O corredor principal da Lincoln High tinha sempre o mesmo cheiro: desinfetante barato a tentar disfarçar o suor de ginásio e um resto de perfume floral que se acumulava dentro dos armários de metal. Era um cheiro que eu já nem notava, mas que hoje, por algum motivo, me apetecia comentar em voz alta só para preencher o tempo entre uma aula e outra.
Íamos as quatro a caminho da aula de matemática, ainda a digerir cinquenta minutos de inglês em que a professora Reynolds tinha passado a aula toda a analisar um poema sobre pássaros que ninguém se ia lembrar que existia depois do teste. Madison ia à minha esquerda, Brooke à direita, e a Taylor um passo atrás, como sempre — nunca percebi se era por escolha dela ou porque nós nunca lhe abríamos espaço suficiente.
— Sabem o que eu acho uma perda de tempo total? — disse eu, ajustando a mala ao ombro. — Isto tudo. Nunca mais ninguém vai falar de pássaros simbólicos na vida. A única coisa que interessa aqui dentro é uma coisa, e não é a que está no quadro.
— O estatuto — completou Madison, como se fosse óbvio, porque era.
Era essa a regra não escrita que governava a Lincoln High desde o primeiro dia do nono ano: não interessava quem sabia mais, quem tirava melhores notas, quem ia entrar em que faculdade. Interessava quem caminhava por aquele corredor e fazia as pessoas pararem de falar durante um segundo. E nós fazíamos isso. Todas as manhãs.
Foi nesse momento que vi a Clementine encostada ao cacifo dela, a rir-se de alguma coisa qualquer com uma amiga, o uniforme de claque um bocadinho apertado demais na zona da barriga.
— Viram a Clementine? — disse eu, baixando a voz só o suficiente para parecer discreta, sabendo perfeitamente que não era. — Devia comer menos doces antes de ir dormir. A barriga já lhe começa a sair pelo uniforme.
As outras riram-se, quase em uníssono, aquele tipo de riso que já nem precisa de achar graça para acontecer — é só um reflexo, treinado ao longo de anos de prática.
— Reparei — disse Madison, com aquele tom dela que conseguia soar simultaneamente aborrecido e devastador. — Já não há critérios. Deixam entrar qualquer porquita para cheerleader.
Voltámos a rir. Eu sabia que era cruel. Acho que todas sabíamos. Mas havia qualquer coisa no riso partilhado que apagava essa parte — como se, ao rirmo-nos juntas, a crueldade deixasse de ser nossa e passasse a ser só um facto qualquer sobre o mundo, uma coisa que se dizia sem peso, sem dono.
Continuámos a andar, e senti aquilo que sentia todos os dias sem nunca o dizer em voz alta: os olhares. Vinham de todos os lados, das raparigas encostadas aos cacifos, dos rapazes sentados no chão a rever apontamentos de última hora, dos miúdos do primeiro ano que ainda não sabiam bem onde se enquadravam. As raparigas olhavam com aquela inveja que tentam disfarçar de indiferença — o olhar rápido, o desvio ainda mais rápido. Os rapazes nem se davam ao trabalho de disfarçar.
Eu nunca admitia isto a ninguém, nem sequer à Madison. Mas adorava. Adorava ser cobiçada. Adorava ser invejada. Cada passar por aquele corredor era como respirar um ar mais concentrado do que o resto do mundo respirava, e durante aqueles minutos entre aulas eu era, sem exagero nenhum, a dona daquele lugar inteiro.
Foi então que passámos pelo canto onde o grupo dos "anormais" costumava juntar-se — dois rapazes e uma rapariga, sentados no chão com os livros espalhados, a rever qualquer coisa de química ou física, não importa. Brooke abrandou o passo só o suficiente para eles perceberem que os tínhamos visto.
— Bom dia, anormais — disse ela, com um sorriso que parecia simpático a quem não a conhecesse. — Gosto muito da vossa roupa. Era do vosso avô?
Um dos rapazes baixou os olhos para os apontamentos. A rapariga fez-se ainda mais pequena, se é que isso era possível. E nós rimo-nos — não só nós as quatro, mas também alguns dos alunos que estavam por perto, arrastados para dentro do momento só porque nós é que o tínhamos criado.
BINABASA MO ANG
Esquece-me, Ama-me
RomanceLara tem tudo o que a Lincoln High tem para oferecer: o topo da hierarquia, o grupo certo de amigas, e a certeza de que nenhum rapaz alguma vez lhe resistiu. O único problema é o Sean - o único que continua fora do seu alcance, nos braços da raparig...
