Nota da autora:Oi, gente! Eu fiz essa conta para essa fanfic. Eu espero que gostem! Kelmiro cheio de amor. Vou logo avisando: eu sou muito difícil de fazer coisas tristes. Às vezes eu tento, mas não sai tão bom. Eu fiz 4 capítulos dessa já. Eu espero que gostem. É triste, mas cheio de amor, amor cheio de medicina. Aproveita!
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Kelvin POV
São Paulo sempre foi grande demais pra mim. Barulhenta demais. Rápida demais. Mas, de algum jeito torto, eu sempre gostei dela assim. Eu nasci e cresci aqui, entre prédios cinzas, ônibus lotados e sonhos que pareciam maiores do que eu. Tenho 28 anos, 1,60 de altura, covinhas que aparecem quando eu sorrio sem querer e um talento absurdo pra transformar qualquer situação em conversa. Eu falo demais, rio alto demais, sinto tudo demais. Sempre fui assim.
Meu nome é Kelvin Santana. Sou gay, carismático, dramático, fofo - palavras dos outros, não minhas - e apaixonado pela vida. Eu amo gente, amo histórias, amo música alta no fone enquanto ando pela Avenida Paulista fingindo que tô num filme. Meu cabelo castanho escuro ondulado vive bagunçado, meus olhos cor de mel entregam tudo o que eu sinto, e minhas tatuagens nos dedos são lembranças de fases impulsivas. A da costela... essa eu fiz por dor de amor. E nunca me arrependi.
Minha família é complicada. Minha mãe, Ágata, é um furacão emocional. Me ama, eu sei que ama, mas também carrega um monte de conflito por eu não ser o filho "normal" que ela sonhou. Às vezes ela me sufoca de tanto carinho, às vezes me machuca com silêncios e indiretas. Meu pai morreu quando eu era criança, então eu cresci aprendendo a ser forte sozinho. Minha tia Irene La Selva sempre tentou controlar minha vida, como se eu fosse um projeto que ela precisava consertar. E meu avô Antônio... bom, ele é o tipo de homem que acha que ser gay é erro de caráter. Nossa relação é um campo minado.
Se não fossem meus amigos, eu já teria desmoronado faz tempo. Petra, doce e venenosa ao mesmo tempo. Aline, minha muralha emocional. Graça, otimista até quando tudo tá dando errado. Berenice, organizada demais, minha consciência racional. Luana, trans, linda, forte, minha inspiração diária. Daniel, bissexual, sensível, meu espelho emocional. Eles são minha família de verdade. A que escolheu ficar.
Eu sempre vivi intensamente. Flertes bobos, amores errados, conversas profundas de madrugada, risadas altas em bares baratos. Sempre quis um amor grande, inteiro, sem vergonha.
Até o dia em que meu corpo resolveu me trair.
Câncer. Raro. Agressivo.
O médico falou devagar, como se eu fosse de vidro. Eu sorri. Porque eu não sabia chorar. Porque eu não queria virar coitado. Porque minha avó Cândida sempre dizia que humor engana a morte.
Mas naquela noite, sozinho no meu quarto em São Paulo, eu chorei feito criança.
Eu tenho medo. De morrer. De sofrer. De virar só um número numa ficha. Mas eu me recuso a ser só isso.
Eu sou Kelvin Santana.
E enquanto eu respirar, eu vou continuar sendo eu.
Ramiro pov
São Paulo sempre me pareceu uma cidade feita de concreto e pressa. Eu me encaixei nela sem esforço. Talvez porque eu também seja assim: duro por fora, sempre em movimento, sempre ocupado demais pra sentir qualquer coisa com profundidade. Tenho 38 anos, 1,80 de altura, corpo musculoso que eu mantenho mais por disciplina do que por vaidade, barba um pouco cheia mas sempre bem cuidada, cabelo cacheado que eu corto curto porque não tenho paciência pra arrumar. Meus olhos castanho-escuros quase nunca entregam o que eu penso. E isso é proposital.
Meu nome é Ramiro.
Sou oncologista.
E eu nunca soube ser outra coisa.
