The Edge of the Frame
Capítulo 1 — O Peso das Páginas Recusadas
O vento que vinha do Lago Ontário tinha um jeito cruel de encontrar exatamente as frestas da minha jaqueta, como se soubesse onde eu era mais fraco. Eram sete e quarenta da manhã e eu já estava na Queen Street West, esperando o bonde 501 com as mãos enfiadas fundo nos bolsos e o queixo escondido dentro do cachecol que minha avó tinha tricotado antes de morrer. Toronto em novembro não perdoa ninguém, e muito menos um escritor de vinte e nove anos que ainda não conseguiu vender um único livro para uma editora de verdade.
Meu nome é Arthur Vance. As pessoas mais próximas me chamam de Art, mas isso é um exagero, porque eu não tenho tantas pessoas próximas assim. Eu escrevo. Ou melhor, eu tento escrever, porque escrever de verdade — daquele jeito que paga o aluguel — ainda não aconteceu para mim. Já publiquei dois livros de forma independente, pequenas tiragens que vendi principalmente para conhecidos e para uma dúzia de estranhos generosos que encontraram minha página numa madrugada de insônia. Não é fama. Não é nem sustento. É só a prova de que eu não inventei essa vontade de escrever, que ela é real, mesmo que ninguém além de mim pareça acreditar nisso com convicção total.
O terceiro livro é outra história. Esse eu não quis lançar sozinho. Esse eu queria que tivesse um selo editorial atrás, um nome que desse peso à capa, uma distribuidora que colocasse o livro numa prateleira de verdade, não só num site de vendas obscuro. Já mandei o manuscrito para editoras pequenas — não são editoras independentes, tem gente trabalhando lá, tem catálogo, tem escritório —, mas são pequenas o suficiente para responderem pessoalmente, o que de certa forma é pior, porque a rejeição vem sempre com um toque de gentileza que dói mais do que um silêncio frio.
Dez rejeições. Contei todas. Guardei todas num arquivo que chamo, sem nenhuma criatividade, de "Não Ainda". Um dia, se alguma dessas editoras disser sim, talvez eu mude o nome da pasta. Até lá, "Não Ainda" segue crescendo.
O bonde chegou com um chiado de metal gelado e eu entrei, ocupando meu lugar de sempre perto da janela embaçada. Trabalho na Page & Ember, uma livraria de dois andares na esquina da Harbord com a Spadina, perto o suficiente da Universidade de Toronto para vivermos de estudantes desesperados por um exemplar barato de segunda mão, e longe o suficiente do centro para não sermos engolidos pelas grandes redes. É um trabalho simples: organizar prateleiras, recomendar livros, cobrar no caixa, empacotar pedidos que chegam pelo site. Não é glamouroso. Mas cada manhã, quando destranco a porta e o sino de latão bate contra o vidro, eu sinto uma espécie de paz que não encontro em mais lugar nenhum.
Quando cheguei, Priya já estava lá, ajoelhada perto da seção de ficção literária, organizando uma pilha de livros que tinham chegado na noite anterior.
—Você está atrasado três minutos, Arthur — disse Priya, sem tirar os olhos da pilha, um sorriso pequeno escondido no canto da boca.
—O bonde 501 discorda de você — disse eu, tirando o cachecol e pendurando a jaqueta no gancho atrás do balcão. — Ele tem outra opinião sobre pontualidade.
—O bonde 501 sempre tem desculpa pronta. Você também.
Priya Anand trabalha comigo há quase dois anos. Ela está terminando o mestrado em Literatura Comparada e divide os turnos da livraria com as aulas, sempre carregando um caderno cheio de anotações que ela nunca me deixa ler de perto. Tem esse jeito de falar rápido e direto, sem rodeios, que no começo eu confundi com grosseria e depois entendi que era só honestidade sem verniz.
—Alguma notícia da editora Fenwick? — perguntou Priya, finalmente erguendo o olhar para mim, curiosidade genuína na testa franzida.
Fiquei quieto por um segundo, ajeitando os livros que ela tinha organizado, como se isso fosse me dar tempo de formular uma resposta que doesse menos.
—Chegou um e-mail ontem à noite — disse eu, sem muita emoção na voz. — Agradeceram a confiança, disseram que o texto tem "voz interessante", mas que não é bem o que eles estão procurando no momento.
—Isso é rejeição número...?
