1- O DIABO

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A chuva batia contra as janelas do escritório, transformando as luzes da cidade em manchas borradas de amarelo e branco.

Tee estava parado diante da enorme mesa de madeira, os braços cruzados e a mandíbula travada, encarando o homem sentado do outro lado.

- Não.

O pai sequer levantou os olhos dos documentos.

- Você nem me deixou terminar.

- Não preciso.

- Vai ouvir mesmo assim.

- Se for sobre segurança, a resposta continua sendo não.

O homem finalmente ergueu os olhos.

Havia poucas pessoas naquela cidade que ousavam falar daquele jeito com ele. Menos ainda que conseguiam permanecer vivas depois de fazê-lo.

Mas aquele garoto era seu filho.

Talvez por isso fosse a única pessoa no mundo que podia enfrentá-lo sem medo.

- Você recebeu ameaças nas últimas semanas - disse o pai.

- Eu sei.

- Duas esta semana.

- Eu também sei.

- E ontem alguém tentou entrar na sua casa.

O filho descruzou os braços.

- Tentou. Não conseguiu.- Tee cruzou os braços.

- Isso não é argumento.

- É exatamente o argumento. - Deu uma risada curta. - Pai, eu não vou andar pela cidade com um homem atrás de mim o tempo inteiro porque algum idiota resolveu me ameaçar.

- Não é um homem.

- O quê?

- É um profissional.

- Continua sendo um homem.

- Um homem que vai manter você vivo.

Tee respirou fundo, tentando controlar a irritação.

- Eu consigo me cuidar.

O pai se levantou lentamente.

- Sua mãe também dizia isso.

O mundo pareceu parar por um segundo.

Ele desviou o olhar.

O pai sabia exatamente onde tocar.

Sempre soube.

- Não fala dela para ganhar uma discussão comigo.

- Não estou tentando ganhar uma discussão.

- Está, sim.

- Estou tentando fazer você entender.

O homem caminhou até a janela.

Por alguns segundos, ficou olhando para a cidade.

- Naquela noite - começou - sua mãe também achou que estava tudo bem.

O filho apertou os dedos contra os próprios braços.

Ele lembrava daquela noite.

Não de tudo.

Apenas de fragmentos.

A chuva.

As sirenes.

A casa cheia de pessoas.

O cheiro forte de perfume e café.

A mão de alguém segurando seu ombro enquanto ele perguntava repetidamente onde estava a mãe.

Legado de SangueHistórias para pegar e não largar. Descubra agora