01. Primeiro Duelo

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Esta é uma obra de ficção. Apesar de utilizar nomes de pessoas reais, todos os acontecimentos, personagens, comportamentos, relações e situações apresentados são fictícios e não representam a realidade. Qualquer semelhança é mera coincidência ou liberdade criativa.
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A luz do monitor da sala da delegacia refletia diretamente nos olhos de Ana Paula Renault. Já passava das sete da noite e o prédio da Delegacia de Crimes Financeiros de Belo Horizonte estava num silêncio pesado, quebrado apenas pelo barulho contínuo do ar condicionado.

Ana ajustou as mangas da camisa de linho claro e inclinou-se sobre a mesa de madeira, encarando a tela do computador.

Nas últimas semanas, uma grande operação da Polícia Civil vinha rastreando uma teia complexa de lavagem de dinheiro, notas fiscais frias e sonegação de impostos que abastecia esquemas clandestinos e cassinos no interior de Minas Gerais . Todas as pontas soltas da investigação apontavam para um mesmo CNPJ: uma clínica odontológica de altíssimo luxo em Belo Horizonte.

E o nome à frente da empresa era o do Dr. Irfeo Saraiva.

Ana abriu a pasta digital com os dados pessoais do investigado. Na tela, surgiu a foto de cadastro do Conselho Regional de Odontologia. Irfeo tinha cinquenta e quatro anos, feições marcadas, barba escura aparada com precisão e um olhar terrivelmente sereno.

Enquanto corria os olhos pela biografia do cirurgião dentista, filho de um influente empresário mineiro, especialista em reabilitações estéticas e dono de um patrimônio milionário, Ana sentiu uma reação física estranha. Um arrepio frio, rápido e involuntário correu pelo seu pescoço, arrepiando os pelos do braço.

Ela piscou devagar, incomodada com a própria reação.

— Fala sério, Ana Paula... — resmungou sozinha, num tom baixo, balançando a cabeça.

Ignorou a sensação incômoda no mesmo instante. Para ela, homens como Irfeo Saraiva eram apenas criminosos elegantes que acreditavam que o dinheiro e a boa aparência os colocavam acima do bem e do mal. E derrubar tipos como ele era exatamente a sua especialidade.

Horas depois, por volta das dez da noite, o som dos sapatos do inspetor anunciou que a intimação havia sido cumprida.

O Dr. Irfeo Saraiva chegou à delegacia acompanhado por um rastro de atenção não dita. Enquanto caminhava pelo corredor de concreto, os policiais nos balcões acompanharam a sua passagem.

Ele vestia uma calça social e uma camisa branca sob medida, com os dois primeiros botões abertos. Caminhava devagar, exalando uma calma desconcertante e um perfume amadeirado marcante que tomou conta do ar surrado do corredor.

Quando a porta da sala de interrogatórios se abriu, Irfeo deu o primeiro passo para dentro do cômodo.

Ana Paula continuava sentada do outro lado da mesa. A lâmpada tubular no teto iluminava a sala.
Quando ela ergueu os olhos e o viu pessoalmente pela primeira vez, o olhar firme da delegada cruzou com o dele no ar. A presença do homem era ainda mais forte do que na tela do computador. Mas Ana não deu espaço para nada além de autoridade. Ela não ofereceu a cadeira. Apenas apontou com o queixo.

Irfeo acomodou-se no assento de metal com a mesma facilidade de quem se sentava na mesa de um restaurante chique. Ele apoiou as mãos sobre as coxas, encarando Ana com uma serenidade que a irritou no primeiro segundo.

Ana abriu a pasta amarela do inquérito e jogou uma folha impressa no meio da mesa.

— Cinco milhões e setecentos mil reais — disse ela, num tom calmo, com o sotaque mineiro bem marcado e uma ironia leve. — Foi essa a movimentação na conta da sua clínica só nos últimos três meses, Doutor. O COAF achou o valor esquisito. Eu achei uma piada.

Prazer do Escondido Opowiadania do pokochania. Odkryj je teraz