A música no barzinho estava alta. Já era quase uma da manhã, e o lugar tinha uma vista privilegiada para o restante da cidade, pois ficava em uma região alta. As luzes dos prédios brilhavam ao longe, misturando-se às luzes dos carros que passavam pelas avenidas.
Daniel estava sentado sozinho, bebendo.
Já havia bebido bastante, mas ainda tinha consciência do que estava fazendo. Era um homem tímido e não costumava conversar com mulheres que não conhecia. Não chamava nenhuma para dançar, não puxava assunto. Preferia ficar quieto, observando tudo ao seu redor.
Depois de alguns minutos, percebeu que já tinha passado da hora de ir embora.
Daniel sabia que não estava em condições de dirigir, então chamou um motorista para levá-lo para casa. Enquanto esperava, resolveu passar em uma lanchonete que ficava do outro lado da rua.
Ele entrou e encontrou o lugar quase vazio.
Atrás do balcão, havia uma mulher de costas. Morena, com os cabelos cacheados presos em um coque quase frouxo, deixando algumas mechas caírem sobre os ombros.
Daniel não conseguiu disfarçar quando a viu.
A mulher percebeu sua presença e falou sem sequer se virar:
-- Já estamos fechando por hoje, senhor. Só estou limpando essas mesas.
Daniel sorriu discretamente.
-- Boa noite. Prazer, Daniel. Não tem como fazer só uma sopa para mim? Por favor. Eu preciso.
A mulher finalmente se virou.
Quando Silvânia olhou para ele, quase perdeu o fôlego.
O homem era de estatura média, nem tão alto, nem tão baixo. Tinha os braços fortes e uma aparência que chamava atenção. Sem perceber, ela olhou para as mãos dele e reparou nos dedos e nas mãos grandes.
Por dentro, pensou:
Porra, Daniel... que homem!
Mas rapidamente voltou à realidade.
-- Prazer, Silvânia. Bom... vou ver se ainda tem sopa. Mas não vá se acostumando, viu? Eu só queria ir para casa, mas vou fazer esse favor para você. Estou vendo que você realmente precisa de uma sopa. Está com um cheiro forte de bebida e uísque misturados.
Ela deu de ombros e caminhou em direção à cozinha.
Daniel apenas sorriu.
Baixou a cabeça, pegou o celular e abriu o WhatsApp. Havia uma mensagem da mãe.
"Daniel, você precisa escolher uma das três. Já está na hora de pensar no casamento."
Ele soltou um suspiro longo.
As três mulheres escolhidas pela mãe eram bonitas, educadas e vinham de boas famílias. Mas nenhuma delas despertava nele aquilo que realmente queria.
Daniel queria uma mulher que gostasse dele de verdade.
Uma mulher que não estivesse interessada apenas no dinheiro, no sobrenome ou na vida que ele poderia proporcionar.
Queria alguém que se apaixonasse por ele.
Não por aquilo que ele tinha.
Depois de quase vinte minutos, Silvânia voltou da cozinha com um prato de sopa nas mãos.
Colocou o prato sobre a mesa.
--Está aqui, Daniel. Sua sopa. Aproveite bastante.
-Obrigado, Silvânia.
Ele olhou para o prato e depois para ela.
-- Você tem pimenta?
-- Tenho.
-- Quero colocar bastante. Talvez ajude a passar esse gosto de álcool.
