Highway to Hell

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John, o homem loiro e magro, de altura média, embaixo de um sobretudo beje surrado, tragou o resto de seu Silk Cut amarfanhado, soltando a fumaça acinzentada diretamente na cara entalhada e imperturbável do velho mandingueiro a sua frente. Papa Midnite. O ar do escritório reservado no fundo do clube cheirava a charutos cubanos caros, rum envelhecido e o fedor inconfundível de enxofre residual que teimava em grudar nas dobras do sobretudo desgastado de John.
- É pouco? - Constantine deu uma risadinha seca, desdenhosa, jogando a bituca acesa no assoalho de madeira polida e esmagando-a sem a menor cerimônia com o calcanhar da bota. - Midnite, meu velho amigo, eu acabei de arrancar aquele desgraçado de três cabeças de dentro do seu cofre sem estragar o revestimento de veludo. Você tem noção do que é banir um lorde do inferno usando só um pedaço de giz cego e um amuleto que comprei por cinco libras num mercado de pulgas em Camden?
Midnite nem sequer piscou. Suas mãos espessas, cobertas de anéis de ouro pesado encravados com runas antigas de proteção e vingança, continuaram espalmadas sobre a mesa de mogno. O olhar do imortal carregava séculos de cansaço acumulado e uma desconfiança cirúrgica.
- Você me trouxe o coração do demônio em um saco de papel, John, mas deixou metade da minha adega reduzida a cinzas sagradas - rebateu Midnite, a voz grave ressoando como um tambor distante no peito de Constantine. - O contrato dizia para limpar a infestação sem chamar atenção. Agora tenho dois informantes do submundo jurando que viram uma fenda do abismo aberta atrás do meu balcão. Controle de danos custa caro no meu ramo.
- Detalhes burocráticos - desdenhou o mago bretão, enfiando as mãos nos bolsos e se reclinando na cadeira de couro. - O que importa é que a sua pendência com a dinastia de sangue tá resolvida, e aquele pacto antigo que você fez na Jamaica não vai mais morder sua bunda imortal. Se quiser que eu limpe a poeira da sua adega, o preço dobra. Mas por agora, você vai me servir uma dose decente do seu melhor uísque e fingir que tem um pingo de gratidão.
Midnite encarou o inglês em silêncio por longos segundos. A magia vodu estalava no ar entre eles, densa e perigosa como uma tempestade prestes a desabar. Por fim, o velho puxou uma gaveta secreta na mesa e deslizou um pequeno frasco de vidro escuro selado com cera vermelha na direção de John.
- Pegue a essência e suma do meu clube - disse Midnite, a voz caindo para um sussurro perigoso. - E se você aparecer em Nova York antes do próximo eclipse, Constantine... eu mesmo leiloo o resto da sua alma pro diabo que der o maior lance.
John estendeu a mão para pegar o frasco escuro, mas antes que seus dedos tocassem o vidro, a gaveta de mogno fechou-se com um estalo seco, guilhotinando o ar. O velho mandingueiro não se mexeu um milímetro, mas a aura ao seu redor mudou drasticamente. A irritação burocrática deu lugar a um sorriso lento, antigo e terrivelmente satisfeito.
- Pensando bem, John... há uma conta muito antiga que passou da hora de ser auditada.
Constantine suspirou, rolando os olhos enquanto tateava o bolso atrás de outro cigarro. - Ah, pelo amor de Deus, Midnite. Não me venha com aquela palhaçada do ritual em Soho. Eu já te disse que a adaga-
- Não me refiro a bugigangas, Constantine - interrompeu o velho, a voz baixando para um tom rasgado, carregado de uma autoridade negra. - Refiro-me ao pacto de sangue que selamos no Solstício de Inverno. Aquele que você ofereceu quando precisava desesperadamente da minha ajuda para não ser arrastado direto para o inferno.
O corpo de John congelou por uma fração de segundo. A faísca do seu isqueiro Zippo morreu no ar antes de acender o fumo.
