REVERENDO

0 0 0
                                        


Em 2002, Helena recebeu uma proposta que parecia capaz de mudar sua vida. Ela trabalhava como diarista em uma pequena cidade do Nordeste quando uma empresa entrou em contato oferecendo um emprego em São Paulo, na casa de uma família extremamente rica. O salário era de dois mil reais por mês — uma quantia que, naquele tempo, parecia uma fortuna. Helena não pensou duas vezes. Alugou uma pequena casa na cidade, organizou a mudança e, depois de se estabelecer, trouxe os dois filhos para morar com ela. Pela primeira vez em muito tempo, sentia que as coisas estavam começando a dar certo.

A casa onde trabalhava era enorme, luxuosa e silenciosa. Os patrões pareciam ter saído de uma novela: ela, uma mulher jovem, elegante e extremamente exigente; ele, um homem mais velho, reservado e quase sempre calado. Havia, porém, algumas coisas naquela família que incomodavam Helena. Embora dissessem morar naquela casa havia alguns anos, pareciam não conhecer os próprios cômodos. Quando ela perguntava onde ficava uma tesoura, determinado produto ou qualquer objeto simples, os dois frequentemente se entreolhavam antes de responder, como se também estivessem tentando descobrir. O homem, principalmente, reclamava constantemente de São Paulo. Dizia que odiava a cidade, que aquele lugar era péssimo e que não via a hora de sair dali. Helena chegou a perguntar por que, já que tinham tanto dinheiro, simplesmente não compravam uma casa em outro lugar. Ele a encarou por alguns segundos e permaneceu em silêncio. Depois daquele dia, ela nunca mais fez perguntas sobre o assunto.

A residência também possuía câmeras de segurança espalhadas por todos os cômodos. Helena sabia que era normal uma casa daquele tamanho ter algum sistema de vigilância, mas não gostava da sensação de estar sendo observada. Ainda assim, precisava do trabalho e continuou sua rotina. Depois de aproximadamente dois meses, entretanto, foi demitida sem qualquer explicação. Procurou emprego durante dias, entregou currículos, respondeu a anúncios e tentou conseguir novas diárias, mas nada dava certo. Em uma dessas tentativas, depois de sair de uma entrevista que sequer chegou a acontecer, voltou para o ponto de ônibus pensando seriamente em retornar ao Nordeste. Foi então que um homem se aproximou.

Ele vestia um terno completamente preto, apesar do calor, e carregava consigo uma expressão tranquila demais para alguém que acabara de abordar uma desconhecida em um ponto de ônibus. Sentou-se ao lado de Helena e perguntou se estava tudo bem. Ela respondeu que sim, mas o homem percebeu a tristeza em seu rosto e insistiu. Quando soube que ela estava procurando emprego, pareceu imediatamente interessado. Disse que precisava de alguém para limpar uma igreja e que poderia começar no dia seguinte. Helena perguntou se ele era pastor. O homem sorriu discretamente e respondeu que preferia ser chamado de Reverendo.

A conversa deveria ter terminado ali, mas o Reverendo começou a fazer perguntas que não tinham relação alguma com limpeza. Queria saber se Helena era casada, se tinha filhos, quantos eram, quais eram suas idades, se possuía parentes próximos na cidade e quem costumava ficar em sua casa. Ela achou aquilo estranho, mas não podia se dar ao luxo de recusar uma oportunidade. O pagamento seria de cem reais por noite, em dinheiro, e o trabalho seria apenas algumas horas. Combinaram que ele a buscaria na estação às seis da tarde e a levaria até a igreja. No fim do serviço, ela deveria caminhar até outro ponto, onde ele a buscaria novamente. Helena achou estranho que ele não pudesse deixá-la ou buscá-la diretamente na porta do templo, mas preferiu não questionar.

No dia seguinte, o Reverendo apareceu em um carro vinho, de aparência esportiva e bastante luxuoso. Durante o caminho, explicou que havia acontecido um culto e que o lugar estaria especialmente bagunçado. Entregou a Helena uma chave e explicou que ela entraria sozinha, faria a limpeza e trancaria tudo ao sair. O galpão ficava em uma rua diferente daquela onde ele a deixaria. Quando Helena finalmente entrou, percebeu que havia alguma coisa estranha naquele lugar. Por dentro, o enorme galpão parecia uma igreja antiga. Bancos de madeira ocupavam o salão, havia uma grande cruz sobre o altar, candelabros presos às paredes e pinturas religiosas por todos os lados. Entretanto, as pinturas não eram como as que ela conhecia.

Reverendo Stories to obsess over. Discover now