—Dez — disse eu, forçando um meio sorriso que não convencia nem a mim mesmo. — Dez rejeições, Priya. Estou pensando em mandar currículo para virar contador. Pelo menos números não fingem gentileza antes de dizer não.
—Contadores também dizem não o tempo todo — disse Priya, voltando a se abaixar para pegar mais livros da caixa. — "Não, você não pode deduzir isso." Nada muda, Arthur. Você só troca de rejeição.
Eu ri, um pouco sem vontade, mas ri. Era exatamente esse tipo de comentário seco que fazia Priya suportável nas manhãs mais difíceis.
O sino da porta bateu de novo e Marcus entrou, carregando duas caixas de papelão empilhadas quase até o queixo, o cabelo grisalho bagunçado pelo vento lá fora.
—Alguém pode abrir a porta dos fundos antes que eu derrube isso tudo no chão? — perguntou Marcus, a voz abafada por trás das caixas, um misto de urgência e resignação, como um homem que já sabe que ninguém vai correr para ajudá-lo a tempo.
—Já vou — disse eu, correndo até os fundos para destrancar a porta do estoque.
Marcus Hail é o dono da Page & Ember. Comprou o espaço há quinze anos, quando ainda era uma oficina de bicicletas abandonada, e transformou tijolo por tijolo até virar a livraria que é hoje. Tem um jeito calmo de falar, quase professoral, e uma paciência com os clientes que eu ainda não consegui imitar direito.
—Obrigado, Arthur — disse Marcus, depositando as caixas sobre a mesa do estoque com um suspiro de alívio, os ombros relaxando visivelmente. — Chegaram os pedidos da distribuidora. Tem uma remessa nova de poesia canadense ali, se você quiser dar uma olhada antes de colocarmos na prateleira.
—Vou olhar sim — disse eu, já curioso, abrindo a primeira caixa com cuidado, como se dentro dela pudesse haver alguma resposta para as minhas próprias perguntas sem resposta.
—E antes que eu esqueça — disse Marcus, parando na porta do estoque, o tom mudando para algo mais sério, quase paternal. — Como está indo a procura por editora?
Suspirei, sem conseguir esconder o cansaço na voz.
—Dez rejeições até agora — disse eu, encostando-me na mesa. — Todas educadas, todas com aquele parágrafo padrão sobre "não se encaixar no catálogo atual". Estou começando a achar que o problema não é o catálogo delas, é o livro.
—Ou talvez você só não tenha encontrado a editora certa ainda — disse Marcus, cruzando os braços, o olhar sério mas gentil. — Eu vendo livros há quinze anos, Arthur. Vi manuscritos incríveis levarem anos para encontrar casa. E vi coisas medianas virarem best-seller só porque bateram na porta certa no dia certo.
—Isso deveria me consolar? — perguntei, um sorriso triste escapando.
—Não. Deveria só te lembrar que rejeição não é a mesma coisa que fracasso — disse Marcus, batendo de leve no ombro da caixa antes de sair de volta para o salão principal.
Passei a manhã entre a organização da nova remessa e o atendimento ao balcão. Toronto tem esse jeito silencioso de mostrar as estações através das pessoas que entram na loja: em novembro, os clientes vêm com os casacos mais pesados, os narizes vermelhos, procurando por livros que combinem com tardes curtas e escuridão cedo. Uma senhora de cabelos brancos pediu recomendação de romance histórico. Um estudante perguntou, quase desesperado, se tínhamos algum exemplar usado e barato de um livro de filosofia que custava o dobro na loja da universidade. Encontrei um por ele, com quinze dólares de desconto, e o sorriso de alívio no rosto do garoto valeu mais do que qualquer comissão que eu pudesse ganhar.
Na hora do almoço, sentei atrás do balcão com um sanduíche que eu mesmo tinha preparado em casa, e Priya se juntou a mim, puxando um banco.
—Posso ler o começo do livro novo? — perguntou Priya, os olhos brilhando de curiosidade genuína, sem nenhuma pressão na voz.
—Você sempre pergunta isso e eu sempre digo que não está pronto — disse eu, mastigando devagar, ganhando tempo.
—E um dia você vai dizer sim — disse Priya, dando de ombros, sem se ofender. — Só estou mantendo o hábito vivo.
—Talvez quando alguém além de mim achar que ele merece existir de verdade — disse eu, olhando para o teto por um segundo, como se lá em cima houvesse alguma resposta escondida entre os canos visíveis do estoque antigo.