- Você tá caducando, velho - murmurou John, a voz perdendo o tom debochado, embora tentasse desesperadamente manter a pose. - Nós dois sabíamos que aquela cláusula era uma piada. Eu te ofereci a minha linhagem. O meu primogênito. Eu ri na sua cara porque a linhagem dos Constantine é uma maldição podre e eu nunca seria pai de ninguém. O contrato era nulo por falta de matéria-prima.
- Era - concordou Midnite, inclinando-se lentamente sobre a mesa. O amuleto de osso em seu pescoço começou a pulsar com uma luz avermelhada e doentia, refletindo no olhar subitamente acuado de John. - Até exatamente quarenta minutos atrás, quando a marca de sangue no meu grimório começou a queimar. A magia de sangue não erra, Constantine. O contrato só acorda quando a semente germina.
O silêncio que desabou no escritório foi mais pesado do que qualquer feitiço de banimento. O Zippo escorregou dos dedos frios e suados de John, caindo no tapete sem fazer barulho.
- O que você tá dizendo, seu desgraçado? - a voz de John falhou, um sussurro rouco banhado por um pavor genuíno que há anos ele não sentia.
- Estou dizendo que a sua noiva não está apenas te esperando em casa - o sorriso de Midnite era puro veneno ancestral. - Há um segundo coração batendo dentro dela neste exato momento. Um coração carregando o seu sangue amaldiçoado. E pela lei do nosso pacto... a criança já pertence a mim antes mesmo de ver a luz do dia.
O sangue de John gelou de um jeito que nem as chamas mais profundas do Inferno conseguiram fazer. O cigarro apagado entre os dedos escorregou para o chão. A imagem de sua noiva - sorrindo em casa, ignorante do pesadelo que carregava no ventre - atravessou sua mente como uma lâmina incandescente. Por anos, Constantine jogou com as almas dos outros, barganhou com demônios, sacrificou amigos e enganou a própria Morte. Mas aquilo era o seu próprio sangue. Era a única coisa que ele jurou que jamais traria a este mundo miserável.
- Você está mentindo. - A voz de John não passou de um grunhido rasgado, mas o ar ao redor de sua mão direita começou a contorcer. Fumaça negra e faíscas de magia profana emergiram de suas juntas. Ele deu um passo à frente, debruçando-se sobre a mesa de mogno com os olhos cravados no voduísta. - Diga que é uma das suas trapaças imundas, Midnite. Diga agora, antes que eu transforme este clube num cemitério e use a sua espinha como gravata.
Papa Midnite não recuou um milímetro. Ele apenas ergueu uma das mãos, e o frasco selado com cera vermelha sobre a mesa começou a pulsar no mesmo ritmo acelerado de um coração recém-formado. Um ritmo frágil, novo e absolutamente indefeso.
- A magia do sangue não aceita blefes, Constantine. O contrato está ativo - respondeu Midnite, a voz grave como uma sentença divina. - O selo se alimentou da vida que germinou nela. Você pode me matar aqui e agora, mas a maldição gravada na linhagem daquela criança não vai desaparecer. Ela já nasce prometida ao meu altar.
John fechou os punhos com tanta força que as unhas perfuraram a pele de suas palmas. O cheiro de enxofre no ar deu lugar ao odor metálico de seu próprio sangue caindo sobre o tapete. Ele não era um herói; nunca foi. Ele era um desgraçado egoísta que sobrevivia custasse o que custasse. Mas a ideia de um filho seu acorrentado aos caprichos de Papa Midnite despertou um ódio ancestral no mago.
- Se encostar um único dedo nela... ou naquilo que está lá dentro... - John recuou devagar, ajeitando a gola do sobretudo desgastado enquanto a sombra de seu rosto escondia o horror em seus olhos. - Eu vou arrebentar os portões do Inferno, do Céu e de qualquer lugar intermediário pra garantir que você se arrependa de ter nascido. E você me conhece, Midnite... eu sempre dou um jeito de trapacear o diabo.

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