido ontem e não uma linha borrada num álbum.
Ela empurrou ele contra a mesa. Os pincéis rolaram. O estojo tombou. Uma tampa de vidro deslizou e bateu no chão com um som limpo, definitivo, como um osso quebra. Ele não soltou. A mão que segurava o cabelo dela continuava ali. A outra desceu pela lateral do corpo, pela costela, pela curva da cintura, para dentro do avental, e os dedos entraram pela lateral da calça - não rápido, não lento, com a cadência exata de quem sabe o caminho e não quer errar um passo.
- Antônio.
- Hm.
- A Santa Cecília.
- Está na parede. Tá segura.
- E você?
Ele não respondeu. Levantou ela. Não pelos braços. Pelas coxas, com as mãos sob os joelhos e sob a nádega, e a colocou na mesa. A mesa de trabalho. A mesa onde ela passara três dias com os dedos na tela, respirando solvente, contando as camadas de verniz como quem conta as cicatrizes alheias. O verniz ainda úmido na superfície da tampa de vidro brilhou sob a luz da lamparina quando ela se ajoelhou nela, as costas curvando, o avental subindo.
- O avental.
- O quê?
- Ele vai sujar.
Ela riu. Uma risada curta, surpresa, que veio sem planejamento. Ele ouviu. O sorriso - o de verdade, o que não era sombra sob pálpebra, o que era dente e canto de boca e lábio inferior mordido - apareceu e durou dois segundos e sumiu.
- Vou sujar, é.
Ele tirou o avental. Não com pressa. Com as mãos, deslizando o tecido pelas costas dela, por sobre os ombros, até que ele caiu no chão. A blusa de algodão que ficava por baixo seguiu. Os dedos dele estavam molhados. De verniz. De tinta. De algo que não era nenhum dos dois. Eles desceram pelo centro das costas dela - devagar, com a ponta dos dedos, traçando a coluna vértebra por vértebra - e cada toque era uma palavra que ele não dizia.
Irene virou. Os cabelos caíram. O rosto dele ficou visível pela primeira vez naquela proximidade: a cicatriz na têmpora, a barba de dois dias, os olhos que tinham uma cor que não era um nome só - castanho em algumas horas, verde em outras, preto em todas as que importavam.
- Eu vou te machucar - ele disse. E disse assim, baixo, no ouvido dela, com os lábios quase tocando a pele. Não era promessa. Era aviso. Era o tipo de frase que as pessoas dizem quando não sabem o que é pior: dizer antes ou depois.
- Eu sei.
- E eu vou.
- Eu sei.
Ele a beijou de novo. Dessa vez não foi reivindicação. Foi concessão. A boca dele na dela foi lenta, funda, uma troca de ar que durou mais do que era fisiologicamente possível. A mão que segurava o cabelo dela afrouxou. Os dedos se abriram. Fizeram careca no couro cabeludo dela e foram para o ombro, para a clavícula, para o peito, e o toque era mapeamento. Ele não estava tocando o corpo dela. Estava lendo o corpo dela. Como quem lê um texto antigo, palavra por palavra, procurando a linha que foi riscada.
A calça foi pro chão. As mãos dele ficaram ali, no quadril dela, e ela sentiu o peso dos dedos como uma âncora. Depois subiram. Pelo abdômen. Pela lateral do busto. As mãos eram grandes. Calejadas. As pontas dos dedos tinham manchas de tinta que não saíam com sabão - ela notou isso porque olhou. Porque precisou olhar para acreditar.
As mãos pararam. No peito dela. A palma contra a pele, o polegar traçando o contorno da aréola com a delicadeza de quem toca uma tela depois de passar três dias nela.
- Sua mão está fria - ele disse.
- Você está quente.
- É.
Ele desceu. A boca dele na lateral do pescoço dela. Na curva da orelha. Na têmpoda. Ele beijou a têmpora dela. O lugar onde a cicatriz ficava. Os lábios dele percorreram o risco fino, da pele à pele, e ela fechou os olhos e sentiu a boca dele ficar ali por tempo demais.
