15 de novembro de 2013.
Era apenas uma sexta-feira como qualquer outra.
Às sextas, Nathan me buscava na escola e íamos almoçar em
casa. Logo depois, comprávamos um sorvete no shopping e
íamos para o melhor programa de todos: o cinema ou um
piquenique.
Hoje era dia de cinema.
Era para ser.
Mas não era uma sexta como qualquer outra.
Ele me buscou como de costume, mas havia algo errado.
Suas mãos permaneciam firmes no volante. O olhar, fixo no
trajeto. O maxilar, rígido.
Ele não dizia uma palavra.
Algo o incomodava e, depois de tantos anos ao lado dele, eu
sabia reconhecer quando sua mente estava longe, presa a
alguma preocupação.
- Amor?
Ele levou um pequeno susto, como se não esperasse que eu
falasse. Ou talvez tivesse esquecido que eu estava ali.
- Tem alguma coisa errada? Eu fiz algo?
Ele sorriu sem jeito.
Aquilo me preocupou ainda mais.
- Não, vida. Está tudo bem. Já estamos chegando.
Foi então que percebi. 2
Aquele não era o caminho para o cinema.
Caía uma chuva leve, e eu conhecia aquele trajeto. Estávamos
indo em direção a uma praça próxima à minha casa.
Quando chegamos, ele estacionou e desligou o carro.
Por alguns segundos, não disse nada.
- Precisamos conversar.
Sua voz saiu trêmula.
- Eu... eu preciso que você me ouça. Me entenda. Depois eu
respondo todas as suas dúvidas.
Sentei-me mais direito no banco e o encarei, preocupada,
esperando.
- Aconteceu uma coisa... E eu não sei nem por onde começar.
Eu fiz algo... Algo que você não vai entender agora, mas sei
que, logo, vai entender.
- Amor, você está me assustando. O que foi? Nosso pai
descobriu sobre a gente?
Aquilo me apavorava.
Nosso pai nunca entenderia. Talvez nos proibisse de nos
vermos de novo.
- Não, Gaby. Não é isso...
Ele respirou fundo.
- Lembra daquela festa no começo do ano em que eu te
chamei e você não pôde ir? Que a sua mãe não deixou você
viajar comigo?
- Sim. Eu já te pedi desculpas por isso.
Procurei seu olhar, mas ele continuava com os olhos baixos,
evitando os meus.
- Sim, eu sei. Não é isso. Aconteceu alguma coisa naquele 3
dia... Eu não vou enrolar.
Ele fez uma pausa.
- Eu... eu vou ser pai.
Por alguns segundos, não consegui compreender.
Um lampejo de confusão me atingiu junto ao silêncio que se
instalou depois daquela frase.
A frase que mudaria a minha vida.
- Você o quê?
Eu gritei.
Seus olhos se fecharam por um segundo.
- Co... como assim? Quando?
Eu o vi vacilar, mas ainda tentava entender.
Então me calei.
Parecia que o carro havia ficado menor. Apertado demais para
nós dois.
Parecia que o mundo tinha parado.
E meu coração doeu.
- Nathanael, como assim? Me fala.
Minha voz saiu fraca, quase um sussurro.
- Isso não importa... Ela está para nascer. Eu não poderia
esconder isso por mais tempo.
Foi quando o mundo explodiu.
O meu mundo explodiu.
- Não poderia mais esconder?
Ele assentiu.
- Esconder por quanto tempo? Nathanael, quanto tempo você
está escondendo isso?
- Eu descobri há quatro meses. 4
Ele fez uma pausa.
Eu parei de respirar.
O mundo inteiro pareceu girar e, então, aquelas duas palavras
ecoaram na minha cabeça.
Quatro meses.
Ele mentiu para mim por quatro meses.
Não.
Pera.
Desde fevereiro.
Desde a maldita festa.
Eu confiei tanto nele.
- Qual o nome dela? Da menina? Eu conheço?
Na minha cabeça, passaram nomes. Pessoas. Meninas da
faculdade dele que eu não gostava.
Sei lá.
Alguém.
- Isso não importa, amor.
- Sim, importa! Quem é ela?
Eu gritei.
- Foi um acidente... Um erro. Coisa de uma noite.
