Prólogo

18 0 0
                                        

A fumaça das batalhas havia, finalmente, se dissipado.

Depois de cem anos de sangue, alianças despedaçadas e cicatrizes profundas cravadas na terra e na alma de cada cidadão, o mundo finalmente respirava. As quatro Nações estavam em paz.

Porém, políticos e líderes sabiam de uma verdade amarga: a paz é frágil como vidro. Para garantir que ela não fosse apenas um respiro passageiro antes da próxima tempestade, reuniões secretas foram feitas, cartas foram trocadas e uma proposta nasceu nos corredores do poder.

Uma proposta considerada, ao mesmo tempo, um golpe de mestre e uma loucura absoluta.

Um casamento.

Mas não um casamento qualquer. Uma união que seria o pilar definitivo entre o Reino da Terra e a Nação do Fogo, silenciando rebeldes e unindo dois povos que passaram o último século se odiando.

Havia apenas um minúsculo, mas barulhento, problema.

Os noivos.

No Reino da Terra, a mansão da família Beifong estava imersa em um silêncio tenso. Toph estava esparramada em uma cadeira luxuosa, com os pés descalços apoiados sem a menor cerimônia sobre a mesa de mogno.

Ela podia "ver" a agitação do pai através das vibrações do chão. O coração de Lao Beifong batia rápido demais. Ele pigarreou, tentando encontrar coragem. Quando finalmente soltou a notícia, o ambiente pareceu congelar.

Toph não gritou de imediato. Ela apenas virou o rosto na direção dele, a expressão em branco.

— Você quer que eu me case... com o Senhor do Fogo? — Ela perguntou, a voz perigosamente baixa e incrédula, enquanto cruzava os braços.

— Com o Senhor do Fogo Zuko — Corrigiu seu pai, secando o suor da testa com um lenço de seda, tentando manter a compostura de patriarca. — É uma questão de diplomacia, Toph. Um dever com o mundo.

A garota soltou uma risada seca e sem humor. O chão de pedra sob a cadeira de Lao sofreu uma leve rachadura, fazendo-o engolir em seco.

— Continua sendo um cara rabugento que parece estar sempre prestes a explodir — Ela retrucou, o tom afiado como uma rocha afiada. — Eu derrotei o exército daquele povo, pai. Eu não vou virar enfeite de palácio de um cara que precisa de chá de camomila na veia.

Do outro lado do mundo, o clima não era muito diferente.

Zuko estava afundado em uma montanha de pergaminhos diplomáticos, a coroa pesando em sua cabeça e o cansaço marcando as olheiras sob seus olhos dourados. Reconstruir a honra de sua Nação estava sugando sua juventude.

Quando a porta pesada de carvalho se abriu, ele nem levantou o olhar. Mas o tom suave e decidido de sua mãe preencheu o silêncio do escritório.

— Os termos foram aceitos pelo conselho de Ba Sing Se e pela família Beifong — Ursa anunciou, parando diante da mesa do filho. — Você vai se casar.

O pincel na mão de Zuko parou no meio de uma assinatura. Ele ergueu os olhos lentamente, a mente processando a palavra casar como se fosse um idioma estrangeiro.

— Com quem? — Sua voz saiu áspera.

— Toph Beifong.

Silêncio. Um silêncio denso e sufocante que durou tempo demais. Zuko piscou, o olho bom e o da cicatriz se arregalando levemente.

— A garota... — Zuko começou, hesitante — A garota que derrubou uma parede inteira com os pés porque a comida estava sem sal na última visita diplomática?

Ursa suspirou, um sorriso culpado e solidário nos lábios.

— Essa mesma.

Zuko largou o pincel. Ele pressionou os dedos nas têmporas e passou a mão pelo rosto, soltando um longo e exausto suspiro. Uma pequena chama de frustração escapou por suas narinas.

Aquilo não poderia estar acontecendo.

Dois dominadores letais.
Duas personalidades perfeitamente impossíveis.
Duas pessoas que preferiam marchar de peito aberto contra um exército inimigo a admitir que precisavam dividir sua vida com alguém.

Agora, sob os olhos de um mundo que os via como heróis, eles estavam destinados a dividir o mesmo teto, a mesma coroa e a mesma cama. O evento que pararia o mundo estava marcado para dali a exatos três meses.

Nenhum dos dois pretendia facilitar as coisas. Eles lutariam, teimosos até o fim.

Mas talvez o destino e os espíritos tivessem escolhido justamente esses dois por um motivo. Porque, em meio a tanto caos e diferenças, havia algo que nenhuma das Nações poderia prever.

Às vezes, a paz precisa começar com uma guerra.

E, neste caso, ela começaria entre Toph Beifong e Zuko.

Com o tempoHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora