Dom Cooper

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Era início da quaresma de 1977, mais precisamente no dia 28 de fevereiro. Era o ano da serpente de fogo do calendário lunar chinês e naquela madrugada de segunda-feira a lua crescente imperava solitária no céu limpo de fim de verão. Eu tentava organizar os 53 passageiros do passeio de trem que eu fazia a cada quinzena. Horário de partida marcado para as 3h da manhã, e aquele grupo de turistas malucos estavam animadíssimos para passar a semana passeando pela serra catarinense a bordo de uma maria fumaça de 1920.

Eram os anos 70, eram jovens e o único objetivo era curtir. Esse grupo em especial parecia ao meu ver diversificado, e estavam saindo de um fim de semana que passaram acampando num festival de rock realizado numa das fazendinhas que ficava num meio de mato qualquer próximo ao litoral. Eram malucos. A ponto de uma moça grávida, que não contava mais de 23 anos, e seu marido que ainda não tinha chegado aos 30, que organizavam tudo. Apesar de estar no fim da gravidez essa moça não viu problema em acampar ou ir de trem passear uma semana inteira nas terras altas de Santa Catarina. Estavam entre amigos e como a composição naquela semana era de apenas 2 pequenos vagões também não vi maiores impedimentos.

O restante dos companheiros dessa noite, tinham as mais diversas descrições por assim dizer. Lembro de estar na lista de passageiros um menino que se achava adulto, mas que tinha apenas uns 12 anos, e o mais velho era o bisavô dele que estava comemorando 82. Eram artistas, e empresários. Donas de casa e hippies. Ricos e pobres. Tristes e alegres. Solitários felizes e famosos carentes. E o mais interessante de todos claro, eu, o maquinista José da Silva, um medroso que odiava trabalhar no turno da noite por causa do escuro, e da altura dos penhascos pelo caminho.

Antes de sair eu fazia questão de alertar os passageiros para alguns perigos que poderíamos encontrar pelo caminho. No caso, dois deles também me apavoravam além dos que você já sabe. O primeiro era o clima. No alto da estrada desce às vezes uma cerração típica da serra que me cega e, apavorado que eu ficava, parava a máquina estivesse onde estivesse para esperar passar, e o pior é que ela sempre aparecia na ponte de ferro que ficava no mínimo à uns 30 metros do chão. O outro perigo é a Vinícola. Não só porque estava abandonada e caindo aos pedaços, mas por ser muito mal-assombrada. Eu, para me proteger das coisas que eu acho que vi, sempre fazia o sinal da cruz com as duas mãos quando passava lá, isso porque o nosso vapor passava bem no meio da vinícola. O trilho até hoje corta o lugar entre o parreiral e a casa grande, ambos ficavam bem próximo ao que antes era uma senzala e a adega.

Sempre foi um alivio sair de lá.

Mas naquela noite de fevereiro o céu estava limpo, o verão quase chegando ao fim ainda tinha noites muito quentes e aquela não era exceção. A moça grávida estava gorda, com os pés e o nariz inchados, e com um sorriso nos lábios atendia à todos com atenção. Era jovem demais para entender a gravidade de qualquer situação ruim, inclusive da sua saúde. Quando o trem saiu da estação do litoral ainda à noite, levava a festa já à pino com todos os convidados animados, regados às mais diversas substâncias e bagulhos. Eu puxei o apito e acelerei a máquina. Ansiosos todo mundo daquela festa insana toda comemorou. Seguimos viagem pelos trilhos planos até chegar à suave subida que ia se formando a nossa frente. Passamos pelas pontes de ferro com paisagens belíssimas da mata atlântica abaixo de nós, e acima, um céu misturando o azul escuro da noite com o laranja rosado do sol chegando, pipocado por estrelas extremamente brilhantes por toda parte. Inspirador.

A moça grávida me pareceu bem, até àquela altura tinha bebido só um vinho aqui outro ali, assim como recomendou seu médico. Seu marido já não, era bem mais chapado que isso. Bom, apenas me restou levar o trem pelas montanhas até entrarmos no túnel mais sinistro que alguém pode ver e esperar para ver mais uma vez o que ele é capaz de fazer com os que se atrevem passar por ele.

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⏰ Last updated: Aug 14 ⏰

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