***Mãe de Claire na imagem***
A fachada da nossa antiga casa — imponente em seu luxo — parecia observar em silêncio o mundo que passava, impiedoso, mim. O vento soprava forte naquele fim de tarde, espalhando poeira pelas ruas de paralelepípedos da cidade.
Desde a morte de papai, quase quatro anos antes, eu tinha deixado de ser filha para me tornar apenas a soma das expectativas de minha mãe. Uma mulher poderosa, gananciosa e temida, apesar do ramo que administrava.
Não que eu saiba muito a respeito de tudo que envolva seu trabalho. Vivia trancada entre os quartos enormes e sem vida da casa, tudo do bom e do melhor; as roupas mais bonitas e caras e estravagantes, algumas até ousadas, mas eu aprendi, de uma maneira bem difícil, a não questionar.
Questionar mamãe era sempre um erro!
Meus olhos foram diretos para a marca, já a muito cicatrizada, no meu ante braço esquerdo, uma linha fina de quatro centímetros. Uma lembrança eterna do que aconteceu na última vez que, num ímpeto de coragem, confrontei minha mãe.
Ainda encarava a cicatriz quando a porta principal se abriu e mamãe entrou em todo seu luxo e elegância, com um vestido de seda sem mangas que ia até os joelhos. Os cabelos – os mesmo que eu herdara – loiro acobreado, quase ruivos, estavam presos em um rabo de cavalo perfeitamente alinhado e, a simplicidade da maquiagem ela compensava com acessórios, joias em toda parte: orelhas, pescoço, ante braça, bíceps e tornozelo.
O sorriso que ela deu, fez meus poucos pelos dos braços se arrepiarem.
— Ande, vá se arrumar — ordenou, a voz estridente e empolgada. — Quero você impecável.
Estremeci.
Subi a enorme escava de carvalho em espiral até o segundo andar e virei a direta até o final do corredor, até meu quarto. Com as mãos trêmulas, abri a gaveta e peguei um dos vestidos elegantes — aqueles destinados para os eventos sociais aos quais mamãe me obrigava a ir nas raras ocasiões em que me permitia sair de casa.
Apesar das circunstâncias era uma chance de respirar, de sentir o ar quente de fim de verão.
Ao descer a escada, deparei-me com um dos acompanhantes da mãe. Ele me observava com um olhar pesado, devorador, como todos que frequentavam a mansão. Mas decidi ignora-lo e apenas aproveitar o passeio.
Reconheci o lugar assim que o carro estacionou. O letreiro apagado, a fachada discreta e a entrada lateral para o bordel que mamãe administrava com o sócio Victor. Um homem repulsivo, de olhar lascivo, que certa vez me agarrara nos corredores, beijando-me com violência. Na ocasião, minha mãe surgiu de forma abrupta, e ficou furiosa ao presenciar a cena. Ordenou que Victor jamais se aproximasse de mim novamente, advertindo-o para não "estragar tudo".
Desde então, ela nunca mais me trouxera ao bordel. Por isso não compreendia o motivo de estarmos aqui hoje. Olhei novamente para a entrada - confusa - antes de descer do carro e caminhar em direção a porta. O ambiente estava decorado de forma ostensiva, com uma passarela atravessando o salão e um palco improvisado adornado com cortinas vermelhas pesadas. As meretrizes circulavam para todos os lados com tecido nos braços, sapatos e todo tipo de adornos.
Pelo visto teria um grande "evento" hoje.
Pensar nisso quase me deixou feliz, afinal, quando eventos assim ocorriam, mamãe ficava radiante, exaltando os lucros da noite.
Meus pensamentos foram interrompidos pelo puxão no braço, mamão conduziu-me até um dos quartos dos fundos no andar de cima.
— Entre. E não ouse fazer barulho.
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Na Curva do Horizonte
RomanceAos dezoito anos, Claire vê sua vida desmoronar quando descobre que foi traída por quem deveria protegê-la. Encurralada em uma rede de exploração e prestes a perder completamente a sua liberdade, a jovem tenta uma arriscada fuga, mas é capturada ant...
