Capítulo 1 - O Fantasma nos Telhados

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Paris não dormia mais em paz.

Adrien Agreste sabia disso melhor do que ninguém, porque era ele quem vasculhava os telhados da cidade toda noite, desde que tudo tinha ruído. Como Cat Noir, ele conhecia cada gárgula, cada chaminé, cada centímetro de zinco molhado entre a Torre Eiffel e o Sena - e mesmo assim, três meses depois da batalha contra Chrysalis, ainda sentia que não conhecia Paris o suficiente. Não da forma que precisava conhecer agora. Não o suficiente para encontrar o que tinha se perdido.

Ele se lembrava de tudo com uma nitidez cruel. O céu rachado ao meio por energia púrpura. Os prédios cedendo como se fossem feitos de papel. E Ladybug - sua Ladybug, embora ele nunca tivesse tido o direito de chamá-la assim - de joelhos no meio dos escombros, o Miraculous da joaninha brilhando de um jeito que ele nunca tinha visto antes, um brilho que doía nos olhos de tão intenso. Ela tinha usado tudo. Cada grama de sorte que aquele brinco guardava, cada fragmento de poder que um kwami podia emprestar a uma humana, ela tinha jogado contra Chrysalis sem hesitar um segundo.

E então ela simplesmente... apagou.

Não tinha morrido. Isso era o único fio que Cat Noir se permitia segurar, a única corda que o impedia de despencar de vez. Coma, disseram os médicos que examinaram a garota anônima encontrada desacordada perto do Trocadéro, sem transformação, sem miraculous, apenas uma adolescente que aparentemente tinha sido pega no meio do desastre como tantas outras vítimas. Ninguém suspeitou. Ninguém olhou duas vezes para aquela garota sem identificação que agora vivia ligada a máquinas em algum quarto de hospital que Cat Noir nunca conseguiu descobrir, por mais que tivesse esgotado cada favor, cada contato, cada beco escuro de informação que Paris tinha para oferecer.

Ele tinha perdido a Ladybug duas vezes. Primeiro, o miraculous, que sumiu junto com o corpo dela, provavelmente arrancado por algum socorrista desavisado ou caído entre os escombros, entregue ao acaso mais cruel que existia. Depois, a garota por trás da máscara - presa em algum lugar que ele não conseguia alcançar, respirando, mas ausente.

E fora isso, ele tinha perdido a cidade. Porque sem o talismã da joaninha, sem aquele "Miraculous Ladybug" que consertava tudo com um gesto de mãos cobertas de luz rosa, Paris tinha que se reconstruir do jeito difícil. Tijolo por tijolo. Família por família.

Cat Noir aterrissou em silêncio no topo de um prédio antigo perto do Métro, as garras do traje raspando de leve na pedra molhada pela chuva recente. A lua cheia pendia enorme sobre a cidade, banhando os telhados de um branco frio, e ele ficou ali, apoiado na mureta, olhando para o horizonte iluminado. Suas orelhas felinas se moveram devagar, captando os sons noturnos - carros distantes, uma sirene em algum lugar, o vento entre as antenas.

Ele estava caçando de novo. Não como herói, mas como alguém desesperado. Sabia que era loucura pensar que ia encontrar o brinco perdido só andando por aí feito um gato sem dono, mas era a única coisa que ainda fazia sentido fazer. A alternativa era ficar parado, e ficar parado significava pensar. E pensar demais, ultimamente, doía demais.

Foi então que ele viu.

Um lampejo vermelho cortando o céu entre dois prédios, rápido demais para ser um erro de visão, rápido demais para ser qualquer coisa banal. Cat Noir se ergueu na hora, todo o corpo em alerta, o coração batendo descompassado por um motivo que ele ainda não ousava nomear.

Ele seguiu o rastro.

Encontrou-a a três quarteirões dali, equilibrada na beirada de um telhado com a mesma naturalidade de quem tinha nascido ali em cima. De costas para ele, contra o fundo alaranjado do pôr do sol que ainda teimava em não desaparecer completamente no horizonte, havia uma silhueta que fez o mundo de Cat Noir parar de girar por um segundo inteiro.

