Capítulo 1

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A poeira que flutua na réstia de luz do meu teto não tem pressa.

Minhas costas doem contra o concreto frio da cela, um lembrete físico de que o tempo aqui dentro se arrasta, mas a minha sentença não. O suor frio escorre pela minha nuca e o meu peito sobe e desce num ritmo acelerado. A ansiedade é um nó apertado na minha garganta.

Eu sei o que vem a seguir. Neste lugar, o sistema não perde tempo com reabilitação, qualquer deslize se traduz na mesma equação: defeitos devem ser eliminados. A morte é a única penalidade conhecida. E hoje é a minha vez.
Dizem que cometi um crime gravíssimo contra a Ordem. Dizem que sou uma traidora.

Fecho os olhos e tento afastar o pânico, mas o som distante dos passos pesados no corredor faz meu coração disparar. A porta metálica se abre com um bipe agudo e braços brutais me arrastam para fora.

Caminho pelo corredor de execução com as pernas bambas.

Ja tive fantasias de como seria a minha morte, talvez velhinha em uma cadeira de balanço com meus filhos. Mas entendi cedo demais que isso é um luxo que não posso ter.

A iluminação fria pisca em um ritmo quase como uma contagem regressiva visual. A tecnologia deste lugar não perdoa falhas e pelo visto, não dá espaço para a humanidade. Tudo é feito de ligas metálicas polidas e painéis de controle mecânicos.

Quando entramos na sala de execução, o impacto da cena me faz perder o fôlego. Seis prisioneiros já estão ali, alinhados, acorrentados sob a luz crua. Pessoas comuns, rostos pálidos e abatidos pelo desespero. Não sei se devo me sentir reconfortada de morrer acompanhada de outras pessoas. Acho que nada na morte é confortável.

Um dos guardas me empurra para frente e me entrega uma bandeja de metal raso, onde repousam sete pequenos comprimidos de terminação neurotóxica. A risada dele ressoa alta e debochada por baixo do capacete. Pego a bandeja fria, agora detentora daquilo que em cinco minutos me matarà.

- Quer prolongar sua vida por mais um minuto, garota? - ele zomba, aproximando o rosto revestido de metal do meu, esbanjando um desdém repugnante. - Então mate eles primeiro. Entrega um para cada um. Vamos.

A soberba velada deles torna tudo ainda mais brutal. Para eles, uma garota de dezenove anos prestes a morrer não passa de um entretenimento grotesco antes do fim do turno. Eles so se esquecem de um detalhe: eles tambem estão sob as leis da Ordem. Eles tambem estão passivos de estarem no meu lugar amanhã.

Ninguém está salvo.

Seguro a bandeja com as mãos trêmulas e me aproximo das contenções de vidro temperado. Avanço entregando os comprimidos. Um a um, eles engolem sem reação, aterrorizados demais para lutar. O veneno age rápido; em questão de segundos, o corpo paralisa e a respiração cessa. O guarda mais alto me acompanha como um cão farejador. Um deslize e meu comprimido sobra para outro detento. Ele atira na minha cabeça ali mesmo. Nao que faça diferença, não é mesmo?
Hoje irei morrer de qualquer jeito.

Até que chego ao sexto homem.
Ele está acorrentado ao centro do painel de contenção. Quando ele levanta a cabeça, o ar foge dos meus pulmões. Ele não se parece com nenhum dos civis daquela prisão. É impressionantemente alto, com ombros largos que parecem quase incapazes de caber na estrutura. A mandíbula marcada, a postura ereta e a beleza crua, e atraente de seu rosto contrastam terrivelmente com aquele ambiente imundo. Havia uma aura de poder e perigo ao redor dele que faz meu instinto mandar eu recuar.

Nossos olhos se cruzam por uma fração de segundo. Ele pega o comprimido da minha mão sem dizer uma palavra e o engole.

Esperei o impacto imediato do veneno.

Um segundo. Dois. Três.

Nada acontece. Ele nem mesmo pisca.

- Que inferno é esse? - esbraveja o segundo guarda, aproximando-se a passos largos e destravando o bastão elétrico. - Esse desgraçado devia estar morto!

- O organismo dele tá rejeitando a toxina oral! - o outro guarda pragueja.

- É um daqueles... um dos modificados. Arrasta ele pra cadeira de contenção!
Em segundos, o homem é empurrado e preso por travas magnéticas em uma cadeira de aço pesada. O guarda mais alto pega um injetor automático com um líquido vermelho e denso, uma dosagem concentrada e letal, e o empurra contra o meu peito.

- Faz o serviço, garota. Injeta nele. Ou a gente começa a execução por você agora mesmo, e não vai ser rápido.

Seguro o injetor com as duas mãos, tremendo incontrolavelmente. Aproximo do homem alto. Ele me encara com olhos intensos, profundos, que parecem ler até a última camada da minha alma. Não há medo nele, apenas uma calma sepulcral e perigosa.

Puxo a manga do traje dele e alinho a agulha com a veia de seu braço forte e marcado.

- Me desculpa... - murmuro em um sussurro quase inaudível, com a voz embargada, sentindo lágrimas queimarem meus olhos antes de pressionar o gatilho da seringa no braço dele.

O fluido vermelho começa a entrar em sua corrente sanguínea. A agulha está no meio do processo.

Eu recuo devagar, sem conseguir olhar para ele, e me dirijo até a bancada ao lado dos outros prisioneiros já sem vida. Alcanço o último comprimido que resta na bandeja. O meu. Eu estava pronta para acabar com aquilo, pronta para aceitar o meu destino por um crime que nao cometi.

Mas antes que eu possa sequer encostar a pílula nos lábios, o som de metal se despedaçando ecoa na sala com o estalo de um trovão.

A trava magnética da cadeira explode em faíscas.

O homem forte se ergue de um salto, arrancando a agulha letal do próprio braço pela metade com um movimento bruto, ignorando o veneno vermelho que já roda em seu sangue. Antes que o primeiro guarda possa reagir ou erguer a arma, o homem o atinge com um golpe seco no rosto. O impacto é tão avassalador que o soldado desaba desacordado no mesmo instante.
O segundo guarda tenta erguer o rifle, mas o homem é mais rápido. Com uma agilidade desumana para alguém do seu tamanho, ele segura a cabeça do guarda com apenas uma das mãos e pressiona. O som do capacete de liga pesada e do crânio se amassando com uma facilidade assustadora faz meu sangue gelar. O guarda cai sem vida como um boneco de pano.

O silêncio cai sobre a sala, quebrado apenas pelo chiado dos painéis elétricos destruídos.

Fico paralisada, o comprimido cai da minha mão e rola pelo chão de metal. Eu olho para aquele homem, com o peito ofegante, o braço sangrando por causa da injeção arrancada e uma força que desafia todas as leis da biologia humana.
Ele vira o rosto na minha direção. Seus olhos encontram os meus. Me encolho no canto tentando ser invisível. Desejo adquirir poderes de atravessar paredes para sair desse lugar.

Sem dizer uma única palavra, ele atravessa a sala a passos rápidos, segura meu braço com um aperto firme e inquebrável, e me puxa junto com ele em direção à porta ainda aberta pelos guardas.

Ordem e SangueStories to obsess over. Discover now