A lua cheia está alta no céu noturno enquanto a brisa fria do outono sopra suavemente e balança as cortinas de um quarto tomado pelo calor e pelos gemidos abafados de um casal em pleno ato sexual. Os lençóis finos de cetim colados no colchão pelo suor de ambos ilustram a intensidade do prazer que eles compartilham.
Apertando firmemente os lençóis enquanto os cabelos longos e brancos se espalham pelo travesseiro e o corpo balança a cada investida de seu parceiro contra seu corpo, encontra-se Cordelia, a orgulhosa e severa princesa de Valimar. Seu parceiro sexual é Hector, um dos guardas reais do castelo, ou melhor, o guarda pessoal da princesa. Há algum tempo, para saciar as vontades da princesa, Hector tem sido secretamente seu parceiro sexual constante. Ou melhor, o único. O pai de Cordelia, o rei Alto é igualmente orgulhoso e severo, mas frequentemente desafiado pela filha, que se recusa a seguir os protocolos da realeza.
—Não me olhe assim. —Disse Cordelia, após o coito. —Já disse inúmeras vezes que você está proibido de se apaixonar por mim. Lembre-se de que o que fazemos é segredo. Você pode ser decapitado se meu pai descobrir. E eu não interviria a seu favor.
A princesa se levanta, jogando os longos cabelos brancos para trás e caminhando sensualmente até suas roupas jogadas no chão. Após apanhar as roupas do carpete, ela fita Hector com o olhar frio de sempre e diz com um tom direto e sem humor:
—Agradeço-lhe por ter me servido bem como sempre. Agora vista-se e retome seu posto do lado de fora dos meus aposentos, você não tem permissão para dormir ao meu lado.
Ainda que tristemente, o guarda pessoal da princesa obedeceu. Ele se levantou da cama e se vestiu com certa pressa, colocando na cintura sua espada e na cabeça seu elmo.
—Perdoe-me, alteza. —Começou ele, antes de sair pela porta. —Mas chegará o dia em que eu me cansarei de serví-la além de minhas obrigações para com a coroa de vosso pai, meu senhor. Este dia em questão pode tardar, mas quando vier, espero que vossa alteza não se arrependa.
Antes de sair, Hector acenou com a cabeça em reverência e deixou o quarto, fechando as portas dos aposentos da princesa com suavidade. Em seu olhar havia a mágoa de um coração partido que ainda lutava, mesmo fragilizado, para conquistar o amor daquela mulher tão fria e orgulhosa. Do lado de dentro do quarto, Cordelia fitava a porta fechada com o olhar pesado de culpa. Ela sabia que não estava sendo justa com Hector, mas pressentia que algo estava prestes a acontecer e que, se acontecer, machucará ainda mais o homem que ela sabe que tem nas mãos. Com um suspiro resignado, a princesa se dirigiu à sua suíte e despiu-se novamente, tendo decidido banhar-se antes de dormir.
No dia seguinte, durante o café da manhã, todos os empregados estavam de pé em volta da extensa mesa onde fora servido a refeição matinal, esperando por alguma outra ordem ou instrução do rei, que sem esperar pela filha, começara a comer vorazmente os bolos, o creme, mingau e tudo mais que havia sobre a mesa. Vinte minutos depois de começar a comer, Alto foi surpreendido pela figura da princesa, que adentrou a sala de jantar com um vestido vermelho-sangue e os cabelos presos numa única trança, tendo também na cabeça sua fiel tiara prateada que possuía no centro uma pedra brilhante de rubi. Cordelia, antes de se sentar, encarou os empregados e, com as mãos na cintura, dirigiu-se a eles.
—O que estão esperando? Vamos, sentem-se, sirvam-se e comam também.
Os empregados se assustaram com a ordem da princesa, apesar de já estarem acostumados com a mania da mulher em insistir com que eles se sentem junto dela e de seu pai. Eles se entreolharam e encararam o rei em seguida, esperando para saber se o monarca concordaria ou não com a vontade da filha. O rei respirou fundo e coçou o cenho.
—Querida filha minha, diga-me, por obséquio. —O rei encarou a filha. —Por que insiste tanto em desafiar minha autoridade e os protocolos da realeza?
A princesa riu.
—Querido e estimado pai, por que não posso acostumá-los agora a serem tratados com a mesma consideração com a qual eu o trato e o senhor me trata? —A princesa dá um gole em sua xícara de chá. —Lembrai-vos, pois, que chegará o dia em que eu assumirei seu lugar como rainha de Valimar e, quando esse dia chegar, os empregados do castelo farão suas refeições comigo nesta mesa.
Tal informação fez o rei se engasgar e tossir tanto a ponto de ofegar. O velho Alto não conseguia acreditar nas palavras proferidas pela própria filha, tendo ele se acostumado a tratar os empregados como meros serviçais.
—Querida filha, apenas diga-me... —O rei faz uma pausa. —Por que?
—Porque muitos dos nossos empregados vivem aqui e não possuem uma família, meu pai. —A princesa respondeu após soltar um longo suspiro. —Nunca correu por baixo de vossa coroa a ideia de que, assim como o senhor, eles também são pessoas que gostariam de ser tratadas mais dignamente?
—Mas comigo é diferente, Cordelia. —O rei se irrita. —Eu sou o REI!
—E eu sou tudo o que lhe resta além de sua coroa. —A princesa retruca. —Não podes atender a um simples pedido de vossa filha?
Alto fitou a filha com firmeza e Cordelia sustentou o olhar firme do pai com semelhante rigor, sem vacilar. Vendo que não poderia contrariar a vontade da filha, o rei apenas respirou fundo e voltou-se para os empregados, que permaneciam de pé.
—O que estão esperando? Vocês ouviram sua princesa, sentem-se de uma vez e sirvam-se. —Ordenou Alto.
Relutantemente, os empregados obedeceram e se sentaram ainda desconfortáveis pela discussão anterior entre a princesa e o rei, mas logo começaram a comer e o clima na mesa foi ficando menos tenso. A princesa sorria satisfeita e o rei não tardou a deixar a mesa, pedindo licença e se retirando. Após o café da manhã, enquanto os empregados retomavam suas funções, Cordelia se dirigiu ao jardim na companhia de Hector e sentou-se com ele em um banco do delicado coreto, no interior do jardim, dizendo-o que precisava desabafar sobre os estranhos sonhos que tem há alguns meses.
Próximo capítulo: "Os Pesadelos da Princesa".
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A Princesa da Espada Infernal
FantasiaA princesa Cordelia vivia sua vida nobre e luxuosa quando começou a ter pesadelos terríveis sobre um eclipse de sangue e uma invasão demoníaca que devastava completamente seu reino. Fora dos pesadelos, a princesa é atraída até as masmorras de seu pa...
