Eu sempre achei que existiam pessoa destinadas a viver no interior.
Não eu, obviamente.
Algumas pessoas nasciam para acordar com o canto do galo, usar botas sujas de Lama ou achar emocionante ver uma galinha botando um ovo.
Eu não.
Eu tinha planos.
Grandes planos, inclusive.
Só não tinha dinheiro, emprego ou casa.
" Detalhes "
- Que Ódio - murmurei, apertando o volante enquanto a chuva castigava o para-brisa. - Perfeito. Simplesmente perfeito.
O limpador de para-brisa ia e voltava num ritmo desesperado, como se também estivesse tentando fugir daquela situação.
Eu dirigia havia quase uma hora e meia, cada quilômetro me afastando da pouca dignidade que ainda me restava.
No banco do passageiro havia duas malas, uma bolsa, uma caixa com algumas coisas pessoais e uma sacola com roupas que eu não tinha conseguido organizar direito. Tudo o que eu possuía cabia naquele carro.
Era humilhante.
Eu tinha vinte e poucos anos e estava voltando para a casa do meu pai porque tinha sido demitida.
Pior.
Eu estava voltando para a casa do meu pai para trabalhar como coletora de ovos.
Coletora de ovos.
Eu repetia aquelas palavras mentalmente e cada vez elas pareciam mais absurdas.
- Parabéns, Rafaela - falei sozinha. - Você estudou, trabalhou, fez planos... para terminar catando ovo.
O universo, aparentemente, tinha um senso de humor péssimo.
Meu pai morava num sítio.
Era caseiro.
Sempre tinha sido.
E eu tinha vergonha disso.
Nunca gostei de contar para as pessoas onde ele morava. Quando alguém perguntava:
"Seu pai trabalha com o quê?"
Eu sempre encontrava uma maneira de responder sem realmente responder.
- Ele trabalha numa propriedade.
Propriedade.
Parecia sofisticado.
Quase uma coisa de gente rica.
Ninguém precisava saber que a tal "propriedade" ficava no meio do nada, que meu pai cuidava de galinhas, cavalos, plantações e de tudo o que tivesse quatro patas, duas asas ou uma péssima noção de espaço pessoal.
Eu não gostava daquele lugar.
Não gostava do interior.
Não gostava da simplicidade.
Não gostava daquela ideia de que as pessoas conseguiam passar uma vida inteira sem shopping, restaurante caro ou internet decente.
Na minha cabeça, interior era sinônimo de gente simples demais.
E, se eu fosse completamente honesta comigo mesma, eu achava que muita gente dali era burra.
Era um pensamento horrível.
Eu sabia.
Mas pensamentos horríveis não costumavam pedir autorização antes de aparecer.
- Pelo menos lá ninguém vai me perguntar por que estou desempregada - resmunguei.
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O Pecado De Romeu
RomanceRafaela Gutiere sempre conseguiu o que queria - ou, pelo menos, estava acostumada a querer tudo para ontem. Mimada, impulsiva e acostumada à vida na cidade, ela vê seu mundo virar de cabeça para baixo quando perde o emprego e é obrigada a voltar par...
