Piloto

237 9 0
                                        


Outer Banks é o tipo de lugar onde a sua vida é decidida pela quantidade de dígitos no saldo bancário do seu pai antes mesmo de você aprender a andar. Se você nasce no lado norte da ilha, parabéns: você é um Kook. Isso significa casas com múltiplos andares, barcos de luxo, country club nos fins de semana e a certeza absoluta de que a lei sempre estará ao seu favor. Mas, se você nasce no lado sul, a história é completamente diferente. Você é um Pogue. E ser Pogue é aprender desde cedo que a desigualdade social não é um conceito de livro de história; é a maresia pesada que você respira todos os dias, a poeira das estradas sem asfalto e a contagem diária das moedas para pagar a conta de luz.

Para os Kooks, nós somos apenas lixo da ilha, figurantes no paraíso deles. Para nós, eles são apenas garotos mimados jogando em um tabuleiro onde o dado já veio viciado a favor deles. É dois mundos em uma única ilha, separados por um oceano de privilégios.

E no meio de tudo isso, existimos nós.

Meu nome é Tess Maybank. Se o sobrenome lhe soa familiar, é porque você provavelmente já ouviu falar do meu irmão mais velho, o JJ. Crescer com o JJ é viver em um furacão constante, mas, em um lugar onde o mundo parece tentar nos derrubar o tempo todo, ele é meu porto seguro. A gente não teve uma vida fácil — longe disso —, e talvez seja por isso que a nossa ligação é inquebrável. O JJ é do tipo que compra uma briga por mim antes mesmo de saber o motivo, e eu sou a única pessoa no mundo capaz de fazer ele abaixar a guarda e parar de agir como se o mundo fosse explodir a qualquer segundo. Onde ele é o fogo descontrolado, eu sou a calmaria que impede que tudo vá pelos ares.

Nossa família de verdade não é a de sangue, mas a que escolhemos todos os dias na varanda da casa do John B. Tenho o John B como o irmão que compartilha as piores ideias e os melhores conselhos; a Kiara é a minha força, a garota que me entende quando o peso da vida fica difícil demais de carregar; e o Pope é a nossa voz da razão — o cara que tenta nos manter fora da cadeia, embora raramente consiga.

Crescer vendo a disparidade entre a nossa rotina e a vida perfeita dos Kooks nos ensinou que nada vem de graça para pessoas como nós. Aprendemos a nos virar com o que tínhamos, a transformar o nada em algo e a rir na cara do perigo, porque a alternativa era aceitar a derrota.

Quando você é um Pogue, seu tempo livre nunca é totalmente seu. Se a gente não está em cima do HMS Pogue com o vento no rosto e uma cerveja barata na mão, tentando esquecer as nossas contas acumuladas, estamos trabalhando. E a minha realidade é ter que servir exatamente as pessoas que eu prefiro manter à distância.

Eu trabalho como garçonete no Island Club, o country club chique do lado Kook. Vestir aquele uniforme alinhado e sorrir enquanto sirvo bebidas para velhos milionários e garotos mimados é um teste diário de paciência. É irônico, para dizer o mínimo: passo horas equilibrando pães e coquetéis caríssimos em bandejas só para conseguir a grana que me garante o básico. É o preço que se paga para sobreviver por aqui.

Mas a verdade é que as melhores partes da minha vida acontecem bem longe dali. Minha rotina com os meninos é um caos perfeito. Um dia estamos fugindo do segurança do porto só por estarmos no lugar errado, no outro estamos pulando do topo da ponte de balsa à meia-noite ou tentando consertar o motor engasgado do barco do John B antes que a maré suba. A gente vive de improviso, colecionando poeira nos pés, cicatrizes nos joelhos e histórias que nenhum Kook com toda a sua conta bancária conseguiria comprar. É nessa bagunça que eu me sinto viva.

E, claro, ser garçonete no clube e frequentar as festas da ilha significa que é impossível não cruzar com os Kooks o tempo todo. Especialmente com o Rafe.

O Rafe Cameron é o tipo de garoto que parece andar com uma nuvem de tempestade em cima da cabeça. Eu o vejo por todo canto: seja pedindo mais um drink no clube com aquele ar de superioridade de quem acha que o mundo lhe deve algo, ou no meio das festas de Figure 8, cercado pelos amigos dele. Nós nunca fomos próximos — longe disso. Na verdade, a distância entre nós é bem proposital.

O Rafe não perde uma oportunidade de implicar com a gente. Ele adora provocar o JJ, jogar piadinhas arrogantes para o Pope ou olhar para o John B como se ele fosse invisível. Ele faz questão de lembrar a todo segundo quem ele acha que está no topo e quem está no chão. Por causa disso, não tenho um pingo de paciência para ele. Sempre que nossos olhares se cruzam no clube ou em alguma festa, a tensão é quase palpável, mas eu faço questão de manter o meu queixo erguido e meu trabalho feito. Quanto menos contato com o Rafe Cameron, melhor para a minha paz de espírito.

Ou pelo menos era o que eu gostava de pensar.

Seu, mesmo que doa.Stories to obsess over. Discover now