O pior monstro
é aquele que se esconde
atrás de um sorriso doce.
Mas talvez eu tenha confundido
monstro com ferida.
Porque algumas pessoas sorriem
não para enganar,
mas para esconder
o quanto estão cansadas de explicar
que não estão bem.
Eu também aprendi a sorrir.
Sorria quando doía.
Sorria quando ninguém perguntava.
Sorria porque era mais fácil dizer
"está tudo bem"
do que abrir a porta
e deixar alguém enxergar
a bagunça que existia dentro de mim.
Por fora,
eu parecia luz.
Por dentro,
eu procurava uma.
Eu era como um morango:
vermelho por fora,
bonito aos olhos de quem passava,
com uma aparência que fazia parecer
que tudo estava bem.
Mas ninguém via
a parte machucada.
Ninguém via o ponto onde a doçura acabava
e começava o gosto azedo.
E talvez fosse isso que mais doesse:
não a ferida em si,
mas ter aprendido a escondê-la
tão bem que até eu mesma
comecei a fingir que ela não existia.
Até que uma noite
olhei para o céu.
Na cidade,
as luzes eram tantas
que escondiam as estrelas.
E pensei que talvez eu fosse assim também:
cheia de luz por fora,
mas com coisas escondidas
na escuridão.
Quando fui para a roça,
o céu estava completamente escuro.
E, pela primeira vez,
eu consegui enxergar as estrelas.
Pequenas luzes
espalhadas pelo infinito.
Quanto mais eu olhava,
mais me perdia nelas.
E, estranhamente,
não queria me encontrar.
Queria apenas ficar ali.
Então sussurrei:
- Onde eu estou?
Uma voz respondeu:
- Em paz, minha filha...
onde você sempre pediu para estar.
Olhei ao redor.
A paisagem era perfeita.
Era o lugar dos meus sonhos.
Mas, dessa vez,
a coisa mais bonita não era a paisagem.
Era a sensação
de não precisar esconder nada.
Então uma luz surgiu.
Ela cresceu diante dos meus olhos
até que tudo ficou branco.
E eu acordei.
Por um instante,
senti que tinha perdido
o único lugar onde minha ferida
não precisava ser escondida.
Mas então olhei para a janela.
As estrelas continuavam lá.
E compreendi.
Aquela luz não tinha desaparecido.
Ela tinha ficado em mim.
O morango ainda tinha sua parte azeda.
A ferida ainda existia.
O passado não tinha simplesmente sumido.
Mas eu já não precisava fingir
que era doce o tempo inteiro.
Porque descobri que estar ferida
não significa estar quebrada.
E descobri também
que a luz não precisa apagar
a escuridão.
Ela só precisa existir
dentro dela.
Naquela noite,
eu parei de sorrir para esconder minha ferida.
E comecei a sorrir
porque, mesmo com ela,
eu ainda tinha luz.
Talvez esse seja o verdadeiro sentido
de continuar:
não ser um morango perfeito,
mas aceitar até o gosto azedo
e, ainda assim,
não deixar de florescer por dentro.
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COISAS QUE EU NUNCA SOUBE DIZER
PoetryTalvez este não seja um livro sobre uma única história. Talvez seja sobre várias. Nos dias em que eu não soube explicar o que sentia. Sobre palavras que ficaram depois que quem as disse foi embora. Sobre noites em que meus pensamentos fizeram mais b...
