Miguel Vilar desceu os degraus proibidos sem acender a ponta da varinha.
Não precisava. As runas gravadas nas paredes emitiam uma claridade azulada, fraca como o último brilho de uma estrela. Pulsavam quando ele passava, reconhecendo alguma coisa em seu sangue. Talvez fosse essa a razão de o diretor ter mandado bloquear a escadaria. Talvez fosse a razão de seu pai desejar tanto que ele chegasse ao fim dela.
Miguel tinha dezessete anos e vestia o uniforme negro da Torre das Trevas. Sobre o coração, o símbolo prateado de uma lua encoberta parecia observá-lo. Durante cinco anos, ele ouvira sussurros de que terminaria como Leônidas Vilar. Naquela noite, oferecia aos sussurros a imagem perfeita: um aluno caminhando sozinho por uma passagem interditada, levando consigo páginas roubadas do Arquivo de Runas.
No entanto, Miguel não buscava poder.
Buscava uma maneira de impedir que seu pai chegasse primeiro.
Ao fim da escada, encontrou uma porta circular coberta por dez marcas. Nove estavam apagadas. A décima, semelhante a dois galhos entrelaçados em torno de um olho, brilhava em vermelho.
Ele abriu o caderno e comparou o desenho com as anotações.
— Chaves geminadas — murmurou. — Sangue humano. Sangue antigo. Dois herdeiros.
Pensou em Tomás, ainda pequeno demais para pronunciar seu nome sem tropeçar. Pensou nas orelhas pontudas que a mãe escondia sob uma touca azul. Pensou em Dona Elza prometendo que cuidaria do menino, embora não entendesse metade do perigo.
Uma corrente de ar atravessou a cripta.
As runas se apagaram.
— Você sempre foi curioso demais — disse uma voz atrás dele.
Miguel se virou com a varinha erguida. Leônidas Vilar estava no último degrau, mais magro do que nas lembranças, o rosto marcado por veios escuros que avançavam do pescoço até a mandíbula. Não usava uniforme nem capa. Vestia um paletó cinza e carregava nas mãos o anel do Regente do Vazio: um círculo negro no qual nenhuma luz se refletia.
— Você o trouxe até a escola — acusou Miguel.
— Eu abri uma porta. Foi você quem decidiu atravessá-la.
— Tomás não faz parte disso.
O sorriso do pai não continha afeto.
— Tomás é a parte mais importante.
Miguel lançou um feitiço. Um arco violeta cortou o corredor, mas Leônidas o desviou com dois dedos. As pedras estremeceram. Das sombras entre os blocos nasceram braços compridos, feitos de uma fumaça espessa, que agarraram os tornozelos de Miguel.
Ele caiu, ainda segurando o caderno.
— Diga ao seu mestre que ele nunca tocará no meu irmão.
— Você ainda acredita que está lutando contra nós, garoto — respondeu Leônidas. — Um dia compreenderá que apenas preparou o caminho.
Miguel rasgou a última página do caderno e apertou-a contra o medalhão de madeira que trazia no pescoço. A mãe lhe ensinara aquele encantamento anos antes. Uma chama verde envolveu o papel, mas não o queimou. A página desapareceu, enviada para a única pessoa comum em quem ele confiava.
Leônidas percebeu tarde.
As sombras puxaram Miguel para o chão. A pedra tornou-se líquida, fria e profunda. Antes de desaparecer, ele ouviu sinos acima da cripta e imaginou o irmão dormindo a centenas de quilômetros dali.
Então gritou uma única frase, na esperança impossível de que as paredes a guardassem:
— Tomás, escolha por você!
Na manhã seguinte, a Academia Arcana de Veredas anunciou que Miguel Vilar havia invadido uma área proibida e fugido após atacar as proteções da escola.
Ninguém encontrou o caderno.
Ninguém encontrou Miguel.
E, com o passar dos anos, quase todos aceitaram a versão mais fácil: o filho do bruxo das trevas havia seguido o caminho do pai.
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O Legado da Magia: O Herdeiro Condenado
FantasyTomás Vilar passou a vida tentando esconder duas coisas: suas orelhas pontudas e os acontecimentos impossíveis que surgem sempre que sente medo ou raiva. Tudo muda às vésperas de seu décimo segundo aniversário, quando um beija-flor atravessa uma jan...
