Claire Whitmore sempre acreditou que conhecia cada centímetro daquela cidade. Não do jeito que um cartógrafo conhece as ruas e as curvas de um mapa, mas do jeito que uma mulher conhece o próprio corpo, com familiaridade íntima, com a segurança de quem sabe exatamente onde estão as cicatrizes, as marcas, os lugares que doem. Westbridge era isso para ela. Cada calçada de pedra irregular, cada cerca viva aparada com cuidado, cada janela iluminada ao anoitecer. Ela conhecia as histórias por trás das fachadas, os segredos mal escondidos atrás de sorrisos educados, os casamentos que se sustentavam por hábito e os que resistiam por amor. Conhecia tudo.
Ou pelo menos era o que pensava.
Naquela manhã de setembro, no entanto, o ar parecia diferente. Não que houvesse algo de errado com o clima, pelo contrário, o céu estava de um azul pálido e lavado, daquelas manhãs de outono em que o sol ainda tenta se lembrar do verão, mas já não tem forças para aquecer de verdade. Claire notou isso enquanto esperava o chá ficar pronto, os dedos tamborilando distraidamente contra a bancada de granito da cozinha. A luz que entrava pela janela acima da pia tinha aquele tom dourado e frágil das primeiras horas do dia, projetando sombras longas sobre o piso de madeira.
Do andar de cima vinha o som inconfundível de uma criança se recusando a acordar, um gemido baixo e arrastado, seguido pela voz paciente, mas já levemente exasperada, de Mike tentando convencer Oliver a sair da cama.
Claire sorriu para si mesma, um sorriso pequeno e cansado, e despejou o chá na caneca branca que estava sobre a bancada. Era uma caneca sem graça, sem personalidade, comprada em uma liquidação qualquer anos atrás. Ela tinha outras mais bonitas, uma com estampas de flores que a mãe lhe dera no último Natal, outra com uma frase engraçada sobre café que nunca usava, mas aquela era a sua favorita, por algum motivo que nem ela mesma sabia explicar. Talvez porque fosse simples. Talvez porque não exigisse nada dela.
Enquanto o chá esfriava, Claire apoiou o quadril contra a beirada da pia e deixou o olhar vagar pela cozinha. A casa deles não era grande, mas era confortável. Uma casa de família, do tipo que se vê em revistas de decoração com legendas falando sobre "aconchego" e "tradição". Paredes em tons claros, móveis de madeira escura, uma mesa de jantar para seis pessoas que raramente recebia mais do que quatro. Havia desenhos de Oliver presos à geladeira por ímãs coloridos, dinossauros, principalmente, sempre dinossauros e uma lista de compras esquecida na porta de trás, escrita às pressas em uma caligrafia que ela reconhecia como sua.
Era uma casa boa. Uma casa feliz, dentro do que a felicidade permitia.
Claire levou a caneca aos lábios, soprou o vapor que subia preguiçosamente e bebeu um gole pequeno, sentido o calor descer pela garganta. O chá estava um pouco amargo demais, ela sempre deixava o saquinho por tempo demais, mas não se importou. Havia coisas mais importantes para se preocupar naquela manhã.
Como a roupa que Oliver provavelmente ainda não tinha escolhido.
Como o cabelo de Mike, que ele insistia em pentear para trás mesmo sabendo que ficava ridículo.
Claire suspirou, pousando a caneca sobre a bancada com um som seco, e começou a montar o lanche. Pão integral, queijo, uma maçã cortada em fatias finas, porque Oliver se recusava a morder a fruta inteira desde que vira um vídeo na internet sobre uma criança que engasgara com uma uva e um suco de laranja na garrafinha que ele adorava. Movimentos automáticos, aprendidos de tanto serem repetidos. Ela conseguia fazer aquilo com os olhos fechados.
Não que tivesse escolha, na maioria das manhãs. Era assim que a vida funcionava quando se tinha um filho de sete anos e um marido que, apesar de todos os esforços, ainda não tinha aprendido a usar a máquina de lavar direito.
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The Secrets of Westbridge
FanfictionHarry Potter já não é o garoto que salvou o mundo bruxo. Aos trinta anos, ele ocupa o cargo de Chefe dos Aurores, enquanto Ginny, aos vinte e nove, deixou para trás a carreira no quadribol para se dedicar à família e a alguns trabalhos para uma revi...