- Três anos - ela disse.
- Hm.
- Três anos e você tá me beijando a cicatriz como se fosse sua.
Ele afastou o rosto. Olhou para ela. A testa dele tocou a dela. As narinas contra as narinas. A respiração misturada.
- É minha - ele disse. E não explicou. E não precisava.
Ele a virou. Colocou ela de bruços na mesa. As mãos dele nas coxas, nos joelhos, nos quadris - a progressão foi lenta, geográfica, como quem percorre um mapa de costa a costa. E depois a boca na base da coluna, nos glúteos, nas coxas, e ele ia subindo e ia subindo e ia subindo e a respiração dela ia ficando mais curta e o corpo dela ia ficando mais duro e a mesa ia ficando mais estreita e ele -
Ele chegou. E não entrou. Ficou ali. Os lábios contra a pele. A respiração quente e úmida e a língua passando devagar, uma vez, duas vezes, e então a boca inteira. E Irene arqueou. Empurrou a mesa com as mãos. A tampa de vidro vibrou. Os pincéis rolaram de novo. E ele não tirou a boca. Não parou. Não fez barulho. Apenas a boca. E a mão dele na virilha dela, os dedos abertos, a palma plana, pressionando com a constância de um metrônomo.
Ela gemeu. Alto. Sem vergonha. O som bateu nas paredes e voltou diferente, mais grave, e a chuva na vidraça pareceu parar por dois segundos.
Ele levantou-se. Tirou a calça. O elástico estalou. A mão dele na virilha dela deslizou para o lado, encontrou o centro, e os dedos encharcados - da tinta, do verniz, de si - entraram com dois dedos, devagar, abrindo com a paciência de quem abre uma caixa que foi lacrada há muito tempo.
- Isso é insuportável - ela disse. Não era um pedido. Era um diagnóstico.
- Eu sei.
- Para.
- Não.
- Então continua.
Ele continuou. E os dedos entraram mais fundo e ela mordeu a própria mão pra não fazer som e ele ouviu o mordisco e achou bonito, porque a boca dela se curvou num meio-sorriso que não era dele nem dela.
Ele a virou de novo. De frente. A boca dela no pescoço dele. A mão dele no cabelo dela, puxando com leveza, o queixo erguido, e ele a abraçou - as pernas dele entre as dela, o corpo inteiro colado, o peso dele em cima do peso dela - e a mão dela no peito dele encontrou a cicatriz que ele não tinha. A que ela não tinha. A que eles tinham. Invisível. Compartilhada. No lugar onde o esterno dele encostava no esterno dela e o espaço entre os corpos era zero e o ar não passava.
- Me olha.
- Tô.
- Olha.
Ela olhou. Os olhos dele estavam abertos. Abertos e presentes. Não o olhar de quem lê. O olhar de quem vê. E ela viu, pela primeira vez, o que tinha atrás daquele olhar controlado e quieto: o medo. Não dela. Do próprio desejo. De querer tanto uma coisa que ela pudesse não estar mais lá.
- Se você se mexer - ele disse, baixo, na boca dela, - eu não seguro.
- Se você não se mexer, eu me queimo viva.
Ele riu. Uma risada de verdade. Curta. Do estômago. A mesma risada da varanda, três anos atrás, com a camisa aberta e o rosto vermelho.
Ele a enterrou. A mão na virilha dela, o quadril dele contra o dela, e o movimento foi lento. Lento e profundo e total. Não como quem entra. Como quem chega. Como quem finalmente lê a página que ficou em branco.
Ela gritou. Não alto. Não baixinho. Um grito que saiu do meio do corpo, do lugar onde a respiração mora, e a mesa rangeu e a tampa de vidro vibrou e o lençol de linho que cobria a Santa Cecília caiu no chão com um silêncio que foi mais alto que tudo.