—Alguém acha, Arthur — disse Priya, séria de repente, o tom perdendo toda a ironia costumeira. — Eu acho. Você só não confia em mim porque eu sou sua colega de trabalho, não uma editora de Nova York.
—Não é sobre confiar em você — disse eu, sentindo o peito apertar um pouco. — É sobre não aguentar mais uma pessoa dizendo que gosta e depois isso não significar nada no mundo real. Já cansei de elogios que não pagam aluguel, Priya.
Ela ficou em silêncio por um instante, mastigando a própria comida, os olhos fixos em algum ponto distante da loja.
—Isso é meio triste, sabia? — disse Priya, finalmente, com uma suavidade que raramente aparecia na voz dela. — Você transformou até elogio em fardo.
Não respondi na hora. Só balancei a cabeça, meio concordando, meio discordando, sem saber exatamente qual das duas coisas era mais verdadeira.
A tarde passou devagar, como sempre passa em novembro, com o céu escurecendo cedo demais e as luzes amarelas da livraria ficando mais quentes em contraste com o azul gelado lá fora. Perto das cinco, meu celular vibrou no bolso. Era uma mensagem de Devon, meu melhor amigo desde a faculdade, perguntando se eu tinha tempo para um café rápido antes de eu voltar para casa.
Terminei meu turno às seis, me despedi de Priya e de Marcus, vesti a jaqueta e o cachecol da minha avó, e caminhei duas quadras até o pequeno café onde Devon já estava sentado perto da janela, o vapor da bebida dele subindo entre nós quando eu me sentei.
—Você parece um homem que recebeu mais uma carta de rejeição — disse Devon, sem rodeios, o tom brincalhão tentando disfarçar a preocupação real por trás da observação.
—Porque eu recebi — disse eu, tirando o cachecol e jogando-o displicente na cadeira ao lado. — Dez, Devon. Dez editoras pequenas, todas educadas, todas dizendo essencialmente a mesma coisa com palavras diferentes.
—E o que você vai fazer? — perguntou Devon, inclinando-se para frente, os cotovelos na mesa, o olhar sério apesar do tom leve de antes.
—Mandar para a décima primeira — disse eu, dando de ombros, tentando soar mais confiante do que realmente estava. — O que mais eu vou fazer? Desistir não é uma opção que eu saiba usar direito.
—Isso é meio o seu problema e a sua virtude ao mesmo tempo — disse Devon, um sorriso torto se formando, misto de admiração e cansaço por mim. — Você é teimoso até demais para desistir e ansioso demais para descansar.
—Bem-vindo à minha vida — disse eu, finalmente sorrindo de verdade, o primeiro sorriso genuíno do dia.
Ficamos ali por mais uma hora, falando sobre nada em particular — o trabalho novo de Devon numa empresa de arquitetura, os planos duvidosos dele de correr uma maratona na primavera, as fofocas inofensivas do bairro. Era esse tipo de conversa simples que me lembrava que existia vida fora das rejeições, fora das páginas em branco, fora da ansiedade silenciosa de estar sempre esperando por uma resposta que talvez nunca viesse do jeito que eu queria.
Quando saí do café, a noite já tinha engolido completamente a tarde, e a neve começava a cair fina sobre a Spadina Avenue, pousando devagar nos ombros dos poucos pedestres que ainda circulavam pelas calçadas. Caminhei até a parada do bonde com as mãos enfiadas nos bolsos outra vez, pensando no manuscrito guardado na pasta "Não Ainda" do meu computador, pensando nas dez cartas de rejeição empilhadas como provas de um fracasso que eu ainda me recusava a aceitar como definitivo.
Eu não sabia, naquela noite fria de novembro, que a décima primeira resposta que eu estava esperando não viria de editora nenhuma. Viria de um lugar completamente diferente, um lugar que eu nem sabia que estava procurando.
Mas isso é uma história para outro dia.
The Edge of the Frame
Fim do Capítulo 1 — O Peso das Páginas Recusadas
CZYTASZ
The Edge of the Frame
RomansThe Edge of the Frame Arthur Vance é um escritor independente que trabalha numa pequena livraria em Kensington Market, Toronto, acumulando rejeições editoriais e sonhos adiados. Quando é contratado como consultor de escrita para Isla Cross - uma das...
