O sol despontou suave sobre a ilha, tingindo o céu de tons dourados e azuis claros, como se nada de terrível tivesse acontecido. O casarão, imenso e silencioso, parecia abraçado por uma calma que enganava.
Lira foi a primeira a despertar, como sempre fazia. Saiu do quarto devagar, com passos leves, e desceu até a cozinha. O aroma do café recém-passado logo se espalhou pelos corredores, quente e reconfortante - um ritual que repetia todas as manhãs. Quando terminou, limpou as mãos na barra da blusa e ergueu a voz, doce e firme, chamando todos para o café.
Um a um, foram descendo. Kael apareceu, com o cabelo ainda bagunçado e o olhar sonolento. Depois, Bruno, esfregando os olhos. Luiz e Maré vieram por último, a pequena ainda bocejando, segurando a mão do pai. Sentaram-se à mesa, trocaram olhares e sorrisos leves - até que Lira franziu a testa e olhou para a escada.
- Onde está Thales? - perguntou, baixando a xícara.
Todos se entreolharam. Ninguém o tinha visto.
- Deve ter dormido demais - disse Bruno, tentando soar tranquilo, mas sem conseguir esconder a preocupação. - Vou chamá-lo.
- Não - disse Lira, já se levantando. - Eu vou.
Subiu as escadas com passos rápidos, percorrendo o corredor até o quarto dele. Bateu de leve na porta. Nenhuma resposta. Bateu de novo, um pouco mais forte. Silêncio. Empurrou a porta devagar e entrou.
O quarto estava vazio.
A cama estava arrumada, impecável - como se ninguém tivesse dormido ali. A janela estava aberta, deixando entrar o vento da manhã, que fazia a cortina balançar devagar. Sobre a escrivaninha, uma folha de papel repousava, dobrada ao meio.
Lira sentiu o coração disparar. Atravessou o quarto em dois passos, pegou o papel e o abriu com as mãos que tremiam levemente. A caligrafia era firme, mas traída por um tremor sutil nas letras:
"Fui embora. O Projeto Um me encontrou. Se eu ficar, ele destrói todos vocês. Não me procurem. Não me sigam. Cuidem da Maré. Cuidem uns dos outros."
- Thales
O papel escorregou de seus dedos e caiu no chão. Lira olhou ao redor, para o quarto vazio, para a cama arrumada, para a janela aberta - e o silêncio que ali havia pareceu de repente muito mais pesado, muito mais frio. Ele tinha ido embora. E ninguém sabia quando partira.
Lira desceu as escadas correndo, o papel amassado na mão, o coração batendo tão forte que doía no peito. Mal pôs os pés na sala e já falou, a voz trêmula e carregada de desespero:
- Ele foi embora... Thales se foi.
Todos se levantaram de uma vez, as xícaras tilintando na mesa.
- Como assim? - perguntou Bruno, pálido. - Ele não saiu daqui, ninguém o viu passar...
- Ele diz que o Projeto Um o encontrou... que se ficasse, destruiria todos nós - disse Lira, estendendo o bilhete, os olhos cheios d'água. - Saiu durante a noite. O quarto está vazio, a janela aberta.
Um silêncio pesado caiu sobre o grupo. Luiz, que ouvira tudo em silêncio, franziu a testa e balançou a cabeça devagar:
- Mas pra onde ele iria? A única entrada e saída da ilha são os barcos. Não há outro caminho.
Correram sem olhar para trás, atravessando a cidade em disparada, os pés batendo forte no chão de terra e pedra. O vento soprava forte, carregando o cheiro de sal e maresia. Quando chegaram ao porto, as águas batiam suavemente nas pedras. Lira foi a primeira a chegar até o velho Zé, o homem que cuidava do porto há décadas.
- Por favor... - ofegou Lira - o senhor viu? Um rapaz, mais ou menos vinte e quatro anos, cabelo escuro, de óculos... usava chapéu... ele veio aqui?
O velho a olhou e assentiu devagar:
- Sim. Um rapaz parecido passou aqui ontem à noite. Ainda pegou o primeiro barco que ia pra cidade e se foi. Um cara bastante, bastante desconfiado. Andava olhando pra trás o tempo todo, como se estivesse sendo perseguido. Não parou pra conversar, só subiu e mandou o barqueiro ir logo.
Lira e Kael se entreolharam, e de imediato ela virou-se para o velho, ansiosa:
- O senhor sabe qual é o próximo barco que parte para a cidade? Precisamos ir agora.
Antes que pudessem receber a resposta, Bruno os interrompeu, firme:
- O que vocês vão fazer? Vão atrás dele?
- Eu vou buscá-lo - disse Lira, sem hesitar. - Não vou abandoná-lo.
- E vocês não vão sem mim - falou Bruno, dando um passo à frente. - Se vão, eu também vou. Ele é meu amigo também.
Kael assentiu:
- Então vamos os três.
Viraram-se para Luiz, que segurava a mão de Maré:
- Precisamos que você e Maré fiquem aqui - pediu Lira. - Cuidem do casarão, da cidade, de tudo. Vamos voltar com Thales, custe o que custar.
- Pode ir, minha filha - respondeu Luiz, apertando-lhe a mão. - Aqui ficaremos seguros. Tragam ele de volta.
Maré correu até Lira e a abraçou forte. Lira beijou sua testa, soltou-se devagar e, sem perder tempo, os três embarcaram no primeiro barco que partia. O barqueiro soltou as amarras, e quando a embarcação afastou-se do cais, Lira olhou para trás, vendo a ilha ficar cada vez menor. À sua frente, o mar imenso e um destino incerto - mas uma certeza: trariam Thales de volta.
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PROJETO CEM VOL 2
Science FictionNo fim do volume um, Thales escuta uma voz o mandando ir embora antes que destruísse tudo.