Ele parou. Ficou parado. Dentro dela. O peso dele em cima, as mãos dele nas coxas dela, os dedos cravados na pele, e ele a olhou com uma expressão que não tinha nome. Que não tinha nome em nenhuma língua. E então ele moveu.
Não foi rápido. Não foi lento. Foi certo. A cadência exata do que o corpo dela pedia e ela não sabia que estava pedindo até ele começar. Cada movimento era uma palavra. Cada parada era uma vírgula. O gemido dela era a pontuação.
E a mão dele subiu. Pelo peito. Pelo pescoço. Pela orelha. Os dedos na mandíbula, erguendo o rosto dela, e ele a beijou com a boca aberta, a língua nela, e o beijo e o movimento eram a mesma coisa, o mesmo ritmo, a mesma coisa, e ela se perdeu - não para cima, não para baixo, para dentro, para aquele lugar onde o corpo e a memória se confundem e três anos atrás e agora são a mesma segunda, o mesmo grito, a mesma mão na varanda, a mesma marca no parapeito.
- Antônio.
- Hm.
- Eu tô indo.
- Eu sei.
- Para.
- Não.
- Não.
- Então para.
Ele parou. Ficou parado. O peso inteiro dele em cima. A respiração misturada. A boca dela no pescoço dele, os dentes no lugar errado, a língua, a boca, e o corpo dela tremeu - não dele. Dela. A onda chegou sem aviso e sem permissão e ela virou o rosto e enterrando a boca no pescoço dele e mordeu e ele gemeu e a mão dele no cabelo dela apertou e ele a enterrou outra vez. Uma. Duas. Três. E ela foi com ele. Com ele. Com ele.
A mesa rangeu. A tampa de vidro rachou - não quebrou, rachou, um fio fino do canto ao centro, como a linha que atravessa uma tela de óleo quando o tempo puxa a tinta. E ele a segurou pelo quadril e a beijou e a beijou e a beijou até que o grito virou som e o som virou respiração e a respiração virou silêncio.
O silêncio durou dez segundos. Dezoito. Vinte e três.
Ela abriu os olhos. A lamparina tremia. A chuva tinha parado. O lençol de linho estava no chão, meio enrolado, com uma mancha de verniz amarelo no canto. A tampa de vidro rachada brilhava sob a luz com um fio de resina visível, fino, quase transparente.
Antônio estava em cima dela. Os olhos fechados. A testa encostada na dela. A respiração nos lábios dela. Os dedos dele ainda nos cabelos dela, abertos, espalhados, como quem segura uma coisa e não sabe que soltou.
- A tampa - ela disse, rouca.
- Eu vi.
- Vai custar quanto?
Ele abriu os olhos. Sorriu. O sorriso de verdade. O de dente e canto de boca e lábio mordido.
- Nada.
- Sempre.
- Sempre.
Ele se levantou. Vestiu a calça. Voltou. Sentou ao lado dela na mesa. Puxou ela para o colo. Não nos braços. No colo, de frente, as pernas dele ao redor das costas dela, os braços dele fechados na cintura dela, o queixo dele na curva da orelha dela.
A Santa Cecília ficou de pé no canto da sala. O lençol no chão. A mão do avô dela visível na tela. O véu rasgado. O santo esquecido.
Ela se encostou nele. Ele fechou os braços.
Nenhum dos dois olhou para o corredor leste.
Mas a porta, que estava fechada desde a primeira noite, estava aberta. Um centímetro. Dois. O suficiente para que a luz da lamparina da sala caísse no chão de parquet do corredor e iluminasse, do outro lado, a base de um quadro.
Sem moldura. Sem verniz. Com uma marca de cigarro na tela.
Ela não olhou.
Ele sabia que ela não olhou.
A chuva voltou.

Fim do capítulo.

o peso da tinta seca Stories to obsess over. Discover now