O garoto acordou de sobressalto. Estava tudo escuro, mas pelo cheiro, ele sabia que estava em algum tipo de contêiner de metal. Fedia a óleo queimado e ferro. Tudo estava confuso. "Meu nome é Thomas, sou um lobo", pensou. Ele lembrava de coisas básicas; conseguia imaginar a neve caindo sobre uma árvore, mas falhava ao tentar descobrir mais sobre si mesmo ou como havia acabado ali.
De repente, a caixa de metal deu um grande solavanco e começou a subir como um velho elevador de mina. Sons ásperos de correntes e polias o cercavam. Thomas sentiu os olhos arderem e o peito apertar de medo.
Pela sua percepção, passou-se meia hora até que a caixa desse um novo tranco, finalmente parando. Nesse tempo de espera, o medo havia passado e, em seu lugar, crescia uma enorme curiosidade.
Um rangido estridente sobre sua cabeça o assustou. Antes mesmo de abrirem as portas, ele conseguia escutá-los: um grupo de garotos. Thomas não sabia quantos, mas pareciam muitos. Portas duplas de correr foram abertas bruscamente. Após tanto tempo na escuridão, a luz feria seus olhos. Ele desviou o olhar e cobriu o rosto. Thomas ouvia claramente as vozes acima zombando dele.
- Veja só o trolho!
- Quantos anos será que ele tem?
- Plong é você, cara de mértila.
- Tomara que tenha gostado do passeio só de vinda, fedelho.
- Não tem passagem de volta.
Ele foi tomado por uma onda de confusão, dominado pelo pânico. Algumas palavras ele não sabia oque significava, forçou os olhos para ver melhor acima, primeiro viu sombras, mas logo seus olhos focaram e ele viu os rostos dos garotos, eles estavam olhando para baixo em sua direção e apontando.
Alguém jogou uma corda lá de cima com um grande laço. Thomas hesitou, mas logo colocou o pé no laço e o içaram no ar.
Assim que seus pés tocaram a grama, o mundo explodiu nos seus sentidos, não foi apenas o sol que o atingiu, foi o cheiro. O ar estava impregnado de terra, suor e metal, mas, por baixo de tudo isso, havia algo mais profundo. Algo que fez os pelos dos seus braços se arrepiarem instantaneamente.
Pinheiro, almíscar e aquele aroma selvagem inconfundível. Lobos.
Eles não eram apenas garotos estranhos usando roupas gastas. Eram como ele. O som de dezenas de batimentos cardíacos pesados e constantes ecoou em seus ouvidos. Uma alcateia inteira o cercava.
Um dos garotos deu um passo à frente. Ele era alto, tinha os braços cruzados e um olhar duro que exalava o cheiro de domínio, de um líder protegendo seu território. O lobo dentro de Thomas rosnou em alerta, sentindo-se brutalmente encurralado. A curiosidade de minutos atrás evaporou, sendo engolida pelo puro pânico gelado. Ele era um intruso, estava em desvantagem, tudo dentro dele gritava: perigo.
Antes que qualquer um deles pudesse dizer mais alguma coisa ou estender a mão, o pânico tomou o controle. Thomas não pensou. Apenas girou sobre os calcanhares e se transformou, sentiu seus ossos quebrando e se remendando em forma de lobo, com um salto abriu caminho contra quem estava na frente e disparou a correr, o coração martelando no peito, em direção à única rota de fuga que seus olhos captaram: a fresta gigantesca entre os muros de pedra. Os garotos gritavam e assobiavam às suas costas, zombando. Thomas não correu muito, pois foi interceptado por dois outros lobos, grandes, de pelos negros, que o prenderam no chão, dentes à mostra, com rosnados ecoando na garganta.
- Acalme-se, novato, não vamos te machucar.
O garoto alto, o alfa, se aproximou devagar e falou calmamente, mas Thomas não acreditou nem por um segundo. Começou a olhar em volta desesperadamente em busca de uma rota de fuga, rosnando ferozmente, as garras cavando a terra úmida enquanto seus músculos se retesaram para lutar até a morte.
Até que o vento mudou.
Por baixo do cheiro de suor, terra e do almíscar agressivo dos lobos que o prendiam, um aroma completamente novo invadiu suas narinas. O cheiro cortou a névoa do seu pânico como uma lâmina. Não era o cheiro de um predador, nem de uma ameaça. Era... Lar. Cheirava a terra molhada por uma chuva de verão, baunilha e madeira.
O rosnado ensurdecedor de Thomas morreu em sua própria garganta.
Uma nova figura se separou do círculo de garotos, dando um passo à frente e caindo de joelhos na grama. Thomas travou os olhos nele e, de repente, o tempo pareceu desacelerar até quase parar. O mundo ao redor, a voz do alfa, o peso dos dois lobos em suas costas, as imensas paredes de pedra do lugar, tudo perdeu o foco e a cor, como se tivesse sido sugado para um vácuo.
A única coisa nítida, a única coisa que importava em todo o universo, era o garoto loiro de olhos escuros que o encarava de volta.
No instante exato em que seus olhares se cruzaram, Thomas sentiu um baque surdo no peito. Foi como se a própria gravidade da Terra tivesse mudado de eixo, soltando-o do chão e prendendo-o diretamente àquele garoto. O pânico cego e o instinto de sobrevivência evaporaram no ar. Em seu lugar, um calor inebriante e reconfortante se espalhou por suas veias, ligando-os por cabos de aço invisíveis.
O lobo furioso e encurralado dentro da mente de Thomas silenciou no mesmo segundo, curvando-se em uma devoção absoluta e pacífica. O instinto não gritava mais perigo. Gritava: Meu. Seguro. Âncora.
Parecia que horas haviam se passado enquanto os garotos estavam à deriva, perdidos no olhar um do outro, o universo inteiro perdeu o foco, o resto da alcateia era só um zumbido à sua volta. Seu corpo inteiro relaxou contra a terra, em uma rendição tão pacífica, que os lobos negros que o prendiam, trocaram olhares confusos, afrouxando levemente o peso que prendia Thomas no chão.
De repente o estupor se quebrou, uma mão grande e calosa desceu pesada sobre o ombro do garoto loiro, sacudindo-o levemente para tirá-lo do transe.
Foi como jogar um fósforo em um barril de pólvora.
No milésimo de segundo em que a mão de outro tocou o seu garoto, a submissão de Thomas virou cinzas. O instinto protetor rasgou sua mente com a força de um furacão, apagando qualquer traço de racionalidade humana. Restou apenas uma regra primordial: Meu.
Com um rugido ensurdecedor e bestial, Thomas explodiu. Ignorando completamente o pouco peso que ainda restava sobre suas costas, ele usou as patas traseiras para se ejetar do chão como uma mola. Dentes à mostra e olhos brilhando em pura fúria, ele avançou no ar como um míssil na direção de quem havia ousado tocar o garoto loiro, pronto para estraçalhar a sua garganta.
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Wolf Blood
FanfictionEle acordou no escuro, cercado pelo cheiro de ferro e óleo queimado. Sem memórias de seu passado ou de como foi parar naquela caixa de metal, Thomas tem apenas uma única certeza sobre si mesmo: ele é um lobo. Atenção: Essa história contém dinâmica d...
