O despertador tocou às seis da manhã com uma urgência que Kaio Menezes considerou profundamente desnecessária. Ele enterrou o rosto no travesseiro, murmurando algo que poderia ser um xingamento ou uma oração ou provavelmente ambos. Fora da janela, o sol de março insistia em nascer, pintando o céu de Curitiba com tons de laranja que ele não estava pronto para apreciar.
- Kaio! - a voz de sua mãe ecoou do andar de baixo. - Já são seis e dez! Você não vai se atrasar, vai?
Ele suspirou, virando-se lentamente para encarar o teto. O quarto estava uma bagunça típica de um adolescente que nunca encontrava tempo para organizar nada: roupas espalhadas pela cadeira giratória, partituras musicais amontoadas na escrivaninha, e um pôster do musical Hamilton pendurado de lado na parede. Mas o que chamava a atenção era o grande calendário preso atrás da porta, com o dia quinze de março circulado em vermelho e a palavra TESTE escrita com letras garrafais.
O dia tinha chegado.
Kaio se levantou com a lentidão de quem precisa reunir coragem para enfrentar o próprio destino. Passou a mão pelos cabelos loiros curtos e ondulados, tentando domá-los antes de encarar o espelho. Não adiantou muito - eles tinham vida própria, como sempre.
- Você consegue - disse para seu reflexo. A imagem no espelho era de um garoto de dezessete anos com olhos castanhos que pareciam carregar mais preocupações do que deveriam. Seu rosto ainda tinha traços infantis, mas a altura - um modesto 1,68 metro - nunca tinha sido um problema para ele. No palco, todos eram gigantes.
O banho foi rápido, mas os pensamentos não. Enquanto a água escorria, Kaio revivia cada uma das dezenas de vezes em que ouviu a frase que odiava com todas as forças:
"Boa sorte!"
Ele tinha uma teoria, e era irrefutável (pelo menos para ele): sempre que alguém lhe desejava boa sorte, o universo se sentia pessoalmente ofendido e fazia questão de provar que não existia essa de "sorte". Foi assim no teste para a peça do ano passado, quando caiu da escada do palco minutos antes de sua apresentação. Foi assim no show de talentos da escola, quando a luz principal queimou exatamente na parte mais dramática da música. E foi assim na final do campeonato de xadrez, quando ele desenvolveu uma alergia repentina a um lanche que já tinha comido centenas de vezes.
O destino, aparentemente, tinha um senso de humor muito específico.
Vestindo sua calça jeans favorita (a que tinha um rasgo no joelho, mas que ele jurava que era "estilo") e uma camiseta azul-marinho que Kara, sua melhor amiga, dizia que combinava com seus olhos, Kaio desceu as escadas com a energia de quem está prestes a ir para a batalha.
- Bom dia, meu amor - sua mãe o cumprimentou da cozinha, com uma espátula na mão e um avental florido. Ela era uma mulher de cabelos loiros como os dele, mas os seus já começavam a mostrar fios de prata. - Pão de queijo?
- Hum - ele respondeu, pegando um da travessa que fumegava sobre o balcão. - Talvez eu só coma esse. Tô nervoso demais pra conseguir comer direito.
Sua mãe riu, mas era um riso carregado de preocupação. Ela conhecia seu filho melhor do que ninguém.
- Filho, você ensaiou essa cena um milhão de vezes. O Brandon vai estar lá pra te ajudar. E você sabe que é o melhor ator do teatro musical da escola.
- Mas e se eu travar? E se eu esquecer a fala? E se...
- Kaio - ela interrompeu, segurando o rosto do filho com as mãos ainda quentes da cozinha. - O que nós não fazemos?
Ele suspirou, repetindo o mantra que sua mãe havia criado quando ele tinha oito anos e teve seu primeiro ataque de nervos antes de uma apresentação de Natal:
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Não Me Deseje,Boa Sorte!
FanfictionKaio Menezes tem uma regra simples: nunca deseje boa sorte para ele. Afinal, sempre que alguém faz isso, alguma coisa dá errado. Aos dezesseis anos, Kaio só quer conseguir o papel principal no novo musical da escola e provar que nasceu para estar no...