O traje era vermelho e preto - não exatamente o dela, não exatamente o de Ladybug, mas próximo o suficiente para doer. Escamas finas cobriam cada centímetro, desenhando um padrão de pintas que se estendia dos ombros até a cintura, onde a pele aparecia entre as tiras do traje, uma tatuagem em kanji marcando a lateral do abdômen. Uma trança negra e longa balançava com o vento, presa em cachos apertados que desciam quase até a cintura. No cinto, dois yo-yos vermelhos com bolinhas pretas - dois, não um - pendiam como se fossem extensões naturais do corpo dela.

Ela se virou.

E Cat Noir esqueceu como respirar.

Não era Marinette. Não era ninguém que ele reconhecesse - pele dourada pelo sol, traços fortes, um olhar que carregava um peso que não combinava com o rosto jovem por baixo da máscara vermelha bicolor que cobria a região dos olhos. Mas o Miraculous. Os brincos. O yo-yo. Tudo ali gritava a mesma origem, a mesma essência que ele tinha visto brilhar mil vezes nas mãos de outra pessoa.

- Quem... - a voz dele saiu rouca, quebrada de um jeito que ele não esperava. - Quem é você?

A garota o encarou por um longo momento, o vento brincando com as pontas soltas de cabelo em volta do rosto dela. Havia algo na postura, na forma como ela segurava o corpo, pronta para saltar a qualquer segundo, que dizia que ela não tinha medo dele. Nem um pouco.

- As pessoas andam me chamando de Scarlet Bug - ela respondeu, e havia um sotaque de firmeza na voz que não deixava espaço para dúvida, como se ela já tivesse decidido, muito antes daquele encontro, exatamente quem era. - E você deve ser o famoso Cat Noir que anda vasculhando cada telhado de Paris feito um gato perdido.

Ele sentiu o peito apertar. Ela sabia dele. Claro que sabia - a cidade toda sabia do Cat Noir sozinho, o herói que continuava de patrulha mesmo sem parceira, mesmo sem esperança visível. O que doía era o jeito como ela disse aquilo, quase com pena.

- Como você conseguiu o Miraculous? - ele perguntou, dando um passo à frente, as garras se fechando de leve em punhos que ele não sabia bem por que estava cerrando. - Onde você o encontrou?

Algo cruzou os olhos dela, rápido demais para ele identificar bem à distância. Não era hesitação. Era outra coisa. Cuidado, talvez. Ou dor guardada em algum lugar fundo demais para transparecer no rosto.

- Isso é uma história pra outra noite, gatinho - ela disse, e o apelido saiu tão natural, tão parecido com o jeito que *ela* costumava chamá-lo, que Cat Noir sentiu o chão balançar sob os pés. - Por enquanto, só precisa saber de uma coisa.

- Qual?

Scarlet Bug girou um dos yo-yos entre os dedos, o fio vermelho cortando o ar com um zunido preciso, controlado, de quem já tinha feito aquele movimento centenas de vezes - impossível para alguém que tivesse acabado de pegar o Miraculous.

- Paris tem uma Ladybug de novo - ela disse, os olhos brilhando com algo entre desafio e promessa. - E eu não vou deixar cair de novo.

Antes que ele pudesse responder, antes que pudesse sequer processar o peso daquela frase - *de novo*, como se ela soubesse, como se ela entendesse exatamente o que tinha sido perdido - ela já tinha lançado o yo-yo contra uma chaminé distante e saltado no vazio, o traje vermelho desaparecendo entre as sombras dos telhados parisienses com uma graça que não deveria ser possível para alguém tão nova naquilo.

Cat Noir ficou parado ali, o coração ainda acelerado, os olhos fixos no ponto onde ela tinha sumido.

Pela primeira vez em três meses, ele não sabia se o que sentia no peito era esperança ou terror.

Talvez fosse as duas coisas ao mesmo tempo.









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Vc pode trocar a aparência da personagem se quiser 🤧

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⏰ Last updated: Aug 30 ⏰

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