Eu cresci em uma casa onde afeto era artigo de luxo. Meu pai era rígido, exigente, desses homens que acreditam que emoção é fraqueza. Nada nunca era suficiente pra ele. Boletim bom? Podia ser melhor. Faculdade? Tinha que ser pública. Medicina? Tinha que ser a melhor. Minha mãe era silenciosa, doce demais pra aquele ambiente pesado. Ela me protegia como podia, mas morreu cedo demais, quando eu ainda era jovem demais pra entender o que era luto de verdade. Depois disso, a casa virou um lugar ainda mais frio.
Eu aprendi cedo a não depender de ninguém.
Eu sempre fui o aluno exemplar. Não porque eu amava estudar, mas porque eu precisava ser bom em alguma coisa. Estudei em colégio público a vida inteira, passei em medicina na USP na base da obsessão e da falta de vida social. Enquanto todo mundo saía, namorava, bebia, eu estava enfiado em livros, apostilas, simulados. Eu não tinha amigos de verdade naquela época. Tinha colegas de estudo. Pessoas que sumiam assim que a prova acabava.
A medicina me engoliu inteiro.
Fiz residência em oncologia no Hospital das Clínicas. Foram os anos mais exaustivos da minha vida. Plantões intermináveis, café frio, noites sem dormir, pacientes morrendo na minha frente enquanto eu ainda tentava aprender a não tremer as mãos. Eu vi gente da minha idade morrer. Vi criança morrer. Vi família implorar. E eu aprendi a endurecer.
Eu não podia chorar.
Eu não podia me apegar.
Eu não podia prometer o que a ciência não garantia.
Então eu virei técnico. Frio. Preciso. Objetivo.
Hoje eu trabalho em um dos melhores centros oncológicos de São Paulo. Sou respeitado. Temido, às vezes. Dizem que eu sou distante demais. Que eu trato pacientes como prontuários com pernas. Eles não estão completamente errados. Se eu começar a sentir tudo, eu paro.
Minha vida fora do hospital é... inexistente.
Eu moro sozinho num apartamento limpo demais, organizado demais, silencioso demais. Não tenho fotos nas paredes. Não tenho bagunça. Não tenho ninguém esperando por mim. Eu acordo cedo, corro no parque, vou pro hospital, volto tarde, como qualquer coisa, durmo mal. Repito.
Minha família hoje se resume ao meu pai - com quem eu quase não falo - e a alguns primos distantes que só aparecem em Natal e enterro. Eu não tenho irmãos. Eu não tenho sobrinhos. Eu não tenho ninguém que dependa emocionalmente de mim.
Meus amigos... poucos.
Caio, clínico geral, meu parceiro de plantão de vez em quando. Luigi, cirurgião, italiano metido a malandro, sempre falando com sotaque misturado e tentando me arrastar pra bar. Marino, delegado e amigo de infância, o único que sabe quem eu sou fora do jaleco. Eles tentam me puxar pra vida real. Eu quase nunca vou.
Eu não namoro há anos.
Sou bissexual. Pouca gente sabe. Nunca foi exatamente um segredo, mas também nunca foi algo que eu quis discutir. Eu já me envolvi com homens e mulheres, mas sempre superficialmente. Eu entro, fico, vou embora antes de criar raiz.
Porque eu tenho medo.
Medo de perder.
Medo de falhar.
Medo de amar alguém e ver essa pessoa morrer como tantos pacientes meus.
Eu já segurei mãos demais enquanto o monitor apitava.
Eu já dei notícia demais que destruiu família.
Eu já prometi esperança demais que não se cumpriu.
Então eu parei de prometer qualquer coisa.
Eu vivo no controle.
Eu vivo na disciplina.
Eu vivo na solidão.
E eu achava que isso bastava.
Até eu começar a sentir um cansaço que não é físico.
Um vazio que nenhum diploma preenche.
Um silêncio que nenhum plantão ocupa.
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ENTRE NÓS, A VIDA,
FanfictionKelvin nunca imaginou que um diagnóstico pudesse mudar sua vida tão rápido. Ramiro nunca imaginou que um paciente pudesse atravessar todas as barreiras que construiu ao redor do próprio coração. Entre medo, esperança, encontros inesperados e um sent...
