Quando deus te desenhou

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O ar quente e úmido do Rio de Janeiro parecia abraçar Ricardo com a familiaridade de um velho amigo. O cheiro de maresia misturado com o aroma de café torrado e o ruído distante das ondas em Copacabana faziam seu peito expandir.

Depois de ficar quase um ano inteiro fora, viajando ao lado do padrinho, mergulhado em reuniões exaustivas e aprendendo a como gerir os negócios da família, estar de volta à sua terra natal era como finalmente poder respirar sem esforço.

E, claro, seus dois melhores amigos não perderam tempo para se encontrar com ele.

- Oxente, Ricardo, pare um pouco! - ofegou Buco, puxando com força o braço do carioca, que o arrastava pela calçada como uma criança hiperativa em um parque de diversões. - Tu tá parecendo um cavalo doido, homem! Calma!

Caio, logo ao lado, ajustou os óculos escuros e soltou uma risada curta, balançando a cabeça diante do entusiasmo desenfreado do amigo.

- Deixa o cara, Buco. O garoto ficou preso em terno e gravata ouvindo o Luciano falar de diretoria por meses. Tá parecendo bicho solto da gaiola.

- Eu tô em casa, porra! - Ricardo riu, virando-se para os dois com os braços abertos, o sol da tarde dourando sua pele. - Vocês não têm noção da saudade que eu tava disso aqui. Vamos pro café do Rogério logo, pago a primeira rodada do que vocês quiserem.

Ricardo girou nos calcanhares e continuou caminhando a passos largos em direção ao tradicional café de esquina, mas, um pouco antes de chegar ao estabelecimento, seus pés simplesmente travaram.

A risada de Ricardo sumiu. O ruído do trânsito, as conversas dos pedestres e a brisa do mar pareceram desacelerar até virarem um zumbido distante.

Servindo uma das mesas da varanda do café, estava o homem mais bonito que ele já viu.

Ricardo piscou uma, duas vezes, achando que o calor carioca estava pregando uma peça em sua vista.

O rapaz parecia esculpido em mármore. A pele era de uma palidez irreal, um branco que lembrava a de um vampiro saído de uma pintura antiga, destacando-se de forma quase hipnótica sob a luz tropical do Rio, os cabelos que eram negros como a noite, caindo em fios sobre a testa, e os olhos escuros brilhavam como duas onix contra a luz.

Ele vestia o uniforme simples do café, um avental escuro e uma camisa branca, mas o tecido se ajustava a seu corpo esguio, delineando uma cintura marcada que chamava a atenção sem que o rapaz fizesse o menor esforço.

Os lábios então... pareciam tracejados em uma tela branca.

Era uma visão angelical. Perfeita. Se Deus realmente cria cada um deles com suas próprias mãos, Ricardo tem a certeza de que ao moldar o outro, ele deveria estar o mais inspirado possível.

- Cara, sai dessa. Esse aí é problema - a voz de Caio ressoou de repente ao lado do seu ouvido, puxando Ricardo de volta para a realidade com um banho de água fria.

O carioca piscou, ainda um pouco hipnotizado, e olhou de canto para Caio, franzindo o cenho.

- Como assim? - A pergunta saiu quase indignada. Como poderia um ser tão belo e sereno ser problema? Para Ricardo, a única propensão daquele garoto era a de deixar o peito, e as calças, de qualquer um apertados apenas com um olhar daquela imensidão escura.

- Ele é conhecido do 'Gério, sabe? Já nos cruzamos algumas vezes - interveio Buco, ajeitando a postura e assumindo um tom mais sério, cauteloso. - É gente boa, honesto... mas ele não é do mesmo meio que o nosso, Ricardo.

A espinha de Ricardo gelou com um incômodo imediato, o tom do amigo atingindo um ponto doloroso.

- Que porra é essa? - Ricardo disparou, encarando Buco com incredulidade e uma irritação crescente no olhar. - Desde quando tu é elitista, mermão? Ficou esnobe enquanto eu tava fora, é?

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