PALOMA TRINDADE.
Cheguei da escola e o portão do condomínio ainda estava abrindo pra mim. Guardei o celular na bolsa e fui andando devagar, arrumando o cabelo que o vento tinha bagunçado um pouco. De longe, já vi um grupo de meninos parados perto da entrada da Cidade de Deus, do lado de lá, perto do muro que separava a gente deles. Não conhecia nenhum, mas percebi que me olharam quando passei. Eu nem liguei. Sempre tem gente olhando.
Meu pai é policial, trabalha na delegacia da região, e desde pequena ele me ensinou a não ter medo, mas também a não ser boba. Ele sempre diz que o uniforme não protege ninguém de tudo, e que a gente tem que saber com quem cruza o caminho. Mas eu sou a filha dele, e até hoje nada de ruim nunca me aconteceu.
Quando entrei em casa, ouvi a voz da Brenda vindo da sala. Ela tava com o Biel no colo, brincando com ele, e o menino ria alto, todo esperto, com um ano de idade e já querendo andar pra todo lado. Brenda é minha irmã mais velha, tem dezenove anos, e o Biel é o filho dela. O pai dele é um traficante que mora lá dentro, na Cidade de Deus. Eu não gosto de falar sobre isso, mas é a verdade. Eles não ficam mais juntos, mas ele é presente na vida do menino, sempre vem ver, leva coisa, pergunta como ele tá. Brenda ainda fala com ele, às vezes liga, às vezes ele vem aqui buscar o Biel pra passar um tempo. Minha mãe não gosta nada disso, e meu pai então... mal fala o nome dele. Mas Brenda faz o que ela acha certo, e ninguém consegue mudar a cabeça dela.
— Chegou cedo hoje — ela disse, sem parar de balançar o Biel.
— A aula acabou mais cedo — respondi, jogando a bolsa no sofá. — Vi uns meninos lá na entrada, olhando pra cá. Da comunidade, acho.
Brenda parou um pouco, olhou pra mim com aquela cara de sempre, meio séria, meio preocupada.
— Não fica olhando pra eles, Paloma. E não passa perto do portão sozinha, entendeu? Seu pai já falou mil vezes.
— Ah, para, Brenda. Eu não sou criança. E sou filha de policial, ninguém mexe comigo.
— Não seja ingênua — ela disse, baixando a voz pra não acordar o Biel que já começava a cochilar. — Ser filha de policial não é escudo. Lá dentro as regras são outras. E você não faz ideia de como são.
Eu revirei os olhos e fui pro meu quarto. Não queria ouvir aquilo de novo. Sempre a mesma coisa, sempre com medo de tudo. Eu sabia que a Cidade de Deus não era o lugar mais seguro do mundo, mas também não era esse bicho de sete cabeças que todo mundo pinta. Ou pelo menos eu achava que não era.
Mais tarde, quando fui pegar uma água na cozinha, vi Brenda na porta do quarto, falando baixinho no celular. Eu não quis ouvir, mas ouvi mesmo assim.
— Sim, ele tá bem, dormindo agora... amanhã pode vir buscar, se der... não traz coisa cara, ele não precisa... tá, tá, até amanhã.
E desligou, suspirando, olhando pro nada, com aquela expressão que ela sempre tem quando fala com ele. Não é amor, não é raiva. É só... aceitação, acho. Ela sabe quem ele é, sabe onde ele vive, e mesmo assim deixa ele fazer parte da vida do filho. Eu não sei se eu conseguiria fazer isso. Mas Brenda é assim: firme, quieta, e ama o Biel mais do que qualquer coisa no mundo.
Naquela noite, deitada na cama, fiquei olhando pela janela, pra Cidade de Deus. Via as luzes acesas, ouvia o som de música vindo de longe, e pensava nos meninos que vi na entrada. Pensava no pai do Biel, na vida que ele leva, na vida que Brenda levou pra ter que lidar com tudo isso. E pela primeira vez, eu não pensei que lá era só perigo. Pensei que era um lugar cheio de gente, cada um com a sua história, e que talvez eu soubesse muito menos do que eu achava.
Já tava deitada com o celular na mão quando o telefone tocou. Era a Luiza, minha amiga da escola.
— Ei, Paloma! Tá fazendo o quê? — falou animada do outro lado.
— Nada, deitada. Por quê?
— Queria te chamar aqui em casa, bora? Tô com um monte de besteira pra comer e a gente pode ver filme. Vem?
BINABASA MO ANG
Cidade de Deus
FanfictionPaloma, 17 anos, filha de policial, cresceu vendo a Cidade de Deus como perigo. Kaio, 18, nasceu lá e conhece cada regra do lugar. Dois mundos separados por um muro - ela chega com orgulho, ele a encara sem medo. Entre desconfianças e descobertas, d...