Ele disse aquilo como se reduzir tudo a uma noite pudesse
consertar alguma coisa.
- Você está resumindo tudo a uma noite? A um erro?
Minha voz saiu mais baixa.
- Nathanael... Vocês estão se vendo?
As palavras saíam quase no automático.
Eu não conseguia pensar.
Flashbacks daqueles últimos meses passaram pela minha 5
mente.
Quantas mentiras mais?
Quantos beijos?
Quantos encontros tivemos e ele não me contou?
Quantas vezes ele teve a chance de dizer?
Por quê agora?
- Sim.
Ele baixou o olhar, envergonhado.
- Vocês... Vocês compraram as coisas do bebê juntos?
Minha voz começou a falhar.
- Escolheram o nome juntos? Vocês... Vocês... Ela sabe de
mim?
- Gaby, calma. Eu comprei, sim, algumas coisas para a bebê.
E... uma menina.
Ele hesitou.
- E ela sabe, sim, de você. Sabe que eu tenho namorada...
Mas é só isso.
Ele me olhou com um meio sorriso, como se ainda tentasse me
reconfortar.
Como se houvesse alguma coisa ali capaz de me confortar.
- Nosso pai sabe?
- Sim. Eu contei a ele. Tem alguns dias, mas pedi que não te
contasse.
- Filipe? Jonathan? Minha mãe? Quem sabe?
- Não. Somente eu, meu pai e Gabriel sabem. Mais ninguém.
O silêncio voltou.
Daquele tipo que parece durar uma eternidade.
E então o choque veio ainda pior. 6
Um turbilhão de sentimentos, confusão, raiva.
Eu nem percebi quando comecei a chorar.
Quando foi que comecei a chorar?
Eu estava sendo traída.
Enganada.
Havia meses.
- Você mentiu para mim...
- Gaby...
- Você mentiu para mim!
Dessa vez, eu gritei.
Uma raiva que eu desconhecia tomou conta de mim.
Ele tentou pegar minha mão, mas eu o afastei.
- Não me toque.
Quando tentou me abraçar, eu lhe dei um tapa.
Instinto?
Puro ódio?
Eu não sabia.
Só sabia que aquele homem ao meu lado não parecia mais ser
o homem que eu tanto admirava e amava.
Eu não o reconhecia.
Então ele quebrou o silêncio.
- Ela não quer o bebê, Gaby.
Ele respirou fundo.
- Eu pensei que, te contando, talvez você pudesse me
perdoar... A gente poderia ficar juntos publicamente, sabe?
Nossos pais não vão se opor...
Ele tentou sorrir.
- Vamos construir a nossa família, amor. Ela se chamará 7
Laviny...
Meu coração pareceu afundar.
- A nossa menina.
- Cala a boca.
Minha voz saiu baixa e travada.
Minha cabeça doía.
- Eu vou descer do carro... Eu vou embora, Nathanael. E, por
hoje... ao menos hoje, me esquece.
Abri a porta.
- Você é maluco se acha que eu vou ser a madrasta do seu
erro. Do seu pecado. Eu tô fora.
Saí do carro.
A chuva estava mais forte agora.
Eu não me importava.
Não conseguia enxergar direito entre as lágrimas e a chuva.
Ouvi-o chamar meu nome.
Depois, o carro ligou.
Ele veio atrás de mim.
Pediu, implorou para que eu entrasse no carro, mas eu o
ignorei.
Então ele apenas se calou.
E me seguiu.
Até eu chegar em casa.
O carro dele ficou lá fora até tarde da noite.
Meu celular vibrou por muitas horas.
E, a cada mensagem, a cada segundo, eu sentia meu chão se
desmanchar em lágrimas e dúvidas.
Liguei para Ana e Filipe, implorando por apoio. 8
Eles vieram.
Ficaram comigo durante todo o fim de semana, ajudando-me a
esconder da minha mãe as razões do meu colapso.
Ajudaram-me a ignorar aquele que insistia em se explicar.
O traidor.
O mentiroso.
Aquele que um dia jurou me amar e zelar por nós.
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Na nossa Pele.
RomanceQuantas vezes eu havia tentando fugir dele. fugir de nós. Mas a histórias que são marcadas na nossa Pele